Antes do Natal cristão, muito antes de árvores decoradas, luzes cintilantes e canções repetidas em piloto automático - que adoro -, existia a Saturnália, um festival romano dedicado a Saturno - o difícil deus do tempo e da agricultura - celebrado precisamente nesta altura do ano. O solstício de inverno marcava o momento mais escuro do ciclo solar e, ao mesmo tempo, o início do regresso da Luz. É aqui que o Sol, depois de parecer derrotado pelas trevas, começa lentamente a reconquistar o céu, num movimento discreto, quase impercetível, mas absolutamente irreversível. Não é magia nem apenas astronomia. É magia e astronomia. A Luz vence sempre!
A Saturnália era um festival pagão, com excessos, riso, inversão temporária de papéis e uma suspensão ritualizada da ordem social. Durante alguns dias - só por uns dias -, os servos eram servidos, as regras mudavam, gerava o caos e a alegria. Mas importa dizê-lo sem romantizações: o caos era tolerado apenas para que, terminado o ritual, tudo regressasse ao mesmo sítio, incluindo os servos à condição de sempre. Não se tratava de uma transformação, mas de uma troca que podia ensinar, mas não o fez. Era uma válvula de escape para que o sistema pudesse continuar intacto.
Mais tarde, a igreja católica integrou estas datas no seu calendário. Não por generosidade espiritual, mas por estratégia histórica. É sempre mais eficaz ressignificar um rito antigo do que tentar apagá-lo da memória coletiva. Atenção, isto não é um ataque ao catolicismo. É história. E a história não perde dignidade por ser pesquisada, estudada, refletida e dita
Quanto ao nascimento do amado Jesus Cristo, convém também aqui resistir à tentação das certezas absolutas. Não há provas sólidas de que tenha nascido em dezembro. É, aliás, pouco provável. Março é uma hipótese muito mais coerente do ponto de vista histórico e astrológico. Mas independentemente de Jesus ter nascido em dezembro ou em março, o que verdadeiramente importa é que, há cerca de dois mil anos, despontou uma era espiritual cujo o slogan nada tinha a ver com medo, nem castigo, nem culpa, mas uma frase simples, tão exigente e desconcertante: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.
Talvez o desafio do mundo moderno não seja a perda da fé, mas o esquecimento radical da base dessa mensagem. Amar não é um sentimento vago nem um ornamento moral para datas especiais.
Amar implica responsabilidade, integridade e coerência entre o que se diz e o que se faz. Implica sair do conforto das ideias arrumadas em prateleiras demasiado bem alinhadas, tão intocáveis que acabam cheias de pó, como as ideias que não se vivem.
Amar implica passar pela Cova da Moura, abrandar e ter a coragem de questionar se são mesmo todos bandidos, o que os levou e mantém ali, que histórias existem antes do rótulo e se, de facto, tiveram todos as mesmas condições e opções.
Amar implica lembrar que houve gente da nossa própria família que teve de emigrar para fugir à fome ou à guerra e perceber a ironia cruel de hoje falarmos dos imigrantes como “essas pessoas” num tom de desprezo profundo, como se não tivéssemos memória. Ou pior, esquecendo que a memória humana é seletiva, generalizadora e facilmente apaga aquilo que deixa de servir o conforto da nossa consciência.
Amar implica recordar os bidonville de Paris, onde milhares de portugueses viveram em condições miseráveis, invisíveis e indesejados, enquanto hoje fingimos não reconhecer o mesmo padrão - em ínfima escala - a repetir-se diante dos nossos olhos.
Amar como Jesus nos amou implica colocar-nos, ainda que por um instante, no lugar de quem sai de casa com um saco de plástico na mão - conseguindo ou não trazer a família - atravessando mares e desertos à mercê da pior escória humana, os traficantes, sem qualquer garantia de chegar ao destino. Só um desespero profundo leva alguém a aceitar um destino destes. És-nos inimaginável. É infra-humano…
E depois estamos nós, cristãos, sentados num sofá confortável com uma chávena de café quentinho nas mãos acabado de sair de uma máquina super fashion, a dar bitaites. Há palavras que nem bons ateus conseguiriam proferir, mas que saem com naturalidade da boca de cristãos que batem no peito e vão à missa… religiosamente. Isto não é apenas incongruência. É algo mais grave. É a perda da capacidade de reconhecer humanidade no outro. É o medo que grita mais alto. O medo do diferente. O medo do Karma, eventualmente… quiçá. Já todos percebemos que a Roda gira, não já?
A Saturnália lembrava que o caos pode ser tolerado para que tudo continue igual. O Cristianismo, na sua essência original, não propunha uma pausa simbólica, mas uma transformação ética real e profunda.
Escolher a Luz, hoje, não é acender velas nem repetir fórmulas gastas sem sentir o corpo vibrar em verdade e coerência.
É viver aquilo que se diz acreditar, mesmo quando dá trabalho, mesmo quando incomoda, mesmo quando obriga a descer do sofá e a tocar no pó das prateleiras.
"Amai o vosso próximo como a vós mesmos."
E talvez o busílis seja este: não conseguimos amar verdadeiramente o outro porque não sabemos amar-nos a nós. Quando não há respeito por nós, nasce o julgamento do outro. Onde não há cuidado interior, surge a agressividade disfarçada de opinião. Não é falta de fé, não. É falta de relação connosco, de contacto com as nossas emoções, com as nossas necessidades mais profundas, com os nossos traumas.
A boa notícia é que esta doença tem cura. E se cada um cuidar de si, acontece isto mesmo: deixamos de ferir, tornamo-nos inspiração para os outros e aquilo que começa como um gesto íntimo transforma-se numa onda de amor bonita e crescente.
"Pelos seus frutos os conhecereis."
(Mateus 7:16)
