Crónicas

"Um festival também pode ser um teste à tua relação", por Vera de Melo

Num determinado momento, durante O Sol da Caparica, estive num puf, sentada, a observar. Sim, observar pessoas também faz parte do meu trabalho.

  • 17 ago, 16:28

E num festival há muito para observar. Há quem dance como se ninguém estivesse a ver. Há quem esteja mais preocupado com a fotografia do que com o concerto. Há quem nunca largue o parceiro. Há quem desapareça no meio da multidão e volte meia hora depois como se nada tivesse acontecido.

E há casais.

Muitos casais.

E pensei: um festival pode ser um excelente teste a uma relação.

Não porque seja preciso gostar das mesmas músicas, querer estar sempre juntos ou fazer tudo em conjunto.

Pelo contrário.

Um festival tira-nos da rotina e coloca-nos perante pequenas situações que dizem muito sobre a forma como nos relacionamos.

Um quer ficar até ao último concerto. O outro já só pensa na cama.

Um quer estar no meio da multidão. O outro precisa de espaço.

Um quer dançar. O outro quer sentar-se.

Um quer ir buscar comida. O outro diz que "aguenta mais um bocadinho".

Um quer tirar fotografias de tudo. O outro responde: "Guarda o telemóvel e aproveita."

Parece tudo pequeno.

Mas é nestes pequenos momentos que muitas vezes percebemos como um casal negoceia diferenças.

Porque uma relação saudável não é feita de duas pessoas que querem sempre a mesma coisa.

É feita de duas pessoas que conseguem querer coisas diferentes sem transformar a diferença numa ameaça.

O problema começa quando "eu quero ficar" passa a significar "tu não te importas comigo".

Quando "preciso de ir embora" passa a significar "estás a estragar tudo".

Quando "quero estar com os meus amigos" é interpretado como rejeição.

Ou quando "preciso de estar sozinho uns minutos" é vivido como falta de amor.

Uma relação não se mede apenas pelos grandes gestos românticos.

Mede-se também pela forma como lidamos com o outro quando estamos cansados, com calor, com fome, frustrados, rodeados de pessoas e com vontades completamente diferentes.

É aí que aparecem a capacidade de negociar, a tolerância à frustração, o respeito pelos limites e, sobretudo, a segurança emocional.

E talvez seja por isso que gosto tanto de observar pessoas.

Porque por detrás de uma dança, de uma discussão por causa de uma fila, de alguém que espera pelo outro ou de alguém que diz "vai tu, eu fico aqui", há quase sempre uma história sobre a relação.

No fundo, não precisamos de querer as mesmas coisas para funcionarmos bem juntos. Precisamos de conseguir respeitar aquilo que o outro quer sem deixarmos de cuidar daquilo que precisamos.

E talvez o verdadeiro teste de um casal num festival não seja saber se conseguem divertir-se juntos.

Seja perceber se conseguem continuar a gostar um do outro quando um quer ficar e o outro quer ir embora.

Quando um quer dançar e o outro só quer sentar-se.

Quando um quer estar no centro da festa e o outro precisa de cinco minutos de silêncio.

Porque amar alguém também é isto:

saber estar ao lado sem ser preciso estar sempre no mesmo lugar.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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