Estive à conversa com António Manuel Ribeiro, o vocalista dos UHF. O artista recordou o início da banda, falou sobre o presente... e desvendou detalhes sobre o livro que pretende lançar.
António, quando olha para trás, quais foram os valores mais importantes que recebeu da sua família e que ainda hoje o guiam?
A minha mãe tinha uma expressão que me irritava profundamente, que era 'parece mal'. Vinha por tudo e por nada, porque o país era assim, fiscalizadores dos modos alheios, o chamando bom comportamento era fundamental. Com o meu pai, austero e de poucas falas – não, era mesmo não – aprendi disciplina e rigor, seriedade, valores que muito me ajudaram e ajudam na minha profissão. Com o meu pai não havia a célebre frase do 'só desta fez, pai', a excepção, tão nossa, que se repete e passa a regra sem fim. Não era não, ponto final.
O que mais gosta de fazer fora dos palcos, nos momentos em que é apenas o António e não o vocalista dos UHF?
Ler sem parar, continuar a aprender – tenho uma remessa de livros que aguardam a sua vez de serem abertos, mas continuo a comprar mais –, escrever, ouvir jazz, e seguir o mundo nos canais de informação televisiva. São assim as pausas em casa. Nunca joguei um videojogo, nem preciso. Trato de uma parte do jardim, planto morangos, cuido das plantas de casa, que ouvem música comigo, tudo muito simples e calmo, sossego, o inverso do frenesim da vida na estrada. A inspiração, sem bater à porta da consciência, chega quando lhe apetece.
Os UHF abriram caminhos para o rock em português. Quando começou, acreditava que teria este impacto cultural ou foi algo que foi acontecendo?
Hoje posso dizer, sem o arrepio do 'parece mal' [risos], que fundámos esse movimento quando nos tornámos, em 1978, nos UHF. Logo em 1979 demos 29 concertos, entrando pelo País. Éramos a novidade que cantava em português canções originais, que ninguém conhecia. O primeiro disco, 'Jorge Morreu', editado numa pequena editora em setembro desse ano, foi um flop. Depois, em outubro de 1980, saiu, em single, a canção 'Cavalos de Corrida', que tudo transformou no panorama das editoras discográficas a operar entre nós. Quando passaram a levar-nos a sério, já não era uma tentativa de experiência para os miúdos com jeitinho: os putos estavam a vender discos como ninguém. Passámos do oito ao 800 e não parámos no 400. Mas só hoje, com a distância dos factos, consigo fazer este historial. Na altura, vivíamos com um horizonte de talvez uns meses de vida, mas íamos a todas e não desistíamos perante as dificuldades.
Depois de tantos álbuns e concertos, onde ainda vai buscar inspiração para compor e subir a palco?
Estou atento a tudo que me rodeia, posso escrever sobre os meus sentimentos, posso ouvir uma notícia que desperta uma ideia, posso inventar estórias deste mundo, visões sobre a realidade. Mas é, sobretudo, estar atento e deixar a inspiração entrar sem bater à porta.
Há alguma canção dos UHF que guarde como um retrato muito pessoal da sua vida?
Há muitas canções autobiográficas, mas não as quero mencionar, porque são muitas. Contudo, penso que 'Um Tipo Sincero', do álbum 'A Minha Geração' (2013), é um retrato fiel de mim, mesmo se ser sincero crie problemas diplomáticos.
Como vê hoje a nova geração de músicos portugueses? Sente que o rock ainda tem espaço, ou está a transformar-se noutra coisa?
Há uma transformação no entendimento do que é hoje a produção musical. O rock foi sempre uma música de grupo, de garagem, ensaios, discussão e decisão colectiva. Hoje, há muita gente a fazer música sobre suportes pré-gravados, adquiridos junto de plataformas, um isolamento em casa que é algo que contraria a essência do rock: lembro-me do punk, a meio dos anos 70, quando nós surgimos, e do regresso à simplicidade e à rua. Mas há gente nova a seguir pelo caminho que nós, e outros, trilhámos. São momentos, são modas, que conduzem muitas vezes ao vazio do repetitivo. Sem falar do português cantado, a rima e a imitação. Em português correto não se diz 'me ama', mas 'ama-me'.
Se pudesse dar um conselho ao António jovem que começava na música, qual seria?
És atrevido, pá. Segue os teus princípios, o melhor de ti é o facto de nunca desistires à primeira, nem à segunda. A convicção, sem cegueira, ajuda-te no caminho.
O que é que ainda falta viver ou realizar fora do palco?
O próximo concerto, que é sempre um desafio, uma nova canção que me deixe satisfeito e espantado, um novo disco que cresça em estúdio. Fazer o novo é o meu lema. Sem esquecer a escrita para livro, estou a reunir uma colecção de poemas para um livro novo, os outros estão esgotados.
Sei que os vossos fãs, a vossa Tribo, são muito acarinhados e valorizados por vós. Qual a mensagem que lhes gostaria de deixar?
Já o proclamei muitas vezes em palco, por agradecimento por tudo o que os fãs nos dão. As canções tornaram-se importantes, porque foram os fãs que o determinaram, elevando-as à condição de hinos. Sem este binómio simbiótico não haveria UHF. Poderia ser uma teimosia, porventura, fechada numa garagem, como tantos outros, sem mundo, e não passaria daí. Mas o nosso mundo são os fãs que nos seguem e apoiam, cantam as canções e exigem mais de nós.
Há novas canções para breve?
Há sempre, é imparável o rio da escrita, aliás, escrevo muito mais do que gravo, porque algumas canções precisam de berçário e outras não passam da pasta de arquivo a que chamei 'Baú de Canções'.
