Entrevistas

Miguel Leite celebra 15 anos de carreira: "Na alta-costura, o impossível é, muitas vezes, o ponto de partida"

Ao celebrar 15 anos de carreira, Miguel Leite revisita um percurso marcado pela resiliência, pela construção de uma identidade própria e por uma ligação próxima às clientes. Entre conquistas e desafios, o costureiro faz um balanço de um caminho que, garante, ainda está longe de terminar.

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Foi aos 19 anos que abriu o primeiro atelier e, desde então, construiu uma carreira sólida à base de persistência e visão pessoal. Quinze anos depois, Miguel Leite assume-se mais consciente, seguro e exigente, sobretudo consigo próprio, e reconhece que foi a capacidade de continuar, mesmo nos momentos mais difíceis, que definiu o seu percurso. Numa carreira em que cada peça carrega também uma dimensão emocional, destaca a confiança das clientes como um dos marcos mais importantes e aponta o futuro com ambição: continuar a crescer, evoluir e levar o seu trabalho além-fronteiras.

Se tivesse de escolher um momento que define estes 15 anos de carreira, qual seria?
Não foi um desfile, nem um vestido específico. Foi o momento em que percebi que as clientes confiavam em mim sem hesitar, quando deixaram de vir só por um vestido e passaram a vir por mim. Isso muda tudo.

E se tivesse de resumir estes 15 anos numa palavra, qual seria e porquê?
Resiliência. Porque houve talento, sim, mas foi a capacidade de continuar, mesmo nos momentos mais difíceis, que me trouxe até aqui. Tentei sempre encontrar a luz no meio da escuridão.

O Miguel de hoje ainda reconhece o Miguel que abriu o primeiro atelier aos 19? O que é que mudou mais em si: o costureiro ou a pessoa?
Reconheço a essência, o meu jeito natural e simples de ser, a ambição e a paixão. Mas, hoje, sou mais consciente, mais seguro e mais exigente. Mudou mais a pessoa... e isso acabou por elevar o costureiro.

Houve alguma fase em que pensou em desistir? O que o fez continuar?
Sim. Houve tantos momentos em que o cansaço e a pressão falaram mais alto. Mas nunca foi maior do que o amor pelo que faço. E isso fez-me sempre ficar, além das minhas clientes, que nunca deixaram também.

Hoje sente mais liberdade criativa ou mais responsabilidade? Tornou-se mais exigente consigo próprio ou com as clientes?
Sinto os dois. Mais liberdade, porque tenho identidade. Mais responsabilidade, porque sei o impacto do meu trabalho. Tornei-me mais exigente comigo próprio. Sempre.

O que é que hoje faz de forma completamente diferente em relação ao início? Há algo que antes aceitava fazer e que hoje já recusa completamente?
Hoje, sei dizer "não", embora me seja difícil. No início, aceitava quase tudo, chegava a perder a noção. Agora, só aceito o que está alinhado com a minha visão e com o nível de qualidade que defendo. Houve que ficasse e houve quem ficasse pelo caminho.

Alguma história de cliente que o tenha marcado especialmente?
Cada cliente traz uma história única. É isso que me fascina, além da proximidade que crio com as clientes. As que mais me marcam são aquelas em que o vestido representa mais do que estética. Representa superação e aceitação de si mesmas.

Qual foi o pedido mais inesperado?
Já tive alguns… e deu-me um gozo tremendo! Mas aprendi que, na alta-costura, o "impossível" é, muitas vezes, o ponto de partida.

Como se protege do desgaste emocional?
Aprendi a impor limites, mas é algo recente, na verdade... Aprendi a dar espaço a mim próprio. E a lembrar-me que, para cuidar bem dos outros, tenho de estar bem comigo. Só assim vou ser o melhor para quem me procura.

Qual foi o vestido mais exigente que já fez?
Não foi apenas pelo design, mas pela carga emocional envolvida, os vestidos mais exigentes são sempre aqueles que carregam histórias muito profundas e que me fazem ser.

Quem é que mais gostou de vestir até hoje?
Todas as mulheres que confiaram em mim e fazem parte do meu percurso. São tantas! Há muitas que me marcaram para a vida! Mas confesso que gosto especialmente de vestir mulheres que chegam com dúvidas e saem com confiança.

Hoje, o que é que mais o desafia tecnicamente?
Superar-me. Encontrar novas formas de fazer melhor aquilo que já sei fazer bem.

Tem algum ritual no atelier?
Sim. Antes de começar uma peça importante, gosto de parar um momento e visualizar o resultado final. Pode parecer simples, mas faz toda a diferença.

Quando olha para trás, sente que já alcançou mais do que imaginava?
Sim. Nunca pensei chegar até aqui, Mas também sinto que ainda estou só no início de algo maior.

Em que momento sentiu que a sua carreira mudou de patamar?
Quando deixei de procurar validação externa e passei a confiar totalmente na minha identidade. Vestir alguns rostos do nosso panorama nacional também fez toda a diferença.

O que mais o surpreendeu nestes 15 anos?
A força que somos capazes de ter quando realmente acreditamos no que fazemos.

Depois de 15 anos, o que ainda falta conquistar?
Ainda há muito por fazer. Quero continuar a crescer, evoluir e levar o meu trabalho a novos contextos, deixar um legado aos meus e aos que sempre estiveram lá para mim.

Gostava de levar o seu trabalho para fora de Portugal?
Sim. É um passo natural, embora não pense muito nisso. Levar a minha visão e identidade além-fronteiras faz parte do caminho.

Onde se vê daqui a mais 15 anos?
Mais consolidado, mais livre criativamente… e ainda com a mesma paixão do primeiro dia. Na continuidade do sonho, é preciso não deixar de sonhar.

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