Há uma frase que tenho ouvido cada vez mais em consulta: "Já nem vale a pena instalar as aplicações. É sempre a mesma coisa."
Curiosamente, esta frase é dita por pessoas muito diferentes entre si. Homens e mulheres. Pessoas que querem uma relação séria, outras que simplesmente gostavam de conhecer alguém sem jogos, sem desaparecimentos repentinos e sem a sensação constante de que estão a perder tempo.
É estranho pensar que nunca tivemos tantas formas de conhecer alguém, e ao mesmo tempo, tantas pessoas se sintam cada vez mais sozinhas e descrentes dos encontros online.
O problema raramente está numa única pessoa. Está, muitas vezes, na forma como utilizamos estas plataformas e nos adaptámos às regras que elas promovem. As aplicações não criaram todas estas dificuldades, mas amplificaram algumas tendências que já existiam.
- As múltiplas escolhas fazem-nos sentir que há sempre alguém melhor.
A psicologia chama-lhe paradoxo da escolha. Ou seja, quanto mais opções temos, mais difícil se torna a escolha e menos satisfeitos estamos com a que tomamos. Quando temos poucas opções, tendemos a investir mais naquilo que encontramos.
O problema é que esta pessoa "perfeita" não existe.
E, enquanto procuramos alguém sem defeitos, deixamos escapar pessoas que poderiam torna-se importantes se lhes déssemos tempo para serem conhecidas.
- Avaliamos pessoas em segundos.
As avaliações estruturadas em várias áreas de conhecimento demoram horas ou dias, mas nas aplicações duram segundos. Algo aqui não está correto, certo?!
Nas aplicações de encontros, conhecemos perfis antes de conhecermos pessoas. E quando uma decisão é tomada com base em duas fotografias e uma biografia de três linhas, é natural que muitos potenciais relacionamentos terminem antes mesmo de terem começado.
É pouco para conhecer uma pessoa, mas suficiente para a descartar.
No mundo fora do online, muitas relações começam precisamente porque alguém teve oportunidade de mostrar o humor, a forma de falar, a maneira como faz o outro sentir-se.
- As conversas tornam-se descartáveis.
Outro fenómeno frequente é a facilidade com se que começa e termina uma conversa.
Há sempre outro match.
Outra notificação.
Outra possibilidade.
Esta sensação de abundância pode fazer com que algumas pessoas invistam menos em conhecer verdadeiramente quem está do outro lado.
Basta uma resposta mais demorada ou uma conversa menos estimulante para surgir a ideia de que talvez exista alguém melhor à espera.
- O medo de investir também aumentou.
Depois de experiências de ghosting, rejeições ou encontros dececionantes, muitas pessoas começam a proteger-se.
Respondem menos.
Mostram menos interesse.
Mantêm várias conversas ao mesmo tempo para não criar expectativas.
O problema é que esta proteção, apesar de compreensível, dificulta precisamente aquilo que procuram: criar intimidade.
Outro aspeto de que se fala pouco é a fadiga dos encontros online. Depois de dezenas de conversas que não evoluem, matches sem resposta, ghosting ou primeiros encontros dececionantes, muitas pessoas deixam de abordar novas ligações com entusiasmo. Entram já à espera de que corra mal. E quando esperamos constantemente pela desilusão, torna-se mais difícil mostrarmo-nos disponíveis para criar uma verdadeira ligação.
- A química não cabe num perfil.
Há pessoas que não impressionam numa fotografia, mas que conquistam quando sorriem.
Outras escrevem pouco, mas sabem ouvir.
Outras não têm a biografia perfeita, mas fazem-nos sentir seguros, vistos e compreendidos.
A atração constrói-se através de experiências, emoções, linguagem corporal, humor, timing e vulnerabilidade. Nenhum algoritmo consegue prever tudo isso.
- Então, devemos desistir das aplicações?
Não necessariamente.
Há milhares de casais que se conheceram através das aplicações e construíram relações saudáveis e duradouras. As apps podem ser uma excelente forma de conhecer pessoas, sobretudo quando o contexto profissional ou social limita essas oportunidades. O problema surge quando começamos a tratar uma ferramenta como se fosse uma garantia de compatibilidade ou quando deixamos que a lógica da aplicação substitua a curiosidade necessária para conhecer alguém.
Conhecer alguém exige tempo, curiosidade, disponibilidade e alguma tolerância à imperfeição.
Talvez o objetivo não seja encontrar a pessoa perfeita ao fim de cinquenta swipes.
Talvez seja dar oportunidade suficiente a alguém para deixar de ser apenas um perfil e passar a ser uma pessoa.
Porque, no fim, continuamos a apaixonar-nos da mesma forma que sempre nos apaixonámos: não por uma fotografia, mas pela forma como alguém nos faz sentir.
