Entrevistas

Francisco Moita Flores: "A paixão pela escrita não tem passado. Conjuga-se sempre no futuro"

Com um novo livro nas bancas, "Agora e na hora da nossa sorte", Francisco Moita Flores contou à SELFIE em que se inspirou para escrever esta nova obra e como a escrita apareceu na vida do antigo inspetor criminal.

Escritor, comentador, investigador, antigo inspetor da Polícia Judiciária e antigo Presidente da Câmara Municipal de Santarém, Francisco Moita Flores é o verdadeiro homem dos sete ofícios. Em conversa com a SELFIE, Francisco Moita Flores fala sobre a infância e como a paixão pela escrita e pela investigação criminal apareceram na vida do autor de 18 romances.

 

Como era Francisco Moita Flores em adolescente?
Era um puto irrequieto e brincalhão. Gostava de correr (cheguei a ser campeão nacional de iniciados) e adorava a minha bicicleta. Vivia numa herdade perto de Moura que tinha muita gente, muitos miúdos e uma escola. Tinha o maior recreio do mundo e daí o sentido de liberdade eu fui criando.

 

Sonhava vir a ser o quê?
Desde muito cedo sonhei que gostaria de ser detetive e escritor. Muito contaminado pelas séries televisivas de policiais (a televisão chegou ao grande público quando eu tinha 10 ou 11 anos) e pela paixão que, ainda hoje, tenho pela leitura. Desde muito novo, fui um bom leitor.

 

O que o levou a enveredar pela área da investigação criminal?
Uma estranha coincidência. Certo dia, ao passar na rua Gomes Freire dei de caras com o meu cunhado que acabara de se inscrever para os exames de admissão à PJ. O detetive, que vivia dentro de mim, despertou. Fui inscrever-me. Quando chegou a hora dos testes, o meu cunhado acabou por não ir e eu fui aprovado para entrar na Escola da Polícia Judiciária. Estudei bastante e terminei classificado no primeiro lugar no meu curso de investigação criminal.

 

Do que guarda mais saudades da carreira nessa área?
Guardo saudades da idade que tinha (risos). Guardo a amizade, o companheirismo, a dedicação ao trabalho sem horários. Foi um tempo intensamente vivido.
 

Ao longo da sua carreira, qual o caso que mais o marcou? E há algum que nunca tenha sido desvendado?
Um dos casos mais significativos foi a morte de Sá Carneiro e daqueles que o acompanhavam no avião que caiu em Camarate. Estive lá nessa noite, embora o processo de investigação nunca chegasse a pertencer à minha equipa. E, como sabe, ainda hoje não se esclareceu se foi crime ou foi acidente.
 

Como surgiu a escrita na sua vida?
A escrita surgiu muito cedo. Aos dezoito anos colaborava com jornais do Alentejo. Aos 19 escrevi a minha primeira peça de teatro. E foi sempre em crescendo.
 

Alguma vez retratou um dos seus casos criminais num livro?
Não. Aproveitei a experiência policial para recriar ambientes e construir histórias mas nunca usei um caso em que eu estivesse diretamente envolvido por uma questão deontológica.

 

Começa 2025 com o lançamento do livro Agora e na hora da nossa sorte. Inspirou-se em algo? O que nos pode contar?

Agora e na Hora da Nossa Sorte é um romance que sai da minha observação dos bares e lugares onde se vendem apostas: a lotaria, o Euromilhões, a raspadinha, etc, em que se revelam pessoas viciadas no jogo. Quem olha de perto os jogadores vê coisas extraordinárias no seu comportamento. Foi a partir do estudo mais atento dessas pessoas que criei a história que dá vida a este romance.
 

Quanto tempo, normalmente, demora a escrever um livro?
Fazendo médias, pois todos os livros são donos do seu tempo, diria que mais ou menos dois anos.

 

Houve algum livro em que sentiu vontade de desistir a meio ou que tenha sido difícil de terminar?
Claro. Tenho romances que chegaram a meio do seu percurso e, de súbito, desapaixonei-me. Esperam melhores dias.

 

Qual das suas obras mais o marcou? Ou qual o livro que lhe deu mais prazer de escrever até agora?
Fazem-me essa pergunta muitas vezes e eu respondo sempre: o próximo. A paixão pela escrita não tem passado. Conjuga-se sempre no futuro. Escrevi 18 romances, 17 séries para televisão, 7 filmes, 8 peças de teatro e não tenho dúvidas de que o próximo trabalho é o grande amor da minha vida.

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