"Quem estragou o amor? Uma investigação psicológica (com alguns suspeitos habituais)", por Vera de Melo
Há dias em que parece que o amor entrou em saldos.
- 16 jul, 11:34
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Desliza-se para a esquerda. Desliza-se para a direita. Faz-se "match". Deixa-se de responder. Volta-se a aparecer três semanas depois com um "Olá, desapareci". Diz-se "amo-te" ao fim de uma semana e "preciso de espaço" quinze dias depois.
No meio disto tudo, há quem conclua:
"O amor acabou."
Será?
Como psicóloga, desconfio sempre das conclusões rápidas. Por isso decidi abrir um inquérito.
Quem estragou o amor?
Depois de ouvir centenas de histórias em consulta, de ler décadas de investigação científica sobre relações e de observar este estranho mundo onde se procura intimidade através de um ecrã, reuni os principais suspeitos.
As provas são fortes.
Mas talvez o culpado não seja quem imaginamos.
Suspeito n.º 1: o "não estou preparado para uma relação"
Esta frase costuma surgir depois de meses de encontros, mensagens até às duas da manhã, apresentações aos amigos e planos para as férias.
Curioso, não é?
Na verdade, muitas vezes a tradução psicológica não é "não estou preparado".
É "não estou preparado... para uma relação contigo."
Dói ouvir.
Mas dói menos do que viver meses ou anos alimentado por falsas esperanças.
A honestidade continua a ser uma das maiores demonstrações de respeito.
Suspeito n.º 2: o desaparecedor profissional
Também conhecido por "ghost".
Responde todos os dias.
Faz planos.
Envia corações.
Diz que nunca conheceu ninguém assim.
E, de repente...
Silêncio absoluto.
Não morreu.
Não lhe caiu o telemóvel ao mar.
Não foi viver para um mosteiro no Tibete.
Simplesmente desapareceu.
Na psicologia, este comportamento está muitas vezes associado ao evitamento emocional.
Há pessoas que preferem fugir ao desconforto de uma conversa difícil.
O problema é que aquilo que evita ansiedade num lado cria insegurança no outro.
Suspeito n.º 3: o apaixonado em velocidade máxima
"És a mulher da minha vida."
Ao terceiro encontro.
"Quero envelhecer contigo."
Antes de saber se gostas de praia ou de montanha.
Nem sempre é amor.
Às vezes é idealização.
E a idealização apaixona-se por uma versão imaginária da outra pessoa.
Quando a realidade aparece, a desilusão chega logo atrás.
Suspeito n.º 4: o terapeuta gratuito
Conta todos os traumas da infância no primeiro jantar.
Fala dos ex durante duas horas.
Da mãe.
Do pai.
Do patrão.
Do cão.
No fim da noite sabes mais sobre a vida dele do que alguns familiares.
A vulnerabilidade aproxima.
Mas intimidade não significa despejar toda a dor sobre alguém que acabaste de conhecer.
A confiança constrói-se.
Não se despeja.
Suspeito n.º 5: o controlador romântico
"É porque gosto muito de ti."
"É só preocupação."
"Quem é esse colega?"
"Não gosto dessa roupa."
"Manda-me a localização."
Não.
Isto não é amor.
É controlo.
E controlar nunca foi uma linguagem do amor.
Suspeito n.º 6: o caçador de red flags
Este merece um capítulo especial.
Hoje parece que algumas pessoas entram num encontro como quem faz uma inspeção automóvel.
"Mastiga alto."
Red flag.
"Tem Android."
Red flag.
"Não gosta de sushi."
Red flag.
"Demorou vinte minutos a responder."
Red flag.
Calma.
Nem tudo é uma red flag.
Às vezes é apenas... uma pessoa.
Confundimos incompatibilidades com toxicidade.
Uma verdadeira red flag não é alguém que demora uma hora a responder.
É alguém que mente repetidamente.
Que manipula.
Que humilha.
Que controla.
Que invalida aquilo que sentes.
Que te faz duvidar da tua própria realidade.
Quando tudo é uma red flag...
Nada é uma red flag.
Suspeito n.º 7: o colecionador de opções
"Estou só a ver o que há por aí."
Vivemos convencidos de que existe sempre alguém mais bonito.
Mais interessante.
Mais divertido.
Mais compatível.
Barry Schwartz chamou-lhe o "Paradoxo da Escolha".
Quanto mais opções acreditamos ter, menos satisfeitos ficamos com a escolha que fazemos.
É como estar num restaurante com uma carta de cinquenta páginas.
Quando finalmente escolhes um prato, passas o jantar inteiro a olhar para o da mesa ao lado.
O problema é que o amor não cresce onde existe a sensação permanente de que talvez apareça alguém melhor.
Existe sempre alguém diferente.
Melhor... isso já é outra conversa.
Suspeito n.º 8: as redes sociais
Nunca foi tão fácil acreditar que todos os casais são felizes.
