"Ninguém vos conta isto: as férias escolares podem esgotar uma família", pela psicóloga Vera de Melo
Quando chegam as férias de verão, fala-se muito da felicidade das crianças. Fala-se das idas à praia, dos gelados, das brincadeiras até ao pôr do sol e dos dias sem horários. Mas fala-se pouco de quem torna tudo isso possível.
- 13 jul, 15:48
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Os pais.
Para muitas famílias, o verão não é uma pausa. É uma maratona.
De repente, desaparece a rotina que organizava os dias. Já não há escola, atividades, horários definidos nem aquela previsibilidade que, durante o resto do ano, ajuda a equilibrar a vida familiar. Em seu lugar surgem perguntas constantes: quem fica com as crianças, como ocupar os dias, como conciliar o trabalho com as férias escolares, como responder ao inevitável "O que vamos fazer hoje?".
A verdade é que muitos pais chegam a setembro mais cansados do que estavam em junho. E isso não faz deles maus pais. Faz deles seres humanos.
Existe uma enorme pressão para proporcionar aos filhos um verão inesquecível. Parece que todos os dias têm de incluir uma atividade diferente, uma praia nova, uma viagem especial ou uma experiência memorável. As redes sociais alimentam esta ideia, mostrando famílias sempre felizes, crianças sempre entretidas e pais aparentemente incansáveis.
Mas a realidade é outra.
Cuidar de crianças exige uma disponibilidade emocional enorme. Não basta estar presente fisicamente. É preciso responder a conflitos, gerir birras, lidar com o tédio, mediar discussões entre irmãos, garantir segurança e, ao mesmo tempo, tentar encontrar algum espaço para descansar. Tudo isto enquanto muitos pais continuam a trabalhar ou aproveitam as férias para tratar de tudo aquilo que ficou adiado durante o ano.
A psicologia lembra-nos de uma verdade importante: o bem-estar dos filhos está profundamente ligado ao bem-estar dos pais. Um adulto emocionalmente esgotado tem mais dificuldade em ser paciente, disponível e regulador das emoções da criança. Por isso, cuidar de si não é um ato de egoísmo. É uma forma de cuidar melhor da família.
Vale a pena abandonar a ideia de que é preciso ser um animador turístico durante dois meses. As crianças não precisam de um programa extraordinário todos os dias. Precisam de tempo, de atenção, de brincadeira livre e, sobretudo, de pais emocionalmente presentes. Muitas das memórias mais felizes da infância não nascem de viagens caras, mas de pequenas rotinas: um gelado ao fim da tarde, uma guerra de água no jardim, um jogo de cartas ou uma conversa sem pressa.
Também é importante aceitar que o tédio faz parte das férias. Hoje existe uma tendência para preencher cada minuto das crianças, como se o aborrecimento fosse um problema. Não é. É muitas vezes no vazio que nasce a criatividade, a autonomia e a capacidade de inventar.
E os pais? Esses também precisam de férias dentro das férias. Nem que seja uma caminhada sozinhos, um jantar a dois, um café em silêncio ou meia hora para ler um livro. Não é um luxo. É uma necessidade.
Talvez este verão possas libertar-te da obrigação de criar férias perfeitas. Os teus filhos não vão recordar quantas atividades fizeste com eles. Vão lembrar-se de como se sentiram ao teu lado.
E, para isso, não precisam de um pai ou de uma mãe sem cansaço.
Precisam de um pai ou de uma mãe que também saiba cuidar de si.
