"A recompensa de poder fazer a diferença no mundo é inigualável"
Joana Freitas Araújo entrevistou para a SELFIE o Comandante do Corpo de Fuzileiros, Comodoro Martins de Brito.
- 14 abr, 15:36
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Estive à conversa com o Comandante do Corpo de Fuzileiros, Comodoro Martins de Brito, numa altura em que esta força especial da Marinha está prestes a completar o 405.º aniversário.
Trata-se de uma entrevista muito especial para mim, uma vez que é aqui que o meu filho, João, tem feito carreira.
Como definiria a missão dos Fuzileiros a alguém do meio civil que pouco conhece esta força?
Os Fuzileiros são uma força especial da Marinha, de natureza expedicionária, caracterizada pela sua prontidão permanente, grande polivalência e flexibilidade de emprego, mobilidade e autonomia, distinguindo-se pelo seu caráter anfíbio. Contribuem para o esforço de promover e proteger os interesses de Portugal no mar, nas suas vertentes de segurança e proteção, em concreto na defesa próxima dos navios da Esquadra e no combate a atos ilícitos de natureza criminosa, como a pirataria, o terrorismo, a imigração ilegal e o narcotráfico. Do mar para terra, são a lança do poder naval para influenciar as ações no litoral; ao infiltrarem-se numa praia distante, cobertos pela surpresa e no sigilo da noite, através das dunas ou de escarpas rochosas, a Marinha cumpre em terra missões de vigilância, de recolha de informações ou a destruição de alvos remuneradores; mas, também, dá apoio às populações em áreas afetadas por catástrofes, participa na evacuação de cidadãos não-combatentes ou presta assistência humanitária. No seu dia a dia, além do treino contínuo e da prontidão imediata, os Fuzileiros garantem ainda a proteção de infraestruturas críticas, asseguram o serviço de polícia naval, reforçam o dispositivo de apoio a emergências civis, a vigilância e o patrulhamento das praias assim como das florestas e de áreas rurais na dissuasão contra incêndios, assim como participam em ações de cerimonial e protocolo militar. Operam no mar e em terra, na paz e na guerra, 24 horas por dia, todos os dias, sempre e onde for necessário.
Que valores considera fundamentais na formação de um Fuzileiro e de que forma esses valores se refletem no dia a dia?
Como parte integrante da Marinha, os Fuzileiros adotam também os mesmos valores, como a lealdade, integridade, honra, disciplina e coragem. Estes princípios são ainda reforçados por uma forte cultura organizacional, marcada pelo sentimento de pertença e sentido de missão, onde a equipa se sobrepõe ao indivíduo e a tarefa precede o coletivo. Ninguém fica para trás e qualquer missão atribuída, é cumprida… e bem cumprida! Na sua conduta diária, o Fuzileiro expõe estes valores através da disponibilidade, abnegação e altruísmo, independentemente da complexidade ou a duração das tarefas, e mesmo com o sacrifício pessoal. Não existem atividades menores, todas são importantes e nobres e quando algo ou alguém falha, todos falham. A palavra FUZOS, como são conhecidos, caracteriza-os como Fortes, Unidos, Zelosos, Orgulhosos e Simples. Começa no curso de Fuzileiros o seu processo de integração e preparação, submetendo os candidatos a uma rigorosa e exigente componente formativa com vista a criar-lhes novas competências e capacidades, onde a robustez, a resiliência e a confiança são fatores críticos; é ainda durante este período inicial de contacto que se procede à aculturação do indivíduo, ao desenvolvimento do seu espírito de corpo e à união, estimulando-se o orgulho de pertencer e a humildade em servir.
Na sua opinião, o que mais surpreenderia um civil ao acompanhar de perto a rotina de um Fuzileiro?
Surpreenderia, essencialmente, a sua dimensão humana e simplicidade. A imagem de um militar de uma Força Especial é normalmente associada a traços de personalidade mais reservados, a indivíduos fisicamente fortes e rústicos, por vezes até ásperos e frios, que raramente expõem as suas emoções e são pouco sociáveis, isto na ótica de terem de lidar com a adversidade e/ou para protegerem a informação que têm acesso. Na prática, o Fuzileiro tem introduzido no seu perfil genético uma abordagem mais expansiva e naval, que valoriza a vida, a camaradagem e o respeito pelos outros. Aquele mesmo indivíduo que opera isolado no campo de batalha e sobrevive com aquilo que a natureza lhe oferece, sem se deixar capturar pelas forças inimigas, é o mesmo que ajuda as populações assoladas pelas cheias, incêndios ou ciclones. A capacidade de adaptação é fundamental e crítica para o sucesso.
