"A Natureza não se uniu para nos tramar", por Vera Xavier
O vento, a seca e o fogo entram num bar… num matagal.
- 26 jul, 20:31
Portugal, Espanha e França a arderem ao mesmo tempo. Um cenário dantesco, devastador, até. Ver a confusão e a dor das pessoas, as casas ameaçadas e as árvores consumidas pelas chamas é algo que nos faz doer a alma. Em 2026, a área ardida na União Europeia já ultrapassou largamente a média dos últimos vinte anos. França vive o pior ano de que há registo, centenas de milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas e três bombeiros morreram nos fogos que atingiram o sul da Europa. No meio desta tragédia, houve um momento que me comoveu: Portugal enviou 128 operacionais e 500 rações de combate para Ávila porque, no início de julho, durante o incêndio de Vouzela, tínhamos sido nós a receber a ajuda de 120 operacionais espanhóis. Ninguém arde sozinho. Ninguém se salva sozinho. Se esta não é uma das imagens mais bonitas que a Europa nos podia dar de si própria, digam-me lá o que é. Hoje por ti, amanhã, provavelmente, por mim. O fogo, ao contrário de algumas pessoas, não respeita fronteiras nem precisa de passaporte.
É normal ouvir nestes momentos, alguém, geralmente com um sorriso meio pretensioso e uma alarmante falta de empatia, que dispara um: “Tudo acontece por uma razão.” Ai sim? Então explica-me qual foi a razão cósmica para aquela senhora ter perdido, em Vouzela, a casa que pertencera aos pais. Porque é que tanta gente perdeu tanto em Leiria, Grândola, Pedrogão Grande e outras localidades? Vou até sentar-me. Leva o teu tempo.
Quase tudo acontece por causas, o que não significa que aconteça por um propósito dirigido a nós. Confundir causa com desígnio divino é uma das formas mais sofisticadas de dizer disparates com ar profundo. A vida não vem com um argumentista encarregado de fechar todas as pontas soltas no último episódio. Ainda bem, porque, se assim fosse, seríamos todos figurantes de uma novela escrita por alguém com um gosto duvidoso por tragédias. Talvez a verdade, mais seca e infinitamente mais libertadora, seja esta: nem tudo acontece por uma razão, mas podemos escolher o que fazemos com aquilo que nos aconteceu.
Repara nisto: sabemos quais as bagas que matam porque alguém as comeu e morreu. Sabemos quais os cogumelos que alimentam, quais são usados na medicina e quais nos mandam conversar com o universo inteiro num sábado à noite porque alguém, algures, os experimentou primeiro. (Como é que eu sei que a consciência se expande de uma maneira incrível, que as cores têm outras camadas, que se vêem outras dimensões, que magia acontece? Hum… foi por uma amiga). Alguém ficou roxo porque aquele cogumelo era letal e alguém disse algo do género: “Ai que aquele é dos maus!”, outra pessoa passou seis horas a discutir metafísica com uma vassoura e o resto da tribo tomou notas: “Este cogumelo é mágico, caneco! Aponta no caderno.” E repara, uma grande parte desse saber foi guardado e transmitido por mulheres: curandeiras, parteiras e conhecedoras de ervas. Nem todas as acusadas de bruxaria eram curandeiras e nem todas foram queimadas… ainda cá estamos, não é? Nós somos as suas descendentes. Muitas foram, contudo, perseguidas por serem pobres, vulneráveis, incómodas ou, pelo contrário, por saberem mais do que era considerado aceitável. Volta ao tema, Vera.
Qualquer mulher da nossa geração reconhece esta imagem sem precisar de diploma: há coisas que só se libertam quando deixamos de as conservar como relíquias. Certo, mulher? As nossas avós queimavam cartas antigas, fotografias, roupas de luto e restos de vidas que já não faziam sentido na vida seguinte. - Tens coisas para queimar, não tens? Eu sei. Compreendiam no corpo o poder simbólico de um fim. O fogo destrói, mas também sublima. Chamo-lhe, nos meus programas, o Fogo da Transmutação: a fogueira interna que expurga aquilo que já morreu - embora continue a ocupar espaço -, e abre caminho ao novo.
