"Porque tiramos tantas fotografias num festival? Queremos guardar o momento ou provar que fomos felizes?", por Vera de Melo
Estou a escrever este artigo entre concertos, n' O Sol da Caparica. À minha volta, há pessoas a dançar, outras a conversar, algumas a correr para o próximo palco e muitas, muitas, com o telemóvel na mão.
- 16 ago, 13:59
Fotografam. Filmam. Publicam. Guardam.
E, enquanto observo tudo isto, dou por mim a pensar numa coisa: porque é que temos tanta necessidade de fotografar os momentos felizes?
Será que queremos mesmo guardar a memória ou será que, nos dias de hoje, também sentimos necessidade de provar que fomos felizes?
A pergunta parece simples, mas, enquanto psicóloga, acho-a particularmente interessante.
Porque fotografar não é apenas carregar num botão.
É também uma forma de nos relacionarmos com a memória, com a nossa identidade e com a forma como queremos ser vistos pelos outros.
Uma fotografia pode ser uma verdadeira cápsula emocional.
O cérebro não guarda uma experiência como uma fotografia perfeita. Guarda fragmentos: emoções, sensações, sons, cheiros, pessoas, lugares. E uma imagem pode funcionar como uma espécie de chave que abre essa memória.
Daqui a dez anos, posso olhar para uma fotografia tirada hoje no Sol da Caparica e não me lembrar apenas daquele concerto.
Posso voltar a sentir aquela noite.
Posso lembrar-me de quem estava comigo, da música que estava a tocar, do calor, das gargalhadas, da roupa que tinha vestida, da sensação de liberdade.
É por isso que fotografar pode ser tão importante.
Queremos preservar aquilo que sabemos que vai acabar.
Um festival tem precisamente essa característica. Começa e acaba. E quando sabemos que uma experiência é temporária, sentimos uma maior necessidade de a guardar.
Mas existe uma segunda dimensão, muito mais contemporânea.
Queremos partilhar.
Vivemos numa época em que muitas experiências pessoais passaram a ter também uma dimensão pública. Não basta viver. Muitas vezes sentimos vontade de mostrar que vivemos.
"Olha onde estou".
"Olha com quem estou".
"Olha como estou feliz".
"Olha a vida que tenho".
E aqui entramos num território psicológico fascinante: a construção da identidade.
As redes sociais funcionam, em parte, como um espelho. Escolhemos aquilo que mostramos porque aquilo que mostramos também comunica quem somos.
A fotografia do festival pode dizer muito mais do que "estive aqui".
Pode dizer:
"Sou divertida".
"Tenho amigos".
"Tenho uma vida interessante".
"Sou desejada".
"Sou feliz".
Não significa que estejamos a mentir.
Significa que estamos a selecionar.
E todos fazemos isso.
Ninguém publica normalmente a fotografia em que está despenteado, cansado, irritado, perdido no parque de estacionamento ou à procura desesperadamente de uma casa de banho.
Publicamos o instante bonito.
O problema não está em escolher o bonito.
O problema aparece quando começamos a confundir a fotografia da felicidade com a própria felicidade.
Porque uma fotografia é um recorte.
E uma vida não é.
Uma pessoa pode estar numa fotografia a sorrir e estar profundamente triste.
Pode estar num festival rodeada de milhares de pessoas e sentir-se sozinha.
Pode publicar "melhor noite de sempre" e estar a atravessar uma das fases mais difíceis da sua vida.
É importante lembrarmo-nos disto, sobretudo quando olhamos para as redes sociais dos outros.
Estamos muitas vezes a comparar a nossa vida inteira com os melhores cinco segundos da vida de outra pessoa.
E essa comparação pode alimentar aquilo que a psicologia chama FOMO, o medo de estar a perder alguma coisa.
Estamos n' O Sol da Caparica, estamos a divertir-nos, mas abrimos o Instagram e vemos alguém noutro palco.
Parece mais divertido.
Vemos outro grupo.
Parece mais unido.
Vemos outra pessoa.
Parece mais bonita.
Vemos outro concerto.
Parece imperdível.
E, de repente, aquilo que estávamos a viver deixou de ser suficiente.
É aqui que existe um paradoxo.
O telemóvel pode ajudar-nos a guardar o momento e, simultaneamente, afastar-nos dele.
Quando estamos preocupados com a fotografia perfeita, podemos deixar de prestar atenção à experiência real.
Será que a luz está boa?
Será que fiquei bem?
Será que o vídeo ficou tremido?
Quantas pessoas viram o story?
Quem respondeu?
Quem colocou gosto?
A experiência deixa de terminar quando acaba a música.
Continua enquanto esperamos pela reação dos outros.
E isso pode transformar uma memória pessoal numa avaliação social.
É por isso que gosto de fazer uma pergunta simples:
Se não pudesses publicar esta experiência, continuarias a querer vivê-la?
Se a resposta for sim, provavelmente estás a fotografar para ti.
Para guardar.
Para recordar.
Para um dia voltares àquela imagem e pensares: “Que noite tão bonita.”
Mas se a resposta for não, talvez valha a pena perguntar se estamos a viver a experiência ou a tentar construir uma determinada imagem de nós próprios.
E há ainda outra coisa que me parece importante.
Nem tudo precisa de ser fotografado.
Há momentos que podem simplesmente ficar na memória.
A música que ouvimos de olhos fechados.
A gargalhada de um amigo.
O abraço que não estava planeado.
A pessoa que conhecemos por acaso.
O momento em que cantámos uma música inteira sem sequer pensar em gravar.
Talvez porque nem todas as memórias precisam de prova.
Algumas precisam apenas de ser vividas.
E talvez esta seja uma das maiores aprendizagens que podemos levar de um festival.
Fotografa.
Filma.
Partilha.
Guarda.
Mas, de vez em quando, baixa o telemóvel.
Olha para o palco.
Olha para as pessoas que estão contigo.
Olha para ti.
E vive aquele momento sem pensar em como ele vai ficar na fotografia.
Porque, no final, a vida não é aquilo que conseguimos publicar.
É aquilo que conseguimos sentir.
E agora tenho de parar de escrever.
O próximo concerto está quase a começar.
Talvez hoje tire algumas fotografias.
Talvez publique algumas.
Mas vou tentar fazer uma coisa antes: guardar algumas imagens apenas na memória.
Porque há momentos que não precisam de uma fotografia para provar que aconteceram.
Precisam apenas de ser vividos.
