Crónicas

"Tive um sonho erótico. O rapaz das fotocópias prendia-me com algemas. E nem imaginam como acabou"

Há pessoas com quem temos relações profissionais. E depois há pessoas que aparecem nos nossos sonhos e acabam por comprometer seriamente a nossa capacidade de trabalhar.

Mulher com algemas (imagem meramente ilustrativa gerada com recurso a Inteligência Artificial)
Mulher com algemas (imagem meramente ilustrativa gerada com recurso a Inteligência Artificial) | Foto gerada com recurso a Inteligência Artificial

O rapaz das fotocópias é um desses casos.

Não sei o nome completo. Sei que usa camisas ligeiramente arregaçadas nos braços, que tem uma maneira irritantemente tranquila de resolver encravamentos de papel e que, sempre que vou buscar um documento, me pergunta se preciso de mais alguma coisa.

Até aqui, tudo normal.

Até à noite passada.

Sonhei que tinha ficado no escritório depois de toda a gente sair. Precisava de imprimir um relatório urgente e a máquina, como de costume, tinha decidido não colaborar. Ele apareceu atrás de mim, sem fazer barulho.

— Outra vez problemas com as fotocópias?

Disse-lhe que precisava de ajuda. Ele aproximou-se, mas não tocou na máquina. Olhou para mim.

No sonho, a sala parecia diferente. A luz era mais baixa, o silêncio mais pesado e eu tinha uma consciência absurda da distância entre nós.

Ele abriu uma gaveta e tirou uma pequena caixa preta.

Lá dentro estava um conjunto de oito peças de bondage. Algemas, acessórios, fitas. Tudo preto. Tudo com um ar perigosamente mais interessante do que qualquer coisa que alguma vez tivesse saído daquela impressora.

— Tens a certeza de que queres mesmo saber para que serve isto? — perguntou.

Não respondi. Fui eu que me aproximei.

No sonho, deixei que me prendesse os pulsos. Não havia pressa. Havia aquela espécie de tensão deliciosa de quem sabe exatamente o que está a fazer, mas prefere prolongar o momento antes de o fazer. Ele aproximou-se do meu ouvido e perguntou-me se queria que parasse.

Disse-lhe que não.

E, pela primeira vez em muitos anos, não fui eu a organizar, controlar ou antecipar o que vinha a seguir.

O resto do sonho é demasiado privado para uma crónica. Mas posso dizer que a impressora acabou por ficar completamente esquecida.

Acordei às 6h42, com o coração acelerado e uma certeza: nunca mais ia conseguir pedir uma impressão frente e verso sem pensar naquele homem.

Às nove, tinha uma reunião.

Às nove e dezassete, fui buscar umas cópias.

Ele estava lá. A mesma camisa. Os mesmos braços. O mesmo sorriso profissional.

— Bom dia. Precisas de alguma coisa?

Olhei para ele. Depois para a máquina. Depois novamente para ele.

Tinha duas hipóteses: comportar-me como uma adulta funcional ou contar-lhe que, durante a noite, ele tinha sido o protagonista de um dos sonhos mais indecentes da minha vida.

Sorri.

— Hoje não. Obrigada.

Ele ficou a olhar para mim durante um segundo a mais.

— Tens a certeza? Pareces precisar de ajuda.

E foi aí que percebi que o meu problema não era ter sonhado com ele.

Era não saber se queria continuar a sonhar sozinha.

Agora a dúvida: contavas-lhe que tinhas tido um sonho erótico com ele ou guardavas o segredo, mesmo sabendo que, a partir daquele dia, cada ida à sala das fotocópias podia tornar-se uma tentação?

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