Convém, no entanto, não transformar uma catástrofe real numa metáfora espiritual conveniente. Uma floresta carbonizada não ardeu para nos ensinar uma lição. A casa daquela senhora não desapareceu para que ela "evoluísse". A dor alheia não pode servir de cenário à nossa "iluminação".
Em alguns ecossistemas, o fogo faz parte dos ciclos naturais e pode favorecer a regeneração, mas os incêndios extremos, agravados pelo calor, pela seca, pelo abandono do interior e por décadas de gestão florestal pensada a eucalipto e não a gente não são uma limpeza espiritual da Terra. É fogo que obedece à física e não ao karma. Parte da conta é nossa e fingir o contrário é fugir à responsabilidade, mas o planeta está em constante mutação e isso tem consequências que nos afetam.
A Terra transforma-se à sua escala há muito mais tempo do que nós existimos para ter opinião sobre o assunto. Parte da região que hoje conhecemos como Saara esteve debaixo de um enorme mar, habitado por serpentes marinhas gigantes, enormes peixes-gato, crocodilianos e outras criaturas capazes de fazer qualquer influencer cheio de testosterona injetável cancelar imediatamente as férias. A Europa e as Américas já estiveram unidas, até o Atlântico começar a abrir-se e decidir que aquela relação geológica precisava de espaço. Será que foi aqui que se afundou a Atlântida? Foco, Vera! Continentes partem-se, oceanos nascem, mares secam e desertos avançam sobre cidades e impérios inteiros. A Terra, caneco, não está zangada com ninguém quando o faz. Muda porque a mudança faz parte dos seus processos, não porque tenha um plano maquiavélico para executar.
Também nós, enquanto espécimes vivos… uns mais do que outros, vivemos em permanente transformação. Qualquer ser vivo nasce, cresce, adapta-se e, um dia, desaparece. A Terra transforma-se ao seu ritmo, nós ao nosso. Um dia a Terra também vai desaparecer.
O tempo e os processos são diferentes, mas a imobilidade não existe em nenhum dos dois. Resistir à mudança é uma tentativa bastante humana de negociar com a única coisa que nunca parou para ouvir propostas.
É tão engraçado como nos achamos protagonistas de tudo. Julgamos que detemos terrenos, casas, árvores e rios, como se a Terra tivesse ido ao notário assinar uma escritura a nosso favor. Não mantemos em mente que, daqui a pouco, num ápice, vamos embora. Esta consciência não nos desresponsabiliza das nossas ações, muito pelo contrário. A pergunta é: deixamos a Terra melhor ou pior do que quando chegámos? Já plantaste uma árvore? Separas o lixo? Poupas água ou descarregas o autoclismo sempre que deitas um rolinho de cabelo na retrete? Estamos aqui de passagem e aquilo que fazemos com este tempo breve é o que conta: cuidar deste planeta absurdamente deslumbrante, que arde, transforma-se e renasce sem nos pedir licença alguma, nem tem de pedir. Cuidar em vez de destruir não nos faz subir magicamente um degrau na Roda de Samsara, mas faz de nós seres humanos um pouco menos inconscientes, logo, menos imaturos. E, irmã, nós viemos aqui para nos melhorar e isso tem implícito cuidar de nós, dos outros - sem controlo - e da maravilhosa Terra. Nota-se que adoro este planeta? Sim, conheço-o bem.
Proponho-te um exercício para esta semana, pode ser? Escolhe uma mudança que te esteja a doer só de pensares em fazê-la, seja pessoal, profissional ou espiritual. Pergunta-te, sem pena de ti própria: isto é consequência de alguma coisa que eu fiz, que eu não fiz e ainda posso corrigir, ou é a vida a fazer aquilo que fez sempre, mudar sem me pedir autorização? Corrige o que está ao teu alcance. Faz as pazes com aquilo que não controlas. E olha, da próxima vez que alguém te disser que "tudo acontece por uma razão", oferece-lhe uma baga. Não digas qual.
