Indignada com maus tratos a crianças, Filipa Maló questiona: "Quem toma conta dos nossos filhos?"
Através do Instagram, Filipa Maló partilhou uma reflexão acerca das notícias sobre maus tratos e abusos infantis.
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Ana Albernaz
- 22 mai, 16:09
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Filipa Maló Franco tem por hábito fazer partilhas relacionadas com a parentalidade e as mais recentes notícias relacionadas com maus tratos e abusos infantis não deixaram a psicóloga indiferente.
"Quero acreditar, como muitos, que estas notícias surgem em maior número porque a sociedade está mais atenta, mais disposta a denunciar", começou por escrever aquela que ficou conhecida com a personagem Clarinha, na série "Super Pai".
"A verdade incómoda é esta: estamos a entregar bebés de meses a instituições sobrecarregadas, com funcionários mal pagos, mal supervisionados e emocionalmente esgotados. E depois surpreendemo-nos quando o sistema falha, às vezes de forma brutal. Não retirando a culpa, de quem agride. Nem a desculpando. Mas se houvesse mais controlo, talvez quem quisesse fazer mal não o conseguia", considerou a psicóloga.
"Também, uma criança de um ano não deveria passar dez horas por dia longe dos pais. Não porque as creches sejam inerentemente más, mas porque nenhuma instituição substitui vínculo afetivo nos primeiros anos de vida. A ciência do desenvolvimento diz isto há décadas. Nós fingimos não ouvir", acrescentou Filipa Maló Franco, acrescentando: "O problema é também estrutural.As licenças parentais em Portugal continuam insuficientes. O mercado de trabalho pune quem fica em casa. As famílias não têm escolha real, têm apenas a ilusão de uma."
"E é aqui que quero ser clara: não estou a culpar os pais. Longe disso. A maioria não tem alternativa. Trabalha porque tem de trabalhar, entrega os filhos à creche porque não há mais ninguém, e vive com a angústia silenciosa de quem sabe que algo não está bem mas não consegue mudar as circunstâncias sozinho. Apontar o dedo a essas famílias seria não só injusto, seria uma distração conveniente dos verdadeiros responsáveis", defendeu a psicóloga.
"A longo prazo, mudar o sistema: licenças parentais mais longas e melhor remuneradas, trabalho verdadeiramente flexível, apoios que permitam escolha real às famílias. Para que um dia 'ficar com o filho' não seja um privilégio de quem pode pagar por isso. Mas enquanto esse dia não chega, e não vai chegar amanhã, há muito a fazer dentro do sistema que existe. Reduzir os rácios criança-adulto nas salas. Investir seriamente na formação de quem trabalha com os mais pequenