Crónicas

"A ansiedade não tira férias", por Vera de Melo

Chega o verão e instala-se quase uma obrigação silenciosa: agora é suposto descansar, sorrir mais, aproveitar o bom tempo e voltar renovado. As fotografias das praias sucedem-se, os relatos das viagens multiplicam-se e parece que, durante algumas semanas, a felicidade se torna uma expectativa coletiva. Mas existe uma realidade que raramente aparece nas redes sociais: a ansiedade não tira férias.

  • 8 jul, 14:56

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Muitas pessoas acreditam que mudar de cenário será suficiente para mudar aquilo que sentem. Pensam que, assim que fecharem a porta do trabalho ou chegarem ao destino de férias, o stress desaparecerá automaticamente. No entanto, a ansiedade não funciona dessa forma. Ela não está presa ao escritório, à cidade ou à rotina. Está ligada à forma como o cérebro interpreta o mundo e reage àquilo que considera ameaçador.

Costumo dizer que é muito mais fácil fazer a mala do que deixar a ansiedade em casa. Levamos o fato de banho, os óculos de sol, o protetor solar... e, sem darmos conta, levamos também as preocupações, o medo de falhar, a necessidade de controlar tudo e a sensação de que temos de estar sempre preparados para o pior. Mudamos de lugar, mas continuamos a habitar a mesma mente.

É precisamente por isso que algumas pessoas têm ataques de ansiedade numa praia paradisíaca, acordam sobressaltadas num hotel de cinco estrelas ou passam dias inteiros preocupadas durante umas férias que planearam durante meses. E depois surge uma segunda emoção, muitas vezes ainda mais pesada: a culpa. "Como é possível sentir-me assim quando devia estar feliz?"

A verdade é que não há emoções proibidas no verão. Há apenas emoções que continuam a precisar de ser escutadas.

A psicologia explica-nos que a ansiedade é uma resposta normal do organismo perante aquilo que interpreta como uma ameaça. O problema surge quando esse sistema de alarme permanece ligado mesmo quando o perigo não existe. O cérebro ansioso vive em permanente estado de vigilância. Está constantemente a antecipar problemas, a imaginar cenários negativos e a procurar sinais de que alguma coisa pode correr mal. Este mecanismo não desaparece apenas porque o calendário mudou para julho ou agosto.

Na verdade, para algumas pessoas, as férias podem até aumentar a ansiedade. A rotina é um dos maiores reguladores emocionais que possuímos. O cérebro gosta da previsibilidade porque ela reduz a necessidade de estar constantemente alerta. Quando essa estrutura desaparece, surgem horários diferentes, locais desconhecidos, viagens, decisões constantes e alterações do sono. Para um sistema nervoso já sobrecarregado, todas estas mudanças podem representar mais estímulos e não necessariamente mais descanso.

Existe ainda outro fenómeno muito frequente. Durante o resto do ano, muitas pessoas utilizam o trabalho como uma forma de evitar o contacto com as próprias emoções. Entre reuniões, prazos, filhos, tarefas domésticas e responsabilidades, sobra pouco espaço para pensar. A mente está permanentemente ocupada. Quando chegam as férias, esse ruído desaparece. Pela primeira vez em muitos meses existe silêncio. E é precisamente nesse silêncio que aparecem as preocupações que estavam escondidas, os medos adiados, os conflitos internos e as emoções que nunca tiveram oportunidade de ser escutadas.

As férias não criam ansiedade. Muitas vezes apenas deixam de conseguir escondê-la. E, por muito desconfortável que isso possa ser, também pode ser uma oportunidade. Às vezes, só quando abrandamos percebemos o quanto precisávamos de parar.

Também existe uma enorme pressão social para viver um verão perfeito. Parece que todos têm de viajar, divertir-se, aproveitar cada minuto e regressar felizes. Quando a realidade não corresponde a essa imagem idealizada, instala-se a frustração. Comparar as nossas emoções com as fotografias felizes dos outros é uma das formas mais rápidas de aumentar o sofrimento psicológico. Esquecemo-nos de que as redes sociais mostram momentos e não vidas. Não compares os teus bastidores com os momentos que os outros decidiram publicar. Essa comparação nunca é justa.

Há ainda um erro que cometemos com frequência: confundimos descansar do trabalho com descansar da mente. São coisas diferentes. Podes estar de férias e continuar emocionalmente exausto. Podes passar o dia inteiro junto ao mar e continuar a viver com a cabeça no amanhã. O verdadeiro descanso acontece quando o corpo abranda, mas também quando a mente deixa de viver permanentemente em alerta.

