Crónicas

"Devo voltar com o meu ex?", por psicóloga Inês Miranda

Há perguntas que fazemos a nós mesmos cuja resposta nem sempre vem da cabeça, mas do coração. Esta é uma delas.

  • 21 jul, 13:18
Casal
Casal Foto: Freepik

E quase sempre surge depois de uma fase difícil: quando a saudade aperta, a solidão pesa e as boas memórias parecem ocupar mais espaço do que aquelas que nos fizeram sofrer. De repente, uma relação que parecia impossível de recuperar começa a fazer sentido outra vez. Mas será que voltar é mesmo uma boa ideia?

A investigação mostra que as relações on-off (aquelas em que o casal termina e reata várias vezes) são mais comuns do que imaginamos. No entanto, quando este padrão se repete, estas relações tendem a ter mais conflitos, menos satisfação, pior comunicação e maior instabilidade emocional.

Isto significa que nunca devemos voltar para um ex? Não. Significa apenas que voltar, por si só, não resolve aquilo que levou ao fim da relação.

Antes de pensar num recomeço, talvez valha a pena responder a uma pergunta menos romântica, mas muito mais importante: o que mudou? Porque o amor, por si só, raramente chega.

Se os problemas continuam exatamente os mesmos, é muito provável que o resultado também seja. É verdade que, numa fase inicial, pode haver uma maior vontade de mudar. Parece que tudo vai ser diferente. Mas, se não houver um trabalho real sobre os padrões que levaram ao fim da relação, é muito provável que os mesmos comportamentos acabem por voltar.

A psicologia mostra-nos também que, depois de uma separação, tendemos a lembrar-nos mais facilmente dos momentos bons e a dar menos importância aos momentos maus. Este "filtro" da memória pode fazer-nos olhar para a relação com mais nostalgia do que objetividade. Não significa que estejamos a inventar o passado. Significa apenas que as emoções influenciam a forma como nos lembramos dele.

Por isso, antes de interpretar a vontade de voltar como um sinal de que a outra pessoa mudou ou de que "agora vai ser diferente", talvez seja importante fazer uma pausa e perguntar: tenho saudades da pessoa ou da forma como me sentia quando estava numa relação? Nem sempre são a mesma coisa.

As pessoas podem mudar. As relações também. Mas mudar não é prometer fazer diferente. É mostrar, ao longo do tempo, que realmente se faz diferente.

Houve crescimento? Foram assumidas responsabilidades? Os padrões que magoavam ambos foram compreendidos e trabalhados? Ou apenas passou tempo?

Porque o tempo, por si só, não resolve conflitos. A mudança acontece quando existe consciência, responsabilidade e vontade de fazer diferente.

Outro aspeto importante é perceber porque é que a relação terminou. Há uma grande diferença entre um casal que acabou por dificuldades de comunicação, falta de maturidade ou objetivos de vida diferentes e uma relação marcada por manipulação, violência, controlo ou desrespeito. Nestes casos, voltar dificilmente representa uma nova oportunidade. Muitas vezes significa apenas regressar ao mesmo ciclo.

Existe ainda uma armadilha frequente: acreditar que o sofrimento depois da separação é uma prova de que devemos voltar. Mas sentir falta de alguém não significa, necessariamente, que essa pessoa seja a melhor escolha para nós. Significa apenas que perdemos uma ligação importante. E os seres humanos estão preparados para criar vínculos e sentir a dor quando os perdem.

Por isso, talvez a pergunta não seja: "Devo voltar com o meu ex?" Talvez seja esta: "Se conhecesse esta pessoa hoje, exatamente como ela é agora, escolheria começar uma relação com ela?" A resposta a esta pergunta costuma ser mais honesta do que aquela que damos quando estamos presos ao que foi.

Voltar pode fazer sentido. Há casais que conseguem reconstruir relações mais saudáveis porque ambos cresceram, aprenderam a comunicar de forma diferente e assumiram a responsabilidade pelo papel que tiveram nos problemas da relação.

Mas voltar apenas porque existe saudade, medo de ficar sozinho ou a esperança de que "desta vez vai ser diferente" é, muitas vezes, voltar à mesma história à espera de um final novo.

Porque finais diferentes exigem mudanças diferentes, e não apenas uma segunda oportunidade para fazer exatamente o mesmo.

Inês Miranda
Psicóloga Clínica

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