"Enquanto eu como uma pizza, o que estará a passar pela cabeça de André Sardet?", por Vera de Melo
Estou n' O Sol da Caparica, a comer uma pizza com o Luís, a Matilde e o Vicente. À nossa volta, música, pessoas, risos, encontros, filas, fotografias e aquela energia tão própria de um festival de verão.
- 16 ago, 20:25
Nós estamos aqui para aproveitar.
Mas, inevitavelmente, dou por mim a pensar: enquanto eu estou sentada a comer pizza com a minha família, o que estará a passar pela cabeça de quem está por detrás de tudo isto?
André Sardet é um dos responsáveis pela organização do Sol da Caparica. E isso significa que, enquanto milhares de pessoas estão a viver o festival, provavelmente há uma parte da cabeça dele que nunca está verdadeiramente a usufruir.
Será que está a ouvir o concerto como nós?
Ou estará a pensar se o som está perfeito?
Será que olha para as pessoas a dançar e pensa simplesmente “que bom”?
Ou estará a reparar se as entradas estão a funcionar, se há filas demasiado longas, se as equipas estão bem, se os artistas estão satisfeitos, se existe algum problema que ainda ninguém viu?
É curioso pensar nisto porque existe uma enorme diferença entre estar num festival e ser responsável por um festival.
Nós vemos o palco. Quem organiza vê também tudo o que está por trás do palco.
Nós vemos a música. Quem organiza vê horários, equipas, segurança, logística, artistas, público e imprevistos.
Nós pensamos "está tudo a correr tão bem". Quem está responsável provavelmente pensa "o que é que ainda pode correr mal?".
E aqui entra a psicologia.
Porque liderar um evento desta dimensão implica uma capacidade permanente de antecipação. É preciso imaginar cenários antes de eles acontecerem, tomar decisões rapidamente e, muitas vezes, resolver problemas sem que quem está a divertir-se sequer perceba que eles existiram.
É uma espécie de paradoxo: quanto melhor o trabalho de quem organiza, menos nós percebemos que ele está a acontecer.
A experiência parece espontânea precisamente porque houve alguém a pensar em tudo o que podia impedir essa espontaneidade.
E há outra coisa que me fascina.
Um festival não organiza apenas música. Organiza emoções.
Pessoas diferentes chegam ao mesmo espaço por razões completamente diferentes.
Há quem venha pelo artista preferido. Há quem venha pelos amigos. Há quem venha para conhecer alguém. Há quem precise simplesmente de sair da rotina. Há quem esteja a viver uma fase fantástica e queira celebrá-la. E há quem esteja a atravessar uma fase difícil e precise de algumas horas para respirar.
Para quem organiza, são milhares de pessoas.
Para cada pessoa, pode ser uma noite que nunca mais esquece.
Pode ser o primeiro concerto com alguém de quem gosta. Uma noite entre amigos que não se viam há meses. Uma música que traz de volta uma memória. Um encontro inesperado. Um momento de liberdade.
É aqui que a psicologia nos lembra uma coisa importante: não guardamos as experiências apenas pelos acontecimentos. Guardamo-las pelas emoções que lhes associámos.
Talvez alguém não se lembre daqui a dez anos de onde estava exatamente no Sol da Caparica.
Mas pode lembrar-se perfeitamente de como se sentiu.
E isso significa que, por detrás de um festival, existem milhares de pequenas histórias emocionais a acontecer ao mesmo tempo.
Talvez essa seja uma das partes mais exigentes de estar do outro lado.
Porque quando somos responsáveis por alguma coisa, é muito difícil vivê-la exatamente como os outros.
Enquanto nós dançamos, alguém está a trabalhar.
Enquanto nós cantamos, alguém está a resolver.
Enquanto nós tiramos fotografias, alguém está a verificar se está tudo bem.
Enquanto nós comemos uma pizza sem pensar em mais nada, alguém provavelmente está a pensar no que ainda falta acontecer até ao último minuto.
E talvez seja precisamente essa a grande diferença entre participar numa experiência e ser responsável por ela.
Quem está no público pode entregar-se ao momento.
Quem organiza tem de continuar a pensar.
Por isso, enquanto termino a minha pizza, fico com uma curiosidade.
André, quando olhas para o Sol da Caparica no meio de milhares de pessoas, consegues simplesmente desfrutar?
Ou continuas a ver mentalmente tudo aquilo que pode correr bem, tudo aquilo que pode correr mal e tudo aquilo que ainda falta garantir?
Porque talvez a verdadeira magia de quem organiza um festival esteja precisamente aí: na capacidade de criar felicidade para milhares de pessoas enquanto carrega, silenciosamente, a responsabilidade de que tudo aconteça.
Nós chegamos, ouvimos música, dançamos, comemos, rimos e vamos para casa com memórias.
Quem está por detrás do festival fica provavelmente até ao fim.
A garantir que essas memórias podem acontecer.
E eu, por agora, vou continuar a minha pizza com o Luís, a Matilde e o Vicente.
Porque também faz parte da experiência.
E porque, felizmente, hoje não sou eu que tenho de pensar no que pode correr mal.
