Crónicas

"Da gratidão ao queixume… num pontapé: CR7, a ingratidão e nós", por Vera Xavier

Esta semana, o mundo voltou a provar que a memória humana é mais curta do que um vídeo do TikTok.

  • 28 jun, 20:40
Vera Xavier
Vera Xavier Foto: D.R.

Basta um jogo menos conseguido para passarmos do "melhor de sempre" ao "já não serve". Foi isso que aconteceu ao Cristiano Ronaldo. Num dia, foi de bestial a besta. No jogo seguinte, marcou dois golos e voltou imediatamente ao pedestal. Parece exagero? Talvez. Mas acontece todos os dias. Com ele. Connosco. Com toda a gente.

Isto chama-se ingratidão. Ou, se quisermos ser mais rigorosos, chama-se natureza humana.

Faz-me lembrar aquele fenómeno tão nosso: andamos meses à procura de um novo projecto porque o actual já não nos satisfaz.

Ficamos ansiosas, aflitas, ruminamos a decisão durante meses, quiçá anos. Até decidirmos pôr-nos ao caminho é um suplício.

Parece que é preciso a banda filarmónica do céu tocar-nos ao ouvido para interpretarmos aquilo como um sinal para avançar. E, mesmo assim, os joelhos tremem da manhã à noite. Como se mudar de emprego fosse equivalente a um transplante de medula

É mais ou menos a mesma coisa, certo? Ó deuses!

Lá reunimos coragem e começa a romaria das entrevistas. Como não nos sabemos vender — principalmente nós, mulheres, habituadas a minimizar o nosso valor — e porque ainda ouvimos perguntas tão absurdas como "Está a pensar engravidar?" (sim, eu ouvi isso numa entrevista para o SCP), nem sempre as entrevistas correm como esperamos. Ou então até correm... mas a nossa autoestima faz questão de nos convencer do contrário. Mas avancemos para o ponto onde quero chegar. Eis que recebemos a notícia. Fomos seleccionadas.

Alvíssaras! Parabéns à gente! Yes!

Sentimos uma alegria imensa. A confiança cresce. A autoestima sorri. Parece que finalmente tudo faz sentido. Por quanto tempo? É esse o busílis!

Nos dias que antecedem o início da nova aventura, não paramos de sorrir e não há nada de errado na vidinha. O sol brilha!

Claro que sentimos medo lá no fundinho da nossa consciência. Porém, fica ali, discretamente atirado para um canto. Quem ocupa o palco é o entusiasmo. Cantamos. Abraçamos. Sonhamos. Fazemos planos.

Até que chega o primeiro dia. Entramos na empresa e, quase sem darmos por isso, o medo muda de lugar. Deixa de estar no canto e instala-se na dianteira. Entramos cheias de defesas porque acreditamos que todos nos querem fazer mal, que seremos uma ameaça para alguém ou que estamos prestes a ser desmascaradas pela famosa síndrome da impostora.

Sem querer, começamos a construir anticorpos na equipa.

"É natural", dir-me-ás.

Pois é.

É natural para ambos os lados. Afinal, somos todos inseguros. Passam as primeiras semanas e... puff... o entusiasmo desaparece.

As queixas regressam. O trabalho afinal não era bem aquilo. Os colegas podiam ser melhores. O chefe podia reconhecer mais. O salário já não chega. A empresa não é fantástica. O sonho transforma-se rapidamente em rotina. Como se a rotina fosse uma coisa má. Porquê?

Porque o nosso cérebro habitua-se muito depressa ao que ontem parecia extraordinário. Em Psicologia chama-se adaptação hedónica. Em PNL diríamos que o cérebro cria rapidamente um novo mapa da realidade e aquilo que era novidade deixa de ser percebido como recompensa. Passa a ser "normal". E quando o normal deixa de nos estimular, começamos novamente a procurar o que falta, em vez de valorizar o que conquistámos.

Depois há outro busilis.

Criamos expectativas gigantescas e poucas pessoas, empregos ou relações conseguem sobreviver ao peso delas.

E, sejamos honestos, ninguém nos ensinou verdadeiramente a lidar com a frustração. Não fomos educados para isso. Pelo contrário, vivemos numa cultura que procura eliminar qualquer desconforto o mais rapidamente possível. Só que quem nunca aprende a tolerar pequenas doses de desconforto acaba por sofrer muito mais quando a vida faz aquilo que sempre fez: contrariar-nos.

No fundo, a ingratidão é quase um piloto automático.

Sentimo-nos abençoados pelo novo projecto durante uns dias. Depois essa sensação evapora-se e dá lugar ao velho conhecido queixume.

Foi exactamente isso que vimos acontecer com Cristiano Ronaldo. Bastou um jogo menos conseguido para muitos esquecerem décadas de talento, disciplina, sacrifício e conquistas. Bastaram noventa minutos para apagar uma carreira inteira. E bastaram dois golos no jogo seguinte para voltar a ser um génio.

Talvez o problema nunca tenha sido o Cristiano. Talvez o problema seja a facilidade com que a nossa atenção se fixa na falha e se esquece de tudo o resto.

A gratidão não é fingir que tudo é perfeito.

É treinar o cérebro para não perder a perspectiva.

Porque quem vive apenas à procura do próximo defeito acaba por transformar qualquer bênção numa obrigação, e quem aprende a agradecer continua a crescer, sem precisar de diminuir aquilo que já conquistou.

Talvez seja esse o verdadeiro treino de alta performance: não o de marcar mais golos, ganhar mais dinheiro ou conquistar mais títulos. Mas o de continuar a reconhecer o valor daquilo que já temos, mesmo depois de deixar de ser novidade.

É aí que começa uma vida verdadeiramente abundante. Por isso, antes de ires embora, faz uma última experiência comigo.

Escolhe uma área da tua vida da qual te tens queixado ultimamente.

O trabalho.

O casamento.

A casa.

O corpo.

Seja o que for. Falo, obviamente, de situações saudáveis. Porque quando há abuso, violência, humilhação ou desrespeito continuado, a gratidão jamais é uma virtude, como bem sabes. Aí, falamos de mudança urgente.

Agora responde, com toda a honestidade: houve um dia em que rezaste, sonhaste ou trabalhaste para ter exactamente isso?

Se a resposta é "sim", então talvez não tenhas um problema na vida. Talvez tenhas apenas um problema de memória.

A memória esquece a conquista e habitua-se ao conforto. A gratidão faz precisamente o contrário: devolve-nos a perspectiva.

Hoje, quando acabares de ler esta crónica, faz um favor ao teu cérebro. Durante sessenta segundos, obriga-o a encontrar dez coisas pelas quais podes agradecer.

Vai resistir. Vai dizer que não tem tempo.

Vai lembrar-te da conta por pagar, da roupa para estender e daquele colega que te irrita profundamente. Mas insiste. Porque o cérebro é como outro músculo qualquer: fortalece quando é trabalhado.

Treina-o para encontrar desafios e viverás em guerra. Treina-o para encontrar recursos e começarás a descobrir oportunidades onde antes só vias obstáculos.

A gratidão nunca deve ser usada para justificar aquilo que nos diminui. Deve servir para valorizarmos aquilo que nos faz crescer.

Porque, no fim de contas, a gratidão não nos impede de querer mais. Impede-nos apenas de esquecer o muito que já conquistámos.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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