Em entrevista exclusiva à SELFIE, Mónica Sintra falou sobre a mensagem do novo single e o videoclipe gravado no bar Pash, na Costa da Caparica, revelou a expetativa em torno de uma balada que chegará até ao final do ano e abriu o coração para falar sobre a forma como gere os comentários menos positivos, o lado romântico, a dinâmica familiar e os sonhos que tem por realizar.
O que nos podes contar sobre este novo tema?
Vem aí um novo tema mais mexido, porque eu sinto que estas músicas acabam por proporcionar um espetáculo mais dinâmico e mais divertido para as pessoas. A música é do Menito Ramos e a letra é minha. O videoclipe vai ser gravado neste bar, porque, a determinada altura, o som reporta-nos um bocadinho para um estilo mais árabe, por isso, tanto a roupa como a música, como o espaço acompanham esse estilo.
De que é que fala esta música?
A música chama-se "Podem Falar" e é essencialmente sobre aquilo que o título diz. Hoje em dia, toda a gente fala muito, escreve muito - essencialmente devido às redes sociais. Mas, em última instância e no final da noite, aquilo que conta efetivamente é a nossa opinião sobre nós próprios e de que forma é que vamos gerir aquilo que falam sobre nós. A minha forma de fazer essa gestão é a cantar. Então, é como diz a música: "Podem falar, falar, que eu vou dançar, dançar..." Efetivamente, é isso que eu faço com as minhas emoções. Quando vejo que estou num caminho feliz, canto para celebrar. Quando leio alguma coisa de que não gosto sobre mim - porque, às vezes também deixo a porta aberta para que possam falar, mas as pessoas não sabem toda a verdade - refugio-me na música para me poder libertar da dor.
Já houve aturas em que foi mais difícil de lidar?
Tem dias. Por exemplo, a escrita não tem o dom que tem a palavra, não é? Com a palavra falada, nós percebemos a intenção... Com a palavra escrita, às vezes, pode mudar ali uma série de coisas. E há dias em que, claro, estou mais sensível e penso: "Caramba, estou a esforçar-me para evoluir, para fazer coisas diferentes, mas as pessoas valorizam coisas que não são o meu trabalho! Questionam se a roupa é bonita... questionam o que fiz à cara... dizem que estou horrível... dizem que estou mais velha... É óbvio que estou mais velha, o tempo passa por toda a gente. Aqui a questão é que eu entro na casa das pessoas já há muito tempo. Comecei quando tinha 18 anos e fui crescendo, amadurecendo, envelhecendo os olhos das pessoas. Às vezes, custa-me um bocadinho ler certo tipo de comentários. Mas, quando estou num mau dia, tento não ler. Leio quando estou naqueles dias em que nada me afeta.
Em breve, vem aí também uma balada, não é?
Ainda não posso adiantar muita coisa, até porque a balada ainda só tem um título provisório, mas será lançada até ao final do ano. É o tipo de balada que eu já não gravava há muitos anos. Desta vez, não fui eu que escrevi, mas é um tipo de balada com uma carga emotiva muito grande. Estou com alguma expetativa em relação a esse tema também. Até já fiz o alinhamento do próximo ano a contar com essa balada e tudo andará à volta dela. Já estava a sentir alguma falta e saudades de cantar músicas românticas.
Até porque és uma mulher romântica...
Sim, acima de tudo, sou uma mulher romântica, uma mulher que canta o amor e o desamor. Acho que também é importante nós cantarmos o desamor, porque podemos fazer o luto de várias formas. A forma que eu tenho de fazer o meu luto - seja de alguma coisa que não correu tão bem, seja de relações amorosas ou de relações de amizade, seja de desapego de coisas - é sempre a cantar, daí as músicas saírem um bocadinho mais tristes. É a forma que tenho de exorcizar tudo aquilo que estou a sentir no momento.
E que momento atravessas agora na tua vida?
Neste momento, na minha vida profissional e pessoal - porque não consigo dissociar uma coisa da outra - atravesso um momento muito cansativo, porque o verão foi exaustivo. O facto de não termos temperaturas normais também acabou por arrasar as pessoas todas que andavam na estrada. E isso, para mim, é cansativo, mas, ao mesmo tempo, é reconfortante, porque chego a casa e tenho o meu namorado e o meu filho à espera, tenho também o apoio familiar de que preciso: a minha mãe como minha agente, o meu pai sempre presente. Tenho uma estrutura familiar muito pequenina, mas que, de facto, resulta muito bem. Quando estou muito tempo fora, eles vão ver-me aos concertos e dá sempre para matar saudades.
O teu filho Duarte já está quase na adolescência... Como tem sido esta fase?
