Então decidiste ser mãe. Parabéns, disseram todos, com sorrisos e prendas e conselhos que não pediste. E depois? Depois ficaste sozinha com aquele ser humano pequeno e exigente que não vem com manual de instruções, não tem botão de pausa e tem uma capacidade assombrosa de absorver tudo o que fazes, dizes e sentes, incluindo o que tentas esconder. Especialmente o que tentas esconder.
Porque ser mãe não acaba na decisão. É aí que começa.
E há tantas formas criativas de estragar a cena depois de já teres assinado o contrato mais irrevogável da tua vida que seria uma pena não as catalogar com o carinho que merecem.
Começamos pela clássica subcontratação da maternidade. Os avós são pessoas maravilhosas, com amor genuíno e biscoitos sempre à mão, mas não são pais substitutos, não foram contratados para isso e, o que é mais importante, não te pediram esse lugar. Quando os filhos crescem mais na casa dos avós do que na tua, quando as regras da avó substituem as tuas, quando o teu filho te chama pelo nome porque a senhora que manda mesmo é a avó, algo correu muito mal na cadeia de comando. Não é culpa dos avós, que amam como sabem e ficam porque não conseguem dizer que não, é tua, que delegaste o que não se delega.
Depois há a escola como depósito - depósito onde um dia nós vamos parar. Sim, a roda gira. O colégio abre às sete e fecha às sete, que conveniente, e há sempre uma actividade extra para preencher aquela hora incómoda entre o fim das aulas e o momento em que te dá jeito aparecer. As crianças passam mais tempo com educadores pagos do que com as pessoas que as trouxeram ao mundo, e quando chegam a casa já vão a dormir, que é também uma forma de não ter de lidar com elas. É eficiente e trágico.
Há também a teoria do irmão-babysitter-progenitor emprestado, essa ideia engenhosa de que ter mais um resolve o problema dos outros porque os mais velhos tomam conta dos mais novos, como se uma criança de quatro, seis, oito, dez anos tivesse a maturidade emocional e a autoridade moral para criar outra criança. Sem conversa preparatória, sem escolha, sem remuneração, sem reconhecimento. Apenas com a responsabilidade de adulto instalada num ser que ainda devia estar a brincar com legos e panelinhas. Depois espantamo-nos quando esse filho mais velho chega à vida adulta com uma exaustão que não sabe nomear, uma raiva que não sabe de onde vem e uma vida pessoal completamente escangalhada. Que surpresa!
No entanto, a requinte da criatividade parental atinge o seu pico quando falamos de filhos usados como argila de construção relacional. Ah, a velha táctica que nunca funcionou… Ter um filho para prender um companheiro que já está a sair pela porta é uma das ideias mais extraordinariamente más que a mente humana já produziu, e no entanto repete-se com uma regularidade que desafia a lógica. Sim, sim, desafia o senso-comum. A criança não prende ninguém, nunca prendeu, a biologia não cola relacionamentos, e o que fica é um ser humano que crescerá a saber, lá no fundo, que veio ao mundo para resolver um problema que não era seu. Resultado? Relacionamentos pessoais de… trampa. (Pardon my french)
Consolidar um casamento com uma gravidez - porque a relação está a ficar monótona - é igualmente desastroso, porque nada resolve a falta de entusiasmo entre dois adultos como acrescentar a privação de sono, o stress financeiro e uma dependência total de outro ser humano à equação. Que inteligente, maltinha!
E depois há o padrasto, a madrasta, o novo companheiro que não gosta de crianças mas de quem estás tão perdidamente convencida de que é o amor da tua vida que decides que eles se hão-de adaptar. Que hão-de aceitar. Que hão-de gostar com o tempo. Spoiler: não vão. E enquanto esperas que o tempo faça o milagre que a tua lucidez se recusou a fazer, os teus filhos estão a crescer debaixo de um tecto onde não são amados, com alguém que exerce controlo porque domínio não é amor, autoridade sem afecto não é educação, é medo e incapacidade com outra roupagem.
Que fique registado, com toda a clareza que o tema merece: controlo não é sinónimo de boa educação. É sinónimo de inabilidade e de medo. Uma criança que obedece por medo não está a crescer, está a sobreviver. E as crianças que sobrevivem a infâncias assim chegam à vida adulta com uma fractura emocional enorme que alguém vai ter de pagar, começando por elas próprias.
Já que estamos a ser honestas, vamos até ao fim ou até ao início, voltemos a Marine Rousseau, o caso que deu origem à primeira crónica, que continua a pesar e é bom que assim seja para que não se instale de novo o silêncio cúmplice do costume.
Porque há progenitoras que deixam os filhos num mato qualquer porque querem viver uma nova vida com aquele grunho que não gosta de crianças. Aquela criatura de quem se acham apaixonadas não consegue amar uma extensão natural delas, então a escolha que fazem, consciente ou inconscientemente, é escolher o grunho. Deixam crianças numa estrada qualquer e sentam-se numa esplanada a apanhar sol como comuns "citoyens du monde", sem história nem peso na consciência. Só que não são. São, muito possivelmente, doentes mentais. Quiçá psicopatas. E o amor que alegam sentir por aquele homem - que aceita uma mulher que abandona os próprios filhos - não é amor, porque o amor que destrói os filhos para se perpetuar não merece esse nome.
O amor não faz isso. O desespero faz. O vazio faz. A doença faz. A malvadez faz. A solidão faz.
Ah, 'pera, não posso terminar sem abordar a mãe instagramável. Uma cena igualmente criativa, mais recente e deVeras assustadora: Aquela que documenta cada momento da vida dos filhos com uma dedicação que os próprios filhos não recebem em quantidade equivalente de atenção real. O pequeno-almoço orgânico fotografado antes de ser comido, o primeiro dia de escola partilhado com dez mil desconhecidos, as birras filmadas para conteúdo autêntico, as conquistas expostas para validação — e competição — de estranhos. Os filhos tornam-se personagens da narrativa materna antes de terem idade para perceber o que é a internet, o que é a privacidade ou o que significa ter a sua carinha, o seu nome e a sua vida estejam permanentemente acessíveis a qualquer pessoa com um telemóvel. Sem consentimento. Sem retorno possível, porque o que vai para a internet não volta. Há predadores que agradecem esta generosidade informativa com um entusiasmo que deveria gelar o sangue a qualquer progenitor consciente. A mãe instagramável não é necessariamente uma má mãe, é frequentemente uma mãe que ainda não percebeu que amar em público não é o mesmo que amar bem, e que os filhos não são conteúdo. São pessoas.
Ser mãe é uma vocação, não é uma obrigação biológica, não é uma expectativa social - já não é! -, não é um acessório de identidade feminina. É uma escolha que se renova todos os dias, na presença, na atenção, na coragem de colocar aquela pequena vida antes da tua conveniência, antes do teu conforto, antes daquele energúmeno que não merecia um segundo do teu tempo, quanto mais os teus filhos.
As crianças não pedem para vir. Nós é que as convidamos. E quando se convida, fica-se responsável pelo convidado.
"Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas."
- Antoine de Saint-Exupéry
Somos livres. Finalmente, somos quase gloriosamente livres. E a liberdade real, não é aquela que decide fazer exatamente o que os homens fazem só porque podem, porque essa não é a nossa polaridade. Essa não é a nossa natureza. Essa decisão seria continuarmos a violentar-nos como fazemos sempre quando carregamos a culpa do mundo. A liberdade conquistada a sangue, suor e lágrimas é a de sermos quem quisermos ser. Sermos naturalmente nós. Somos todas belas, fortes, resilientes, com uma enorme capacidade de amar, de inovar, de resolver, de gerir… mas somos nós, mulheres poderosamente femininas. Respira fundo e sente esta energia tão especial e única.
Com a liberdade, já sabemos, vem a responsabilidade radical de nos conhecermos bem antes de criarmos outros. Sim, é uma escolha nossa e só nossa.
P.S: E homens, deixem em paz os nossos úteros!
