Quando alguém morre por suicídio, não é apenas a ausência que pesa: instala-se um silêncio denso, surge o estigma e emerge uma tendência quase automática para procurar culpados. Esta reação constitui um mecanismo de defesa comum perante um acontecimento que a mente tem dificuldade em integrar. Ao atribuirmos responsabilidades a alguém - ou a nós próprios - criamos uma explicação imediata para algo que, na realidade, resulta sempre de múltiplos fatores.
No caso específico de Maycon, existe ainda a dimensão da exposição pública. A participação em reality shows cria uma sensação de proximidade ilusória: multiplicam-se fãs, multiplicam-se críticas e muitos sentem-se autorizados a opinar sobre a vida da pessoa.
Quando se tornaram públicas as circunstâncias que antecederam a morte, a reação imediata foi a procura de culpados e o apontar do dedo a pessoas especificas. Este fenómeno foi entretanto amplificado pela velocidade de replicação das redes sociais.
É importante afirmar com clareza que, no caso de Maycon Douglas, como em tantos outros, não há culpa a atribuir. Nem a namorada, nem a mãe, nem os amigos, nem qualquer pessoa que tenha feito parte da sua vida, pode ser responsabilizada. Todos já tivemos discussões, tensões e ruturas relacionais com pessoas próximas, sejam pais, parceiros ou amigos. Nenhum desses episódios, por si só, determina um ato extremo.
A evidência científica é inequívoca: o comportamento suicida resulta de uma combinação complexa de fatores emocionais, biológicos, sociais e contextuais. Explicar um fenómeno tão complexo através da associação a um único acontecimento ou a uma única pessoa é incorreto e profundamente injusto.
As mães passam a carregar um peso emocional imenso, o que automaticamente as condena a uma espécie de prisão perpétua. O sentimento de culpa que surge nestes contextos é, na verdade, resultado do amor e da responsabilidade que sentiam pela pessoa que perderam. Não pode, nem deve ser interpretado como reflexo de alguma falha, mas como expressão da dor.
As reações ao suicídio seguem padrões amplamente descritos na psicologia: choque, incredulidade, procura obsessiva de explicações, sentimentos de culpa, raiva, medo e tendência para o isolamento como forma de evitar julgamentos sociais. O estigma associado ao suicídio continua a ser um dos maiores obstáculos a um processo de luto saudável. A atitude da comunidade, muitas vezes marcada por silêncio ou preconceito, impede que os enlutados partilhem os sentimentos, o que vai agravar o sofrimento e aumentar a vulnerabilidade emocional de quem fica.
É, por isso tudo, fundamental que as pessoas sejam informadas acerca dos mecanismos emocionais e psicológicos desta temática. Só assim poderemos fomentar atitudes mais empáticas e responsáveis para com todos os que enfrentam a perda de alguém nestas circunstâncias. Há que não ceder à tentação de julgar, mas sim compreender, escutar e acolher quem sofre e terá para sempre que lidar com o vazio deixado pelo falecido.
