Crónicas

"Por que tantas pessoas gostam da Maria Botelho Moniz? A psicologia explica!", por Vera de Melo

Há pessoas que entram na televisão e cumprem o seu papel. Depois há outras que parecem entrar na sala de estar de quem as vê. A Maria Botelho Moniz pertence, para muitas pessoas, a esse segundo grupo.

  • 29 jun, 18:50

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A sua popularidade não pode ser explicada apenas pelo talento ou pela experiência. A psicologia mostra que a ligação emocional que criamos com uma figura pública depende de fatores muito mais profundos.

Um dos conceitos mais estudados é o da autenticidade percebida. O cérebro humano consegue identificar, mesmo sem consciência disso, sinais de espontaneidade. Quando uma pessoa comunica sem parecer excessivamente ensaiada, quando ri de forma natural, assume vulnerabilidades e reage de forma genuína aos acontecimentos, desperta confiança. A confiança é um dos pilares mais importantes da ligação humana. Não é por acaso que tantas pessoas sentem que "conhecem" a Maria Botelho Moniz, apesar de nunca terem falado com ela.

Outro fenómeno psicológico chama-se relação parassocial. É a sensação de proximidade que desenvolvemos com figuras públicas que vemos repetidamente. Quanto mais alguém entra na nossa rotina, mais o cérebro o interpreta como alguém familiar. A familiaridade reduz a desconfiança, aumenta a empatia e faz nascer um sentimento de conforto. É exatamente por isso que muitos espectadores ligam a televisão e sentem que estão a ser recebidos por alguém próximo.

Existe ainda um fator muito importante: a congruência emocional. As pessoas tendem a gostar de quem parece coerente entre aquilo que diz, aquilo que faz e a forma como reage. Quando percebemos consistência no comportamento de alguém, o cérebro interpreta essa pessoa como previsível e segura. E segurança emocional continua a ser uma das características mais procuradas nas relações humanas, mesmo quando essas relações existem apenas através de um ecrã.

Também o humor desempenha um papel decisivo. A psicologia demonstra que rir com alguém aumenta a produção de dopamina e fortalece sentimentos de ligação. O humor espontâneo, especialmente quando não humilha ninguém, cria uma sensação de leveza que o cérebro associa ao bem-estar. Não é apenas entretenimento. É um mecanismo poderoso de aproximação.

 

"Nenhuma figura pública é consensual. Isso seria impossível."

 

Outro aspeto interessante é o equilíbrio entre competência e humanidade. Estudos mostram que admiramos pessoas competentes, mas gostamos verdadeiramente daquelas que, além de competentes, deixam transparecer imperfeições. Quando alguém demonstra emoções, fala das dificuldades ou mostra momentos menos perfeitos, torna-se mais acessível. Esse fenómeno é conhecido como "efeito da vulnerabilidade". A perfeição impressiona. A humanidade aproxima.

A maternidade poderá também ter reforçado esta ligação emocional junto de parte do público. Quando uma figura pública partilha fases importantes da sua vida de forma natural, permite que muitas pessoas se revejam nas suas experiências. A identificação é um dos mecanismos psicológicos mais fortes para criar admiração e afeto. Quanto mais nos vemos refletidos em alguém, maior tende a ser o vínculo emocional.

Claro que nenhuma figura pública é consensual. Isso seria impossível. Cada pessoa interpreta o mundo através das suas próprias experiências, valores e expectativas. Mas quando observamos o carinho consistente que uma parte significativa do público demonstra pela Maria Botelho Moniz, percebemos que esse fenómeno vai muito além da televisão.

No fundo, a pergunta nunca foi porque tantas pessoas gostam da Maria Botelho Moniz. A verdadeira pergunta é outra: o que acontece dentro de nós quando encontramos alguém que nos parece genuíno?

A resposta da psicologia é simples. Baixamos as defesas. Confiamos. Aproximamo-nos. Criamos vínculo. Não porque essa pessoa seja perfeita, mas porque nos transmite autenticidade, segurança e proximidade. E essas são das necessidades emocionais mais profundas do ser humano.

Vivemos numa época em que há cada vez mais exposição e, paradoxalmente, cada vez menos ligação. Há muitas pessoas visíveis, mas poucas que nos façam sentir verdadeiramente acompanhados. Talvez seja essa a diferença. A Maria Botelho Moniz não entra apenas no ecrã. Entra na experiência emocional de quem a vê.

Porque, no fim, a psicologia lembra-nos de uma verdade simples: as pessoas podem admirar talento, beleza ou sucesso, mas afeiçoam-se à humanidade. O cérebro pode admirar o brilho. Mas é o coração que escolhe quem fica. E quem fica, raramente é quem parece perfeito. É quem consegue fazer-nos sentir em casa, mesmo através de um ecrã.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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