Entrevistas

João Patrício: "Prefiro acreditar que ainda não vivi o meu momento certo"

Aos 50 anos, João Patrício vive um dos momentos mais desafiantes e emocionantes da carreira. Depois de anos a trabalhar atrás das câmaras como realizador, o Diretor Executivo de Entretenimento e Ficção da TVI prepara-se agora para conduzir "Momento Certo", o novo formato do canal. Entre histórias intensas e encontros carregados de emoção, o apresentador garante que está pronto para surpreender o público.

João Patrício
João Patrício

Em entrevista exclusiva à SELFIE, João Patrício fala sobre a responsabilidade de lidar com emoções reais, recorda o papel determinante de José Eduardo Moniz na sua estreia como apresentador, partilha a forma como equilibra a vida familiar com a profissional e reflete sobre o futuro da televisão. Sereno e com os pés bem assentes na terra, garante que está pronto para conduzir o novo programa da TVI, "Momento Certo", que encara como mais uma experiência enriquecedora, sempre com a família como porto seguro.

Está a chegar o "Momento Certo". O que podemos esperar deste novo formato?
Podemos esperar que venha, efetivamente, no momento certo! É nisso em que acredito e em que acredita, sobretudo, a equipa de produção e realização deste programa.

Está previsto que o formato tenha uma componente emocional forte. Como estás a preparar-te para lidar com histórias reais e, muitas vezes, difíceis?
Neste programa, a proposta é trabalhar, eu diria que exclusivamente, a emoção. E a emoção tem muitas camadas e formas, sobretudo, se pensarmos que as reações à emoção é que podem ser imprevisíveis e isso também acaba por tornar desafiante esta proposta. Atrevo-me a dizer que estou a preparar-me da mesma maneira que me tenho preparado para os diferentes casos que temos abordado n' "A Sentença" e que, de alguma forma, acabam por espelhar diferentes emoções. Não acho que seja muito diferente. É evidente que no "Momento Certo" vamos um bocadinho mais ao limite daquilo que é a emoção, no sentido em que a nossa proposta é trabalhar encontros, desencontros, abraços, revelações... E, portanto, haverá uma manifestação da emoção de uma forma muito específica e que, às vezes, será muito densa. Isso poderá provocar algumas reações que também a mim me podem surpreender. Enfim, acredito que estarei à altura.

E vais ter algum ritual antes da estreia?
Não, não tenho rituais. Nada. Não tenho mesmo.

Depois de tantos anos atrás das câmaras, qual é a sensação de, agora, estares mais exposto ao olhar do público e de seres um dos rostos que conduz a narrativa em televisão?
É uma sensação naturalmente diferente, sendo que tenho muita dificuldade em dissociar uma coisa da outra. Se bem que, com o tempo, já o vou fazendo cada vez mais, e isso também tem muito a ver com o facto de confiar imenso nas equipas da TVI que produzem "A Sentença" e que vão produzir o "Momento Certo". Hoje, já consigo fazer cada vez mais a separação e tirar partido apenas da componente da apresentação, sem estar tão preocupado com a técnica e com a estética que a linguagem televisiva obriga. Mas é impossível para mim não pensar de que forma é que está a ser enquadrado o momento - e aqui o enquadrado engloba naturalmente tudo. É muito difícil, para mim, não pensar no produto televisivo, mas isso não significa que não esteja naturalmente completamente disponível e entregue ao momento.

Sentes que a experiência enquanto realizador e Diretor Executivo de Entretenimento e Ficção te dá, além das bases, obviamente, alguma vantagem enquanto apresentador?
Não sei se será uma vantagem, pelo menos é uma perspectiva mais sóbria daquilo que é esta plataforma de comunicação que é a televisão. Mas é claro que saber o caminho das pedras me facilita nesse sentido.

Houve alguma coisa que tenha surpreendido nesta transição que houve na tua vida?
Não, encaro esta experiência como qualquer outra e dou-me ao luxo de não querer fazer algo que não me dê prazer. Enfim, dificilmente aceitaria este ou outro qualquer desafio se estivesse contrariado. Vejo isto exatamente como mais uma experiência que me acrescenta, uma experiência que acrescento ao percurso que tenho tido, mas tenho os pés muito assentes na terra. Como costumo dizer muitas vezes, eu sou um fazedor de televisão, portanto, sinto-me muito realizado sem estar à frente das câmaras. Sempre. Nesta condição circunstancial em que a minha vida está hoje, tenho a noção de que há um impacto público e de que o meu rosto aparece com muita assiduidade na casa dos espetadores. No entanto, se terminar hoje, seguirei igualmente realizado e a sentir-me completo nesta vida que escolhi.

O José Eduardo Moniz foi apontado como um dos impulsionadores desta tua transição. O que representou para ti, a título pessoal, esse apoio?
Trabalhar com o Zé Eduardo tem sido muito desafiante. Já o conheço há muitos anos mesmo. É evidente que, agora, temos tido uma relação muito mais próxima, umbilical. Temos as responsabilidades que se sabe nesta estrutura, e ele teve uma importância vital, dada a insistência. Costumo dizer, a brincar, que fui literalmente coagido a aceitar fazer "A Sentença". Se ele não tivesse efetivamente insistido tanto, a circunstância em que me encontro hoje não seria possível. A importância que ele tem foi naturalmente ter-me lançado para este mundo e para este desafio. Isso, obviamente, ficará para sempre na minha memória.

E, desta vez, quem foi a primeira pessoa a que contaste que ias ter um novo programa?
Não sei, sinceramente, porque, lá está, encaro estas coisas muito organicamente. Falou-se que, se calhar, fazia sentido e que viria, porventura, no momento certo, nem de propósito, e desenvolvemos internamente este conceito, este projeto, este formato. Entendeu-se e eu também entendi, como é evidente, porque consigo fazer este exercício quase extracorpóreo, às vezes um bocadinho difícil de olhar para mim enquanto persona televisiva e de perceber se fazia ou não sentido, se a minha persona televisiva se enquadrava neste conceito. De outro modo, não aceitaria. A partir daí, foi: vamos embora, por que não? Mas com a mesma perspetiva com que aceitei fazer "A Sentença."

Despediste-te recentemente do painel de jurados do "Funtástico". Como viste a chegada do Pedro Granger ao projeto?
Acho ótimo! O Pedro tem uma belíssima energia. Isso notou-se logo no primeiro dia. A Sara Prata assumiu, desde a minha saída, a presidência do painel de jurados - como já tinha assumido quando estive ausente por razões profissionais - e tem a responsabilidade de, em caso de empate, desempatar de acordo com a sensibilidade dela. Nós entendemos que fazia sentido que ela assumisse essa condição. E, depois, entendemos que o Pedro Granger vem também ele no momento certo. Ele tem, como disse, uma bela energia, é emocional e sabe um bocadinho de tudo, inclusive de música, porque ele também é autor e compositor. E, portanto, acho que esta aventura lhe assenta como uma luva.

Há pouco falávamos da notoriedade que conquistaste junto ao público. Qual foi a reação mais inesperada que já tiveste de um espetador?
[risos] Eu trabalho muito, tenho muito pouco tempo para, de facto, perceber o impacto público que, porventura, terei. Claro que me sinto observado em diferentes circunstâncias, mas sempre que me abordam é com muita simpatia e eu fico sempre muito lisonjeado. Acho que o "Funtástico" veio, de alguma maneira, atenuar um bocadinho o facto de a minha imagem estar associada à "Sentença", ao tribunal, a algo mais institucional, que fazia com que as abordagens fossem feitas com alguma distância higiénica, atrevo-me a dizer. Eu costumo dizer que os apresentadores de daytime são pessoas de sofá, da casa dos espetadores, por isso, há uma proximidade muito física até. E eu notava que comigo isso não acontecia tanto. Depois, como disse, isso foi um bocadinho atenuado com a experiência do "Funtástico", que é outro registo, e, portanto, também notei essas abordagens. Mas, sempre que acontece, sinto naturalmente que as pessoas são muito simpáticas e cordiais comigo. Isso deixa-me muito satisfeito.

Na tua visão, quais são os ingredientes essenciais para fazer televisão de qualidade hoje em dia e, naturalmente, para fazer frente à concorrência, ao streaming?
A televisão mudou muito, nos últimos tempos, e nós temos de ter necessariamente a preocupação de acompanhar essa mudança. Não sou nada defensor daquela doutrina que ouço há mais de duas décadas de que a televisão tem os dias contados. Mentira! Não tem nada! Existem, efetivamente, muitas plataformas de comunicação. Hoje, vemos televisão através de um telemóvel, o que seria impensável no passado. Mas se nós pensarmos naquilo que se torna viral, usando uma terminologia mais atual e de acordo com as novas plataformas, atrevo-me a dizer que parte dos conteúdos é proveniente da televisão. A televisão continua a ser a grande plataforma de comunicação e a servir de fonte de conteúdos para alimentar tantas outras. A televisão tem é que ter a responsabilidade de se reinventar e de estar atenta a estes fenómenos. Respondendo à tua pergunta, acho que o principal ingrediente para uma comunicação competente e eficaz, que vá ao encontro daquilo que o espetador quer ver, é a verdade. Acho que a verdade é o principal ingrediente. Se isso passar para o espetador, estamos a fazer boa televisão.

É o que vais querer passar para o espetador com este novo desafio?
Exatamente isso! O objetivo é que o programa seja indutor de introspeção. Há coisas tão mais importantes na nossa vida do que uma zanga, por exemplo. Às vezes, damos uma importância brutal a algo que, de repente, sem nos apercebermos, de alguma maneira, metastiza a nossa própria existência e deixamos de dar importância àquilo que, efetivamente, deve ter.

Quando não estás a trabalhar em televisão, onde podemos ver o João Patrício?
Não podem ver [risos]. Quando não estou em televisão, tenho o mergulho e esses escapes todos, mas, ainda assim, não tenho o tempo que gostaria de ter para me dedicar a eles. Mas atrevo-me a dizer que há uma coisa que, porventura, será aquela que eu sou mais competente a fazer que é... fazer nada. Sou muito competente a fazer nada. Dá-me muito gozo. Tenho muito prazer em fazer nada, em estar ali no sofazinho a fazer nada, a existir, a esvaziar o pensamento. Sou ótimo nisso. 

E os teus filhos, como é que têm lidado?
Acho que eles lidam com muita naturalidade. Acho que nenhum deles tem a verdadeira noção, porque, quando eles nasceram, o pai já andava nestas andanças e eles povoavam diferentes estúdios de televisão e ambientes televisivos, por isso, para eles, não é propriamente uma novidade. Não ligam muito. A Vitória gosta muito do "Funtástico", gostava muito de me ver lá, mas não era por mim, era pelas atuações e pelo talento. De resto, acho que eles não perdem um segundo para ver o pai.

Com uma família numerosa, consegues ter tempo para todos?
Tento, não é? Mas, infelizmente, fica sempre um bocadinho aquém. Não tenho o tempo que gostaria de ter e não tenho, sobretudo, o tempo que sei que eles gostariam que eu tivesse.

Como é que lidas também com o facto de os teus filhos estarem em diferentes fases da vida?
Eles estão em diferentes fases, da mesma maneira que eu sou necessariamente um pai diferente para cada filho que tive. Acho que esta é a grande verdade da Humanidade, atrevo-me a dizer. Há uma frase com a qual me sinto inteiramente alinhado: "O Homem é a sua circunstância." Nós somos a circunstância que a vida nos permite ser. Eu fui um pai diferente com 20 e tal anos, sou outro pai com 30 e tal e outro pai com 40 e tal. Somos pessoas diferentes. E isso permite também experiências de paternidade diferentes. Isso também é muito interessante. Mas eu, à semelhança do que acontece na minha vida profissional, também consigo gerir muito bem a minha vida pessoal.

E algum dos mais novos vai seguir as pisadas do pai?
Não sei. Aquilo que quero é que eles sejam felizes. Esse é o meu objetivo. Portanto, serão aquilo que eles muito bem entenderem, desde que, lá está, tenham essa bitola ativa de procurarem ser felizes.

Na tua vida pessoal, és mais planeador do momento certo ou pela espontaneidade?
Sou muito pela espontaneidade. Reajo muito ao impulso e àquilo que me vai acontecendo, sendo que não gosto de dar passos maiores do que a perna e tenho de sentir que onde estou a colocar o pé é suficientemente seguro para o fazer. Sou muito cauteloso, nesse sentido.

Olhando para trás, há algo que fizesses de maneira diferente ou que achas que não aconteceu no momento certo?
Tanta coisa. Mas isso é uma reflexão que se faz sobre o trabalho feito. E fazer-se essa reflexão é evoluir e é tentar sempre fazer melhor. Se nós acabarmos de fazer uma coisa - por mais extraordinária que nos possa parecer - e não tivermos a humildade de encontrar ali alguns pontos e reconhecer que, se tivéssemos feito de forma diferente, seria melhor para o produto... é um perfeito disparate, não faz qualquer sentido.

Hoje com 50 anos, o que dirias ao João da tua infância?
Diria: prepara-te que isto vai ser um entusiasmo! A vida passa muito rápido, rápido demais. Devia ter outro tempo para nós saborearmos as coisas que nos acontecem. Era Natal ontem e, não tarda nada, é Natal amanhã. A vida passa num instante. Gostava de ser tartaruga para viver até aos 400 anos [risos]. Mas aquilo que eu diria era: vais ter uma vida preenchida! Procura ser feliz!

És o homem que gostavas de ser ou que imaginavas que ias ser?
Não. Não imaginava que isto me ia acontecer. Se, há dois anos, me dissessem que estaria nesta circunstância, diria que não fazia sentido, mas isto veio, no fundo, provar que, efetivamente, eu reajo às coisas que me vão acontecendo com muita naturalidade.

E o teu porto seguro?
O meu porto seguro é a família, o meu porto seguro é casa. Se não tivesse o apoio da minha mulher, seria absolutamente impensável ter a estabilidade que tenho. Posso levantar as maozinhas para o céu por ter a mulher que tenho, naturalmente.

Se tivesses de escolher qual foi o momento certo da tua vida até hoje, qual seria?
Já vivi tantos momentos inesquecíveis e bons na minha vida... Podia responder o nascimento de cada um dos meus filhos. Mas prefiro acreditar que ainda não vivi o meu momento certo. Alimenta-me muito mais pensar assim.

Olhando para o futuro, o que ainda gostavas de fazer em televisão?
Não sei. A sério. Acho que está tudo ainda por inventar e por criar. Já fiz tanta coisa boa em televisão, tanta coisa que me deu tanto prazer... e aqui refiro-me, sobretudo, àquilo que diz respeito aos bastidores e à preparação, à realização e à produção de momentos televisivos. Já fui tão feliz aí! Mas acredito, agora com 50 anos, que os anos que vêm por aí ainda vão presentear-me com muitos momentos certos e que me vão provocar a mesma satisfação com que vivi tantos outros para trás.

Onde é que te imaginas daqui a 5/10 anos?
Espero que se mantenha este índice de realização pessoal. E aquilo que eu quero, daqui a 5 anos, é ser feliz.

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