"O efeito Kevinho e MC Paiva", por Vera de Melo
Porque é que milhares de adolescentes sabem de cor letras com palavrões, sexo e mensagens machistas?
- 17 ago, 00:16
Estou no Sol da Caparica e há uma pergunta que me fica na cabeça enquanto vejo milhares de adolescentes cantar, aos gritos, músicas de Kevinho e MC Paiva.
Não é propriamente a qualidade literária das letras que explica aquele fenómeno.
Há palavrões. Há sexualização. Há referências a dinheiro, carros, álcool, sexo e estatuto. Há letras que apresentam mulheres sobretudo através do corpo e do desejo masculino. E, em alguns casos, encontramos mensagens claramente machistas.
Então, porque é que têm tanto sucesso?
A psicologia ajuda a perceber.
Na adolescência, o cérebro está particularmente sensível à recompensa, à novidade e à aprovação dos pares. E poucas coisas são mais recompensadoras nesta idade do que sentir: "eu pertenço aqui".
Quando milhares de adolescentes cantam exactamente as mesmas palavras, dançam ao mesmo tempo e filmam aquele momento para as redes sociais, a música transforma-se num código de pertença.
Não é preciso que a letra seja profunda.
É preciso que seja reconhecível.
É preciso que tenha um ritmo que fique no corpo, um refrão fácil e palavras que provoquem alguma coisa.
E os palavrões provocam.
O palavrão pode transmitir transgressão, irreverência, desafio às regras e uma sensação de liberdade. Para um adolescente, que está precisamente a testar fronteiras e a construir autonomia, isso pode ser extremamente atractivo.
Existe ainda outro fenómeno psicológico: aquilo que é proibido pode ganhar valor precisamente por ser proibido.
Uma criança cresce a ouvir adultos dizerem: "Não digas isso."
Depois chega à adolescência e descobre uma música em que milhares de pessoas estão a gritar precisamente aquilo que lhe disseram para não dizer.
Há uma sensação de poder nessa transgressão.
E depois existe a questão do machismo.
Ouvir uma música machista não transforma automaticamente um adolescente numa pessoa machista. A adolescência é uma fase de experimentação de papéis. Um adolescente pode cantar uma letra sexualmente explícita, agressiva ou provocadora sem ter consciência crítica sobre aquilo que está a reproduzir.
Pode estar simplesmente a divertir-se, a imitar os amigos, a procurar aprovação ou a gostar do ritmo.
Mas isso não significa que as mensagens não tenham impacto.
A repetição importa.
Quando uma determinada representação aparece vezes suficientes, pode começar a parecer normal. Se as mulheres são repetidamente descritas como corpos disponíveis, objectos de desejo ou troféus, enquanto o homem aparece associado ao dinheiro, poder, conquista sexual e estatuto, estamos perante modelos de género que merecem ser questionados.
Não porque uma música vá "estragar" um adolescente.
Mas porque aquilo que consumimos também participa na construção das nossas referências.
E há uma coisa ainda mais interessante.
Muitos adolescentes não estão necessariamente apaixonados pelo conteúdo da letra. Estão apaixonados pelo que acontece quando a música toca.
Estão com os amigos.
Estão num festival.
Estão livres.
Estão a dançar.
Estão a sentir-se mais velhos.
Estão a ser vistos.
Estão a viver uma experiência que amanhã será uma memória.
É por isso que, às vezes, a música importa menos pelo que diz e mais pelo que permite sentir.
No fundo, Kevinho e MC Paiva conseguem tocar em vários ingredientes particularmente poderosos na adolescência: pertença, identidade, transgressão, sexualidade, estatuto, liberdade e reconhecimento.
E o festival amplifica tudo.
Uma música ouvida sozinho num quarto não é a mesma coisa que uma música cantada por milhares de adolescentes, de braços no ar, enquanto os amigos filmam, riem e partilham.
O cérebro associa aquela música à emoção daquele momento.
E é assim que uma canção se transforma numa memória.
Talvez seja também por isso que os adultos muitas vezes não percebem o fenómeno.
Ouvimos a letra e pensamos: "Mas isto não diz nada."
Eles podem estar a ouvir outra coisa.
Podem estar a ouvir pertença.
Podem estar a ouvir liberdade.
Podem estar a ouvir a possibilidade de, durante três minutos, experimentar uma versão mais irreverente, mais adulta ou mais transgressora de si próprios.
E é precisamente aqui que os adultos têm uma oportunidade.
Dizer "essa música é uma porcaria" dificilmente cria pensamento crítico.
Pode criar apenas uma discussão.
Perguntar "porque é que gostas disto?" pode abrir uma conversa.
"Gostas da música ou da sensação que tens quando ela toca?"
"Se alguém dissesse isto a uma rapariga na vida real, acharias engraçado?"
"Porque é que o homem aparece desta forma e a mulher daquela?"
"Se trocássemos os papéis, continuaria a parecer-te normal?"
Estas perguntas são muito mais poderosas do que simplesmente desligar a música.
Porque educar adolescentes não é impedir que ouçam tudo aquilo de que não gostamos.
É ajudá-los a perceber aquilo que estão a ouvir.
No Sol da Caparica, entre palavrões, beats, corpos a dançar e milhares de vozes a cantar as mesmas palavras, há uma oportunidade extraordinária para observar a adolescência.
Eles não estão apenas a ouvir música.
Estão a experimentar liberdade, pertença, identidade, sexualidade, transgressão e reconhecimento.
E nós, adultos, temos uma escolha.
Podemos ficar indignados com as letras.
Ou podemos aproveitar para perguntar:
"O que é que esta música está a ensinar-te sobre ser homem, ser mulher, desejar, conquistar e ser desejado?"
Porque a música acaba.
Mas as ideias que repetimos muitas vezes podem ficar.
