Do bullying à missão de ajudar outras mulheres: Izabel de Paula fala sobre autoestima e padrões de beleza
Da pressão para ter o "corpo perfeito" à comparação constante alimentada pelas redes sociais, Izabel de Paula conhece de perto as inseguranças que afetam tantas mulheres. Depois de enfrentar bullying e uma relação difícil com o próprio corpo, transformou a experiência pessoal numa missão: ajudar outras mulheres a recuperar a autoestima e a fazer as pazes com o espelho.
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Cátia Soares
- 22 ago, 16:19
Natural do Brasil, Izabel de Paula chegou a Portugal em 1997, com 19 anos, e começou por trabalhar na área das limpezas, antes de uma oportunidade como assistente de consultório em Oftalmologia a aproximar da área da saúde. A própria experiência com a obesidade - chegou a pesar perto de 100 quilos - acabaria também por marcar o percurso que construiu na estética e no bem-estar. Hoje, com quase três décadas de experiência, é CEO da Clínica Izabel de Paula, criou métodos como Barriga Fit, Levanta Bumbum e Leg Fit Express e apresenta-se como criadora da categoria profissional Body Shape Expert, dedicada à estética funcional e à reabilitação do sistema linfático.
Para Izabel de Paula, falar de estética é muito mais do que falar de aparência. É falar de autoestima, de feridas emocionais, de aceitação e da forma como cada mulher aprende a olhar para si própria. Um caminho que conhece na primeira pessoa.
As experiências de bullying, rejeição e insegurança que viveu acabaram por influenciar profundamente a forma como encara hoje o seu trabalho. Mais do que transformar corpos, defende que é necessário olhar para aquilo que está por detrás da vontade de mudar: a pressão social, a comparação, o cansaço emocional e a procura de validação.
Numa entrevista exclusiva à SELFIE, Izabel de Paula fala sem filtros sobre os padrões de beleza, alerta para o impacto das redes sociais na autoestima feminina e explica por que acredita que qualquer transformação duradoura começa muito antes de chegar ao espelho.
A sua história pessoal está muito ligada à relação com o corpo e autoestima. Em que momento percebeu que queria transformar isso numa missão?
Acredito que o momento em que percebi que aquilo podia transformar-se numa missão foi quando entendi que eu não era a única mulher a sentir dor, insegurança e desconexão com o próprio corpo. Durante muitos anos, achei que o problema estava apenas em mim. Depois, comecei a perceber que existiam milhares de mulheres a viver exatamente os mesmos sentimentos: vergonha, comparação, rejeição, culpa e uma busca constante por aceitação. Foi aí que tudo mudou dentro de mim. Deixei de olhar para estética apenas como aparência e comecei a perceber o impacto emocional que a relação com o corpo tem na vida de uma mulher. A partir desse momento, tudo aquilo que procurei para me reconstruir transformou-se em ferramentas para ajudar outras pessoas.
"Deixei de olhar para estética apenas como aparência e comecei a perceber o impacto emocional que a relação com o corpo tem na vida de uma mulher."
Costuma dizer que a transformação começa muito antes do corpo. O que quer dizer exatamente com isso?
Porque nenhuma transformação verdadeira começa apenas no espelho. O corpo é, muitas vezes, o reflexo daquilo que a pessoa sente, vive e carrega emocionalmente. Há mulheres que chegam até mim a querer perder peso, reduzir medidas ou mudar a aparência, mas, no fundo, estão cansadas, emocionalmente sobrecarregadas, desconectadas delas próprias e com autoestima destruída. A transformação começa na forma como a mulher se olha, se trata, se valoriza e se posiciona perante a vida. O corpo responde muito ao emocional, ao stress, à ansiedade, à culpa e até à forma como a mulher fala consigo própria diariamente. Por isso, digo sempre que não trabalhamos apenas corpos. Trabalhamos reconstrução humana.
"Nenhuma transformação verdadeira começa apenas no espelho. Por isso, digo sempre que não trabalhamos apenas corpos. Trabalhamos reconstrução humana."
