"As redes sociais estão a roubar-nos o verão?!", pela psicóloga Vera de Melo
Há um momento que se repete todos os verões. Alguém chega à praia, pousa a toalha, olha para o mar... e, antes de sentir a água nos pés, pega no telemóvel.
- 12 jul, 16:00
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Fotografa o chapéu de sol, filma as ondas, faz um vídeo do pôr do sol, escolhe o melhor filtro, escreve uma legenda e só depois vive o momento.
A pergunta é inevitável: estamos a desfrutar do verão ou estamos demasiado ocupados a mostrá-lo?
As redes sociais mudaram a forma como viajamos, como descansamos e até como construímos as nossas memórias. Hoje, muitas pessoas não vivem apenas uma experiência. Vivem-na e, ao mesmo tempo, observam-na como se fossem o realizador de um filme. Em vez de perguntarem "Estou a divertir-me?", perguntam "Isto fica bem numa fotografia?".
A psicologia explica este fenómeno através da comparação social e da procura de validação. O cérebro humano está naturalmente preparado para procurar reconhecimento. Cada gosto, comentário ou partilha ativa circuitos de recompensa, libertando dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. O problema começa quando deixamos de viver uma experiência pelo que ela nos faz sentir e passamos a vivê-la pelo impacto que poderá ter nos outros.
Sem nos apercebermos, o foco muda. Já não escolhemos um restaurante porque queremos saborear a comida, mas porque tem uma vista bonita. Procuramos praias fotogénicas em vez de praias onde realmente gostamos de estar. Interrompemos conversas para responder a mensagens, repetimos fotografias até encontrarmos o ângulo perfeito e passamos mais tempo a editar imagens do que a olhar para o mar.
Há outro efeito menos visível. Quando estamos constantemente preocupados em registar tudo, diminuímos a nossa capacidade de estar presentes. A atenção divide-se entre o momento e o ecrã. E a psicologia mostra-nos que as emoções positivas são mais intensas quando estamos totalmente envolvidos na experiência, sem distrações.
Existe ainda a armadilha da comparação. Enquanto estamos a viver as nossas férias, olhamos para as férias dos outros e imaginamos que são melhores. Esquecemo-nos de que estamos a comparar a nossa realidade, com os seus imprevistos, cansaço e dias menos bons, com uma seleção de fotografias cuidadosamente escolhidas. Ninguém publica as discussões, o trânsito, o hotel que não correspondeu às expectativas ou o dia em que choveu.
Como recuperar o verão?
Experimenta criar momentos sem telemóvel. Vai à praia e deixa-o na mala durante uma hora. Faz uma caminhada sem fotografar tudo o que encontras. Tira uma fotografia, se ela fizer sentido para ti, mas não sintas que tens de transformar cada instante em conteúdo. Pergunta-te, de vez em quando: "Estou a viver este momento ou estou apenas a documentá-lo?"
As melhores memórias raramente são as que receberam mais gostos. São aquelas em que nos esquecemos do tempo, rimos sem pensar na câmara, mergulhámos sem receio de estragar o cabelo e estivemos verdadeiramente presentes.
Porque o verão não acontece no ecrã.
Acontece no sal da pele, nas gargalhadas, nas conversas demoradas e nos momentos que ninguém viu, mas que nunca mais esquecemos. Talvez este ano o maior luxo não seja publicar férias perfeitas. Seja ter vivido umas férias de que não sentiste necessidade de mostrar tudo.
