Crónicas

"Ghosting: porque é que algumas pessoas desaparecem sem dizer nada?", por psicóloga Inês Miranda

Já ouviu falar em ghosting? A psicóloga Inês Miranda explica de que se trata.

Psicóloga Clínica
  • 4 jun, 12:20
Inês Miranda

As mensagens chegavam todos os dias, havia interesse, conversa fluída, promessas de saídas, e começou a crescer a sensação de que algo podia estar a começar. E, de repente, silêncio. Sem explicação. Sem despedida. Sem uma última mensagem.

Se já passaste por isto, então já conheces o ghosting. Este fenómeno surgiu no contexto dos encontros online e descreve a situação em que uma pessoa corta o contacto de forma abrupta, desaparecendo sem qualquer explicação. Embora possa acontecer em amizades ou contextos profissionais, é nas relações românticas que tende a deixar marcas mais profundas.

 

Porque é que o ghosting dói tanto?

 

À primeira vista, pode parecer estranho que a ausência de uma pessoa provoque tanto sofrimento. Afinal, muitas vezes nem existia uma relação formal.

No entanto, a psicologia mostra-nos que o sofrimento não depende apenas do tempo que passámos com alguém, mas também das expectativas que criámos.

Quando sentimos interesse por alguém, o nosso cérebro começa a investir emocionalmente nessa ligação. Criamos esperança, imaginamos possibilidades e começamos a integrar aquela pessoa nos nossos pensamentos sobre o futuro.

Quando a outra pessoa desaparece sem explicação, não perdemos apenas a relação. Perdemos também a narrativa que estávamos a construir.

Além disso, o cérebro humano não gosta de situações sem resposta. A incerteza ativa sistemas relacionados com a procura de significado, levando-nos a repetir perguntas como: "O que aconteceu?"; "Fiz alguma coisa de errado?"; "Será que disse algo que não devia?"

Sem uma explicação clara, a mente tenta preencher os espaços em branco. E muitas vezes fá-lo da forma mais dolorosa: transformando a ausência do outro numa dúvida sobre o nosso próprio valor.

 

Então, o que leva alguém a fazer ghosting?

 

Apesar de muitas pessoas interpretarem o ghosting como um ato de crueldade ou desinteresse total, a realidade costuma ser bem mais complexa.

Existem vários fatores psicológicos que podem contribuir para este comportamento:

- Evitar o desconforto emocional
Uma das explicações mais comuns é a dificuldade em lidar com conversas desconfortáveis.
Dizer a alguém que já não existe interesse implica lidar com culpa, tristeza, desapontamento ou conflito. Para algumas pessoas, desaparecer parece mais fácil do que enfrentar esse momento.

- Dificuldade em lidar com proximidade emocional
A investigação sobre vinculação mostra que algumas pessoas tendem a sentir desconforto quando as relações começam a tornar-se mais próximas emocionalmente.
Quando a ligação ganha intensidade, podem surgir sentimentos de vulnerabilidade, medo de dependência ou receio de compromisso. Em vez de comunicarem essas dificuldades, algumas pessoas afastam-se abruptamente.

- Falta de competências emocionais
Nem toda a gente aprendeu a terminar relações de forma saudável.
Especialmente durante a adolescência e início da vida adulta, muitas pessoas ainda estão a desenvolver competências de comunicação emocional. Sabem que já não querem continuar, mas não sabem como transmitir isso.

- Sobrecarga ou confusão emocional
Por vezes, o ghosting não surge por falta de interesse inicial. Algumas pessoas sentem-se genuinamente confusas sobre aquilo que querem ou sentem.
Quando não conseguem compreender as próprias emoções, podem optar por se afastar em vez de comunicar essa incerteza.

 

O ghosting diz alguma coisa sobre quem o recebe?

 

Esta é provavelmente a pergunta mais importante. E a resposta é: nem sempre.

Embora seja natural procurar explicações dentro de nós, o ghosting costuma revelar mais sobre a forma como a outra pessoa lida com emoções e relacionamentos do que sobre o valor de quem foi deixado sem resposta.

Claro que nenhuma relação existe apenas por responsabilidade de uma das partes. Mas desaparecer sem comunicar não é sinónimo da tua “falta” de atratividade, inteligência, personalidade ou valor pessoal.

É apenas uma forma, na sua maioria pouco saudável, de lidar com uma situação emocional.

Inês Miranda
Psicóloga Clínica

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