Já sentiu na pele a pressão dos padrões de beleza?
Sim, muitas vezes. E acredito que praticamente todas as mulheres, em algum momento da vida, já sentiram isso. Vivemos numa sociedade que cria padrões quase impossíveis de alcançar e que faz muitas mulheres acreditarem que nunca são suficientemente bonitas, magras, jovens ou perfeitas. Durante muitos anos, senti pressão, comparação e insegurança. E, talvez por ter vivido isso tão profundamente, hoje consigo compreender tão bem aquilo que muitas mulheres sentem quando chegam até mim.
"Nunca tivemos tanta informação sobre beleza, wellness e estética… e, ao mesmo tempo, nunca vimos tantas mulheres emocionalmente exaustas e insatisfeitas consigo próprias."
O bullying e as inseguranças que viveu mudaram a forma como olha para as mulheres hoje?
Mudaram completamente. Hoje, olho para as mulheres com muito mais empatia e sensibilidade. Porque aprendi que, muitas vezes, por detrás de uma mulher forte existe uma menina ferida, insegura e cansada de se sentir insuficiente. O bullying, a rejeição e as inseguranças deixam marcas profundas. E, por isso, acredito que devemos ter muito cuidado com a forma como falamos com as pessoas, principalmente com mulheres que já vivem diariamente em guerra com o próprio corpo. Talvez uma das maiores missões da Clínica Izabel de Paula seja exatamente ajudar mulheres a voltarem a gostar de si próprias.
"Vivemos numa sociedade que cria padrões quase impossíveis de alcançar e que faz muitas mulheres acreditarem que nunca são suficientemente bonitas, magras, jovens ou perfeitas."
A autoestima feminina está cada vez mais frágil?
Acredito que sim. Hoje, existe muita exposição, muita comparação e uma pressão constante para parecer perfeita o tempo inteiro. As redes sociais trouxeram coisas positivas, mas também criaram uma necessidade quase permanente de validação externa. Muitas mulheres deixaram de olhar para si próprias com carinho e começaram a olhar para si através da comparação com vidas e corpos irreais. Nunca tivemos tanta informação sobre beleza, wellness e estética… e, ao mesmo tempo, nunca vimos tantas mulheres emocionalmente exaustas e insatisfeitas consigo próprias.
"Muitas vezes, por detrás de uma mulher forte existe uma menina ferida, insegura e cansada de se sentir insuficiente."
As mulheres estão mais pressionadas do que nunca para terem o "corpo perfeito"?
Sem dúvida. Hoje, existe pressão para tudo: para ser bonita, magra, jovem, produtiva, saudável, elegante, bem-sucedida e feliz ao mesmo tempo. Muitas mulheres vivem cansadas, porque sentem que nunca conseguem atingir aquilo que o mundo espera delas. E o mais perigoso é quando a mulher começa a acreditar que o valor dela depende exclusivamente da aparência física. Porque, aí, nasce uma relação muito destrutiva com o próprio corpo.
"Hoje existe pressão para tudo: para ser bonita, magra, jovem, produtiva, saudável, elegante, bem-sucedida e feliz ao mesmo tempo. E o mais perigoso é quando a mulher começa a acreditar que o valor dela depende exclusivamente da aparência física."
O Instagram ajudou ou piorou essa obsessão com a aparência?
Acredito que os dois. O Instagram também trouxe informação, inspiração e oportunidades. Mas, ao mesmo tempo, intensificou muito a comparação e a necessidade de validação. Hoje, as pessoas comparam bastidores reais com imagens editadas, filtradas e, muitas vezes, irreais. Isso cria frustração, ansiedade e uma sensação constante de insuficiência. Por isso, acredito que precisamos de voltar a humanizar mais a beleza e lembrar as mulheres de que a perfeição não existe.
"Hoje as pessoas comparam bastidores reais com imagens editadas, filtradas e, muitas vezes, irreais. Por isso, acredito que precisamos de voltar a humanizar mais a beleza e lembrar as mulheres de que a perfeição não existe."
