"Queres conhecer alguém? Observa-o na fila de O Sol da Caparica", por Vera de Melo
Há pessoas que conhecemos há anos e continuamos sem saber verdadeiramente como funcionam. E depois há aquelas que, em cinco minutos numa fila, nos mostram uma quantidade impressionante de informação sobre si próprias.
- 15 ago, 21:18
* Este artigo foi escrito durante O Sol da Caparica
Num festival como O Sol da Caparica, as filas fazem parte da experiência. Para a casa de banho, para comprar comida, para entrar, para beber qualquer coisa. E, apesar de parecerem apenas um intervalo entre aquilo que realmente queremos fazer, psicologicamente são pequenos laboratórios de comportamento humano.
Observa quem está à tua frente.
Há quem mantenha uma distância enorme da pessoa que está na fila, como se precisasse de criar uma pequena fronteira invisível à sua volta. Há quem fique praticamente colado. Há quem esteja permanentemente a olhar para a frente, a calcular quantas pessoas faltam. Há quem esteja no telemóvel. Há quem comece a conversar com desconhecidos ao fim de trinta segundos. E há quem pareça estar numa batalha pessoal contra a existência da própria fila.
Mas atenção: nenhum destes comportamentos, isoladamente, define uma personalidade. A psicologia não funciona como um horóscopo comportamental. Não podemos olhar para alguém numa fila e concluir que é ansioso, egoísta, extrovertido ou controlador.
O que podemos observar são tendências.
A espera coloca-nos perante uma das coisas que muitas pessoas toleram mal: não ter controlo sobre o tempo. Quando estamos numa fila, dependemos do ritmo das outras pessoas. Não podemos acelerar o processo. Não sabemos exatamente quanto tempo falta. E essa combinação pode aumentar a impaciência e a frustração.
É por isso que algumas pessoas começam imediatamente a procurar estratégias para recuperar algum controlo. Pegam no telemóvel, fazem contas ao número de pessoas que faltam, procuram outra fila, perguntam quanto tempo demora ou começam a antecipar o que vai acontecer a seguir.
Outras fazem precisamente o contrário. Conversam, riem, observam o ambiente e parecem esquecer-se de que estão à espera. Não significa necessariamente que sejam mais felizes. Talvez simplesmente tenham uma maior capacidade de transformar o tempo de espera em tempo vivido.
E depois existe uma situação particularmente interessante: quando alguém tenta passar à frente.
A reação das pessoas diz muitas vezes mais do que a própria ultrapassagem. Há quem confronte imediatamente. Há quem fique irritado, mas não diga nada. Há quem deixe passar porque não quer conflito. E há quem pense: "Se esta pessoa precisa mesmo mais do que eu, tudo bem."
A mesma situação pode ativar necessidades completamente diferentes: justiça, controlo, segurança, pertença ou simplesmente vontade de evitar uma discussão.
Na fila da casa de banho, existe ainda outro ingrediente: o espaço pessoal. Estamos fisicamente próximos de desconhecidos e, muitas vezes, em situações de maior vulnerabilidade. O nosso cérebro está constantemente a avaliar distâncias, olhares, movimentos e comportamentos. Não é apenas uma fila. É uma negociação silenciosa de fronteiras.
Na fila da comida, por outro lado, aparece muitas vezes a comparação. "Será que esta pessoa está a pedir o mesmo que eu?" "Aquilo parece melhor." "Devia ter escolhido aquela opção." Até uma decisão aparentemente simples pode ser influenciada pelo que vemos os outros escolherem.
Talvez seja por isso que as filas sejam tão interessantes.
Porque quando esperamos, não estamos apenas à espera. Estamos a revelar, em pequenos gestos, como lidamos com a frustração, com o espaço dos outros, com a imprevisibilidade, com as regras e com aquilo que não podemos controlar.
Da próxima vez que estiveres numa fila n' O Sol da Caparica, experimenta observar.
Mas, sobretudo, observa-te a ti.
Porque talvez a pessoa mais interessante daquela fila não seja a que está à tua frente.
Se calhar, és tu.