Que papel têm hoje os Fuzileiros em missões de apoio à população, dentro e fora do território nacional?
O apoio prestado pela Marinha no decorrer da tempestade Kristin, na zona centro do País, em fevereiro deste ano, é um bom exemplo do papel diferenciador que os Fuzileiros têm no apoio às populações, em caso de catástrofes, aproveitando a sua elevada prontidão e mobilidade, versatilidade de emprego, competências técnicas e humanismo, capacidade de adaptação e espírito de missão. De uma forma rápida e sem hesitações, prestaram uma primeira intervenção nas áreas mais afetadas, acelerando o processo de recuperação e o retorno à normalidade. Foi assim, também, na ilha das Flores, nos Açores, em 2019, após a passagem do furacão Lorenzo; nos grandes incêndios de Pedrógão Grande, em 2017; ou na aluvião da ilha da Madeira, em 2010, entre muitas outras.
Paralelamente, e em termos internacionais, o nosso histórico em missões de assistência humanitária e resposta a desastres naturais também é bastante vasto, destacando-se já neste século, três intervenções em Moçambique, por ocasião de cheias; em Cabo Verde, na sequência da erupção do vulcão na ilha do Fogo e, mais recentemente, pelo efeito da tempestade tropical Erin. Embora forjados para o combate, o Fuzileiro responde sempre prontamente para as missões que lhe são atribuídas, relevando-se o apoio por si prestado às populações, quer em Portugal como no estrangeiro.
Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que olham para os Fuzileiros como uma possível vocação, mas ainda têm dúvidas?
Aos jovens que sentem esse apelo, eu diria, não hesitem, venham Servir Portugal nos Fuzileiros! É um privilégio e uma distinta honra que só alguns almejam. É muito mais do que uma carreira militar: é uma forma de cidadania e de realização pessoal, onde o esforço tem um rosto de gratidão no final de cada dia. Se procuram desafios e querem testar os vossos limites, ainda melhor, pois nos Fuzileiros encontrarão esse espaço. Se, no entanto, a dúvida ou o medo persistirem, não temam, venham pelo menos experimentar. Independentemente da decisão final, sairão sempre fortalecidos com a experiência e já sem dúvidas do caminho a seguir. O treino é duro, mas o combate é mais fácil e a recompensa de poder fazer a diferença no mundo é inigualável.
A liderança militar exige disciplina, mas também humanidade. Como se constrói essa relação entre comando e militares?
Uma das componentes da liderança é inata, nasce connosco e acompanha-nos durante toda a vida; outra, desenvolve-se e constrói-se no dia a dia, passo a passo, lado a lado! Ao optar por uma carreira militar, o jovem será sujeito ao “Juramento de Bandeira”, assumindo de forma solene e pública o compromisso de defender a sua Pátria e a Constituição da República, cumprindo os deveres militares, mesmo com o sacrifício da própria vida, o limite máximo do dever, que exige uma maturidade assinalável. Essa nova condição, também não lhe retira quaisquer direitos fundamentais nem o desumaniza, bem pelo contrário, apenas o compromete e responsabiliza pelos mais altos valores da Nação. Enquanto que a humanidade é o fator de referência, a disciplina é a forma de controlar o processo e a liderança o mecanismo natural para manter o seu equilíbrio. Cientes de que o uso da força é o último recurso do poder militar, a sua utilização está ainda sujeita a normas e regras de empenhamento que garantem a legitimidade e legalidade desses atos.
Que mensagem gostaria de deixar a quem ler esta entrevista?
Os Fuzileiros completam este mês o seu 405.º aniversário (vem visitar-nos no Parque da Paz, em Almada, nos dias 17 e 18 de abril), somos os legítimos herdeiros da primeira força militar constituída em Portugal com caráter permanente, o Terço da Armada da Coroa de Portugal. Orgulhosos pelo legado que recebemos, continuamos a defender os interesses nacionais, no nosso território e além-mar, ao serviço de Portugal e dos portugueses, onde quer que nos chamem. Gostaria que soubessem que podem contar connosco, nós também gostaríamos de contar contigo! Vem desembarcar connosco… Ser Fuzileiro não é uma profissão: é uma forma de estar na vida e sentir-se valorizado por essa opção. É uma força pronta para combate, mas também embaixadora da paz e ao serviço da população. Somos o braço armado da Marinha. FUZOS, prontos! Do mar, p’ra terra. Desembarcar, ao assalto! Desembarcar, ao assalto!