Está numa fase desafiante e de me desafiar... Por um lado, é engraçado, porque ele não se fica com o "tens que fazer isto". Ele questiona sempre o porquê das coisas e, às vezes, mesmo justificando o porquê, continua a questionar. É bom ele ter este sentido de querer aprofundar as coisas. Por outro lado, é profundamente irritativo. Às vezes, dá vontade de dizermos aquilo que nos diziam: "Faz assim porque sim"; "Faz assim porque eu sou tua mãe e eu é que mando!" Mas é uma fase engraçada, porque já é um companheiro. Ainda há pouco tempo, fomos juntos ao concerto do Luan Santana. Ele também já vai para festivais com o pai. Portanto, acaba por ser já um registo de pré-adolescente super companheiro que começa a gostar exatamente das mesmas coisas que nós.
Como é que ele encara, hoje em dia, o teu percurso e a tua carreira?
Ele não liga muito, porque isto sempre foi a realidade dele. Para ele, esta é uma profissão perfeitamente normal. Só é chato no inverno, porque estou mais tempo em casa e ele tem que ter mais regras [risos]. Mas ele dá as suas opiniões, é dos primeiros a ouvir as minhas músicas e diz-me se gosta ou se não gosta. Tem ali um sentido muito apurado a nível musical. Normalmente, se ele fixa uma música com alguma facilidade, ela corre bem depois em concerto.
Sentes que há a possibilidade de ele poder enveredar por esta área?
Não sei. Houve uma altura em que ele estava a aprender a tocar bateria. Depois, os horários eram muito exigentes em relação à escola e ainda tinha o futebol... e ele privilegiou o futebol, porque é completamente louco por futebol e era aquilo que mais o satisfazia. Eu acho que seria um desperdício ele não fazer nada com a afinação que ele tem e com o ritmo que ele tem. Ele ouve qualquer música e consegue reproduzi-la quase automaticamente. Mas a verdade é que não forço muito por várias razões: em primeiro lugar, porque não quero estar a indicar-lhe o caminho que tem que ser ele a escolher; em segundo lugar, porque também sei que este caminho não é fácil. É óbvio que seria um bocadinho mais fácil para ele do que foi para mim, mas é difícil e não conseguimos prever onde é que a música portuguesa vai estar daqui a 10 anos.
Como é, hoje em dia, a dinâmica familiar? Mais fácil do que quando ele era mais novo?
É difícil na mesma, porque o pai do Duarte trabalha em eventos e produções, portanto, normalmente, também tem os fins de semana muito ocupados. Portanto, tentamos agilizar as coisas, de forma a que o Duarte consiga estar também com os irmãos da parte do pai. O que se tornou mais fácil é quando ele diz que sente saudades ou que quer ir visitar o pai. Ele mora comigo em Sintra, a uns 40 km do pai, mas faz-se facilmente.
Pensas voltar a ser mãe?
Houve uma altura em que pensei. Houve uma altura que isso passava pela minha cabeça, mas comecei a perceber que já tinha ali um companheiro incrível para ver séries, para ouvir música, para ir a concertos, para irmos jantar os dois sozinhos, para termos as nossas conversas... e comecei a pensar: será que consigo fazer tudo outra vez e ainda ter tempo para ele? Porque essa é a questão! Não é só ter paciência para voltar a ter um bebé. E eu passo tanto tempo fora que, se calhar, não seria justo, portanto, não penso voltar a ser mãe. Se acontecer, eventualmente, logo vejo.
Ele apoia-te em tudo? Nas tuas decisões, na tua vida amorosa...
Sim, sim. Ele gosta muito do Pedro, é super companheira do Pedro. Isso deixa-me, obviamente, muito feliz. Nem sequer poderia ser de outra forma, não é? A prioridade é sempre o bem-estar do Duarte. Mas ele também se dá facilmente com as pessoas. Tendo um homem em casa com quem ele tem muita afinidade, que tem uma voz importante que ele respeita, tudo fica mais fácil, a dinâmica torna-se mais simples, as coisas gerem-se de forma quase automática.
O que é que te falta fazer?
Falta-me fazer muita coisa. A nível profissional, falta-me fazer uma coisa que é quase impossível, porque há sempre editoras e agentes pelo meio: um álbum de duetos, duetos completamente inesperados. Já percebi que é um caminho muito difícil. Às vezes, ainda questiono por que é que tem de ser difícil - visto que em Espanha ou no Brasil tudo se faz de forma aparentemente fácil - mas em Portugal há sempre aqui qualquer entrave, é estranho... Outra coisa que gostava de fazer antes de me reformar - que não sei bem em que idade será - era atuar numa sala emblemática, como o Coliseu de Lisboa ou o Coliseu de Porto.
Voltando aos duetos, com quem gostavas de cantar?
No ano passado, cantei uma música com os Ciganos D'ouro e gostei muito. Para mim, é a canção mais feliz do concerto neste momento. Gostava muito de fazer um dueto com a Adelaide Ferreira, com o Toy, com a Carolina Deslandes, com a Bárbara Tinoco, com a Romana, com a Carminho, com a Raquel Tavares...
O que falta para isso acontecer?
Acho que falta um bocadinho mais de flexibilidade e falta as pessoas entenderem que música é música. Não me refiro aos cantores. Até chegar aos cantores, é um processo que passa pela editora e por mais gente, por isso, é difícil. Claro que posso falar diretamente com os meus colegas cantores e propor fazermos um dueto, mas fica no ar e acaba por nunca acontecer, porque temos de fazer tudo de forma legal. Acho que falta um bocadinho mais de disponibilidade mental e musical para perceberem que se as pessoas gostam é porque faz sentido, que tem que haver vários géneros musicais, vários tipos de vozes, vários tipos de estéticas. Acho que o mais difícil é nós tentarmos provar e não conseguirmos. Durante muitos anos, tentei provar que era mais do que a música "Afinal havia outra". Ficou tão cansativo que, no dia em desisti de provar, as pessoas começaram a perceber. Claro que ainda há quem pense que sou só a música "Afinal havia outra", mas está tudo bem, é problema de quem pensa assim, de quem não quer abrir a mente e conhecer um bocadinho mais.
Sentes alguma mágoa?
Sinto, porque a música é a forma mais bonita e universal de contactarmos. A prova disso é que podemos ouvir uma música que nos toca mesmo sem conhecermos a língua. É triste as coisas não serem assim tão fáceis como poderiam ser, não podermos simplesmente decidir juntar-nos num bar e cantar qualquer coisa. É estranho.
Há pouco, falaste na reforma... Onde é que te imaginas daqui a 5 ou 10 anos?
Daqui a 5 anos, ainda imagino a cantar. Daqui a 10 anos... não sei. Não te sei explicar porquê. Quando tinha 30 anos, dizia que parava aos 40. Aos 40, dizia que era aos 45. Agora, tenho 47 e não vou parar aos 50. Mas algum dia terei que parar, porque há outras vozes, há coisas que, entretanto, nós já fizemos e não queremos estar a repetir. Portanto, é inevitável parar. No futuro, vejo-me a viver em Cabo Verde, que é o meu segundo país de eleição, onde tenho um negócio de alojamento local.
É por isso que estás sempre entre Portugal e Cabo Verde...
Sim, eu e a minha família. Às vezes, as pessoas perguntam-me como é que nós fazemos a gestão e a verdade é que ora estou lá eu, ora está lá a minha mãe, ora está lá o meu padrasto. Está lá sempre algum de nós. A rotatividade é entre nós. Claro que eu fico sempre muito triste, porque no verão nunca me calha estar em Cabo Verde [risos], mas, no inverno, é a desforra! Em outubro, já lá estou, para fazer férias, mas também para trabalhar.
O que dirias à Mónica da tua infância ou da tua adolescência?
Diria para não ter tanto receio daquilo que as pessoas acham sobre nós. As pessoas variam a opinião conforme as outras pessoas, conforme com quem estão, conforme os dias em que acordam... Já tive pessoas que, num dia, dizem que gostam da minha personalidade, e, no dia a seguir, estão a apontar o dedo a coisas que são da minha personalidade. Portanto, diria à Mónica para não ter medo do julgamento dos outros.
Quem são as únicas pessoas a quem, hoje em dia, dás ouvidos?
Ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrasto. O meu padrasto é uma pessoa muito importante na minha vida. Ao meu namorado, como é óbvio. E, dentro daquilo que é justo para a idade, dou ouvidos ao meu filho. Naturalmente, ele ainda não tem idade para decidir ou opinar sobre determinadas coisas.
Olhando para trás, guardas algum arrependimento ou há algo que farias de forma diferente?
A nível pessoal, teria sido mãe há mais tempo. Eu tenho 20 anos de diferença da minha mãe, a minha mãe tem 20 anos de diferença da minha avó, e seria engraçado se o meu filho tivesse 20 anos de diferença de mim. Seria extraordinário se o meu filho tivesse, neste caso, 27 anos. Mas, lá está, fui sempre adiando a maternidade com a questão do trabalho... ou porque não dava jeito ou porque não era confortável... Hoje, acho que teria sido mãe mais cedo... e isso faria com que tivesse tido mais filhos.
E és hoje a mulher que imaginavas ser?
Todos os dias, sou a construção da mulher que quero ser. Por exemplo, neste momento, aquilo que quero ser é efetivamente uma mulher mais voltada para a parte profissional. Mas, se calhar, se falarmos em outubro, eu serei uma mulher que vai estar mais voltada para o lado da família. Portanto, acho que consigo ter isto tudo numa só. Consigo enaltecer uma em prol de outra, em determinados momentos. Sinto que estou sempre a construir-me e a tentar melhorar não só a minha relação comigo, mas também a relação com outros - pelo menos com aqueles com quem acho que devo melhorar.
Não tens medo de recomeçar?
Não, não tenho medo de recomeçar. Muitas vezes, a ideia de recomeçar atrai medos, mas, no meu caso, atrai mais a adrenalina de que vai correr muito melhor, de que só pode correr muito melhor do que correu anteriormente. E, portanto, recomeço, sempre que for preciso. No fundo, quando nascemos, somos uma página em branco. Hoje em dia, se eu quiser apagar algo, já serei uma página com marcas, não é? Não posso tirar as marcas, mas posso, com essas marcas, escrever uma história diferente. Portanto, é isso que tento fazer de cada vez que apago qualquer coisa.