Jantares perfeitos.
Pedidos de casamento dignos de um filme.
Viagens paradisíacas.
Declarações apaixonadas.
O algoritmo adora casais felizes.
Curiosamente nunca mostra a discussão porque alguém se esqueceu de comprar leite.
Nem a conversa difícil sobre dinheiro.
Nem o silêncio depois de um dia complicado.
Comparamos os nossos bastidores com o palco dos outros.
É uma comparação impossível de ganhar.
Suspeito n.º 9: o detetor de sinais
"Demorou duas horas a responder."
Não gosta de mim.
"Visualizou."
Está com outra pessoa.
"Escreveu apenas 'ok'."
Acabou tudo.
A ansiedade tem um talento extraordinário.
Transforma ausência de informação em certezas absolutas.
O cérebro humano odeia a dúvida.
Quando não sabe...
Inventa.
E quanto mais medo temos de sermos rejeitados, mais facilmente encontramos provas onde existem apenas coincidências.
Às vezes um "ok" é só um "ok".
Suspeito n.º 10: o perfeccionista romântico
Acredita que existe uma pessoa perfeita.
Que nunca vai desiludir.
Nunca vai discutir.
Nunca vai errar.
Tenho uma má notícia.
Nem tu és essa pessoa.
John Gottman, um dos maiores investigadores das relações amorosas, descobriu algo extraordinário.
Os casais felizes não são aqueles que nunca discutem.
São aqueles que sabem reparar depois da discussão.
Pedir desculpa.
Voltar atrás.
Dar um abraço.
Fazer uma piada.
Escolher a relação em vez do orgulho.
Suspeito n.º 11: o ego
Talvez este seja o mais perigoso de todos.
Nunca pede desculpa.
Nunca admite erros.
Nunca cede.
Quer ganhar todas as discussões.
Esquece-se de que uma relação não é um campeonato.
É uma equipa.
Há uma diferença enorme entre ter razão e cuidar de alguém.
E, às vezes, quem ganha a discussão...
Perde a relação.
E o principal suspeito...
Depois de analisar todas as provas...
Depois de ouvir todas as testemunhas...
Depois de anos a ouvir histórias de amor em consulta...
Acho que encontrei o verdadeiro culpado.
O medo.
Medo de confiar.
Medo de sofrer.
Medo de não ser suficiente.
Medo de ser abandonado.
Medo de voltar a acreditar.
A neurociência explica-nos que o cérebro aprende rapidamente com a dor. Depois de uma desilusão, cria mecanismos de proteção para evitar que a história se repita.
Ficamos mais desconfiados.
Mais defensivos.
Mais atentos ao perigo.
É um mecanismo de sobrevivência.
O problema é que as mesmas muralhas que impedem a entrada da dor também impedem a entrada do amor.
Talvez seja por isso que hoje confundimos independência com distância.
Exigência com perfeição.
Autoproteção com frieza.
E maturidade com medo.
No fundo, passámos tanto tempo à procura de red flags que deixámos de procurar green flags.
A honestidade.
A gentileza.
A coerência.
A capacidade de pedir desculpa.
A vontade de crescer.
A segurança que não faz barulho.
Talvez ninguém tenha estragado o amor.
Talvez tenhamos complicado aquilo que sempre foi simples.
O amor nunca precisou de filtros, de jogos psicológicos, de mensagens estrategicamente respondidas três horas depois para parecer menos interessado ou de testes para perceber quem gosta mais.
Precisou sempre das mesmas coisas.
Coragem para ser vulnerável.
Respeito para cuidar do outro.
Humildade para reconhecer os próprios erros.
E maturidade para perceber que amar nunca foi encontrar alguém perfeito.
Foi encontrar alguém imperfeito que escolhe, todos os dias, construir uma relação contigo.
A conclusão desta investigação?
O amor é inocente.
Os culpados andam à solta.
Vestem-se de ego.
De medo.
De pressa.
De orgulho.
De excesso de opções.
De comparações constantes.
De conversas que nunca aconteceram.
E, às vezes, até de uma lista interminável de red flags.
Mas há uma boa notícia.
Nenhum destes culpados é mais forte do que duas pessoas que escolhem comunicar em vez de adivinhar, compreender em vez de atacar, reparar em vez de desistir.
Porque o amor nunca esteve estragado.
Apenas ficou escondido debaixo das defesas que construímos para não voltar a sofrer.
E talvez a maior coragem dos nossos dias não seja encontrar o amor.
Seja voltar a acreditar nele.
Mesmo sabendo que nenhuma relação será perfeita.
Porque amar nunca foi viver uma história sem cicatrizes.
Foi encontrar alguém com quem as cicatrizes deixam de ser uma sentença e passam a ser apenas... parte da história.
E isso, felizmente, continua a não existir em nenhuma aplicação.
Ainda bem