Outra dificuldade prende-se com a crença de que descansar significa não fazer absolutamente nada. Para algumas pessoas isso funciona. Para outras, pode aumentar a ansiedade. O descanso psicológico não significa ausência total de atividade. Significa realizar atividades que restauram recursos físicos e emocionais. Para alguns será caminhar. Para outros será ler, nadar, pintar, cozinhar, conversar ou simplesmente observar o mar. O descanso não é igual para todos. O importante é perguntares a ti próprio: "O que é que verdadeiramente me faz bem?" e não "O que é que os outros esperam que eu faça nas férias?"

A boa notícia é que a ansiedade pode não tirar férias, mas tu não tens de lhe entregar o comando dos teus dias. As férias podem ser uma oportunidade para cuidares de ti de uma forma diferente. Deixo-te algumas estratégias simples que podem fazer uma grande diferença.

A primeira é abandonar a ideia de que tens de estar feliz durante todas as férias. As emoções não obedecem ao calendário. Permite-te sentir aquilo que sentes sem acrescentar uma segunda camada de sofrimento através da culpa. Pergunta antes: "O que é que esta ansiedade me está a tentar mostrar?" Muitas vezes ela apenas revela que tens vivido demasiado tempo em sobrecarga ou que tens ignorado necessidades importantes.

Outra estratégia importante passa por manter algumas âncoras da rotina. Não é necessário cumprir horários rígidos, mas ajuda manter uma hora aproximada para dormir e acordar, fazer refeições regulares e preservar pequenos hábitos que te fazem sentir seguro. Não precisas de controlar o dia ao minuto. Basta manteres pequenas referências que transmitam segurança ao teu cérebro.

É igualmente importante reduzir o excesso de estímulos. Muitas pessoas passam as férias exatamente como vivem o resto do ano: sempre ligadas ao telemóvel, às notícias, às redes sociais e ao trabalho. O cérebro não consegue recuperar se permanece constantemente em alerta. Experimenta reservar alguns momentos do dia em que o único ecrã seja o horizonte. Uma caminhada sem telemóvel pode parecer um detalhe, mas é um enorme presente para a tua mente.

Quando sentires a ansiedade a aumentar, abranda o teu corpo. Inspira lentamente pelo nariz durante quatro segundos, segura o ar durante dois e expira durante seis ou oito segundos. Repete este exercício durante alguns minutos. À medida que a respiração abranda, o cérebro começa a perceber que não existe uma ameaça imediata. Às vezes procuramos soluções muito complicadas e esquecemo-nos de que o nosso corpo sabe acalmar-se, desde que lhe demos tempo para isso.

Outra estratégia simples consiste em voltar ao momento presente através dos sentidos. Observa cinco coisas à tua volta, toca em quatro, escuta três sons, identifica dois cheiros e presta atenção a um sabor. A ansiedade vive quase sempre no amanhã. Quanto mais presente estiveres, menos espaço dás à ansiedade para te levar para um futuro que ainda não aconteceu.

Também vale a pena desafiar os pensamentos automáticos. Sempre que a tua cabeça começar a dizer "vai correr mal" ou "alguma coisa vai acontecer", pergunta-lhe com curiosidade: "Isto é um facto ou é um medo?" Nem tudo o que pensamos corresponde à realidade. Aprender a distinguir uma coisa da outra é uma das maiores formas de liberdade emocional.

Cuida também do teu corpo. Dorme o suficiente, hidrata-te, faz algum movimento, respeita os momentos de pausa e evita transformar as férias numa sucessão de excessos. Um cérebro cansado, privado de sono ou constantemente estimulado torna-se muito mais vulnerável à ansiedade.

E talvez a estratégia mais importante seja esta: não transformes as férias numa prova de felicidade. Não precisas de aproveitar cada minuto, visitar todos os lugares ou regressar com a sensação de que fizeste tudo. As melhores férias não são aquelas que enchem a galeria do telemóvel. São aquelas em que regressas mais leve do que partiste.

Se a ansiedade continuar intensa, provocar ataques de pânico, impedir o descanso ou estiver presente há muito tempo, procura ajuda especializada. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza. É um ato de coragem e de cuidado contigo.

O verão muda a temperatura, prolonga os dias e altera a paisagem. Mas não transforma automaticamente aquilo que sentimos por dentro. A ansiedade não tira férias. E talvez a maior aprendizagem seja precisamente esta: a saúde mental não precisa apenas de duas semanas de descanso por ano. Precisa de pequenos gestos de cuidado todos os dias. Porque descansar não é um luxo, nem um prémio. É uma necessidade. E cuidar de ti nunca devia ficar adiado para depois das férias.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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