Crónicas

"A danada da lealdade feminina", por Vera Xavier

Há momentos em que a vida nos entrega exactamente aquilo por que trabalhámos e, antes de termos tempo de abrir o champanhe, a culpa já abriu um inquérito impiedoso com 123 perguntas.

  • 9 ago, 20:33

Fomos promovidas, o negócio cresceu, surgiu uma oportunidade extraordinária ou apaixonámo-nos por um projecto capaz de mudar a nossa vida e, em vez de celebrarmos, começamos imediatamente a negociar contra nós próprias: "Mas quem somos nós para querer mais?", "Será que merecemos ter mais do que a nossa família?", "Se tiver sucesso, vão afastar-se de mim?"

De repente, comunicamos uma conquista como quem anuncia uma fuga de água no prédio, pedimos desculpa pelo incómodo, garantimos que não foi nada de especial e praticamente prometemos não voltar a prosperar sem avisar. Quem nunca? É aqui que entra a danada da lealdade, esse contrato silencioso que herdámos da nossa linhagem familiar e que, embora nunca o tenhamos assinado, continuamos a cumprir sempre que confundimos amor com repetição.

O conceito de "lealdade invisível" foi desenvolvido na terapia familiar por Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark e refere-se aos compromissos silenciosos que mantemos com a família, com as respectivas expectativas e com aquilo que sentimos ser justo devolver a quem veio antes de nós. Não se trata de uma maldição da linhagem nem de uma herança gravada no ADN, mas de maneiras de amar, pertencer e pagar dívidas emocionais que aprendemos tão cedo que acabámos por confundi-las com a nossa identidade. A família pode ser raiz, colo e abrigo, mas também pode funcionar como uma âncora, o que é muito útil durante uma tempestade; o problema começa quando queremos navegar e alguém insiste que segurança é nunca sair daquele porto de abrigo, que demasiadas vezes também é um porto de controlo.

Uma das formas mais poderosas desta lealdade é a que sentimos em relação ao sacrifício das mulheres da nossa família. Vimos mães, avós e tias abdicarem em prol dos outros, algumas desistiram de estudar, trabalhar, amar melhor ou simplesmente de ter uma tarde que não estivesse ao serviço de alguém, e disseram-nos que eram mulheres extraordinárias porque aguentaram tudo.

Foram felizes? Tenho sérias dúvidas, mas o sofrimento feminino foi romantizado durante tanto tempo que ainda confundimos resistência com realização e capacidade de suportar com prova de amor.

Quando chega a nossa vez de escolher diferente, a culpa pergunta se não estaremos a desonrá-las. Se elas tiveram tão pouco, quem somos nós para querer mais? Se viveram cansadas, teremos o direito de descansar? Se ficaram onde não eram felizes, não será egoísmo nosso sair desse lugar de sofrimento a que aprendemos a chamar "normal"? O paradoxo é extraordinário, porque agimos como se elas não tivessem desejado ousar mais e como se a nossa renúncia pudesse reparar tudo aquilo a que também elas tiveram de renunciar.

Vamos lá a ver: honrar não é imitar! Podemos agradecer o caminho que abriram sem termos de tropeçar nas mesmas pedras e, se uma mulher se sacrificou para que a seguinte tivesse escolha, usar essa escolha talvez seja a forma mais adulta de lhe agradecer. As nossas avós e mães abriram portas à força, com muitas lágrimas e muita dor reprimida, por isso mesmo, a nossa geração tem de perceber por que razão ainda entra no raio das portas de cabeça baixa. Esta postura deixa as nossas ancestrais orgulhosas ou limita-se a prolongar o sofrimento que elas próprias não puderam evitar?

Outra forma de lealdade prende-nos ao lugar que ocupamos dentro da família, porque todas as famílias distribuem papéis, mesmo sem reunião, acta ou votação democrática. Há a responsável, a rebelde, a que precisa de ajuda até ao fim dos tempos, a que mantém a paz e a que nunca dá problemas. Quando uma destas mulheres muda, o sistema inteiro sente o chão mexer, porque os sistemas familiares detestam mudanças, sobretudo quando beneficiavam bastante da versão anterior de alguém.

Se somos a mulher sempre disponível, começar a dizer "não" vai desiludir alguém; se somos a que nunca teve dinheiro, prosperar altera as conversas, as expectativas e os pedidos; se crescemos mais do que o grupo considera admissível, podemos ouvir aquela frase que tantas de nós conhecem: "Olha, agora tens a mania que és boa." É por isto que tantas mulheres trabalham em segredo, escondem os seus projectos e têm um medo terrível de dizer em voz alta que querem ter sucesso ou, audácia suprema, que já o têm. A inveja familiar existe e pode ser tremenda, mas antecipar o abandono também nos leva a uma proeza curiosa: diminuímo-nos e isolamo-nos antes que alguém tenha sequer a oportunidade de o fazer.

Talvez esteja na altura de deixarmos de pagar antecipadamente por uma rejeição que pode nunca acontecer. Quem nos ama pode precisar de tempo para se adaptar ao nosso crescimento, mas não precisa que amputemos uma parte de nós para preservar a relação; quem só nos aceita pobres, discretas e convenientemente humildes não está a proteger o vínculo, está a proteger a sua própria posição dentro da dinâmica familiar. Podemos amar profundamente a família sem lhe entregar a direcção da nossa vida.

A terceira forma de lealdade vive na crença de que uma mulher não pode ter tudo. Será que conseguimos ter uma família, uma carreira bem-sucedida, amor, prazer, dinheiro e, num dia particularmente auspicioso, uma planta de manjericão que sobreviva? Levei anos a conseguir manter uma viva, portanto, reconheço que este último objectivo pode exigir uma intervenção divina.

Talvez não consigamos ter tudo ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e sem apoio, mas isso chama-se realidade e não incapacidade feminina, mulher! O busílis começa quando transformamos uma questão de estrutura, tempo, prioridades e negociação numa sentença sobre aquilo que merecemos. Como vimos demasiadas mulheres abdicar de alguma coisa, quase sempre em silêncio, aprendemos que toda a conquista feminina exige uma oferenda ou uma troca: a carreira ou a família, o amor ou a liberdade, o sucesso ou a paz. Continua a ser penoso sentir que temos de escolher entre a família e a carreira, porque qualquer decisão parece obrigar-nos a sacrificar uma parte de nós ou a deixar por viver uma área vital da nossa existência.

A juntar à festa, existem questões sociais muito concretas, porque não podemos chamar "crença limitadora" à falta de creches, à desigualdade salarial, à divisão desigual dos cuidados ou a um companheiro que não assume metade da vida comum. Há obstáculos que não desaparecem das nossas monas lindas com afirmações diante do espelho, desaparecem com apoio, limites, políticas e uma conversa bastante concreta e adulta à mesa da cozinha. Talvez devamos, por isso, substituir a pergunta "Será que consigo ter tudo?" por outras mais honestas: "O que significa tudo para mim?", "O que quero nesta fase da minha vida?", "O que é prioritário agora?" e "Que apoio, negociação ou escolha tornaria isso possível?"

Não precisamos de ser supermulheres, até porque elas não são reais, caneco! Essa personagem fictícia faz tudo, resolve tudo e, provavelmente, ainda cose a própria capa às três da manhã, sem óculos de ver ao perto. A Wonder Woman é mais uma falácia e uma armadilha, tal como o Super-Homem, diga-se de passagem, embora ninguém pareça exigir que ele salve o planeta, faça o jantar, marque as consultas da família e se lembre de comprar papel higiénico antes de regressar a Metrópolis.

Escolhamos, então, um sonho que temos adiado e perguntemos a nós próprias: se avançarmos, a quem sentimos que estaremos a trair? Que relação receamos perder? Que mulher da nossa família acreditamos que ficará para trás? Depois façamos uma pergunta menos confortável, mas muito mais importante: quanto nos custa continuar leais a esse medo?

Nós somos as mulheres que as nossas avós gostariam de ter sido, mas esta frase só ganha corpo quando fazemos aquilo que talvez tenha sido impossível para elas: escolher. Portanto, irmã, quando a culpa voltar a perguntar "Quem somos nós para querer mais?", talvez esteja na altura de responder: "Nós somos as mulheres que vieram continuar a história e não repetir a merda do capítulo!"

Agora, sim, podemos abrir o champanhe, porque já percebemos que somos muito mais corajosas, criativas e inteligentes do que imaginávamos.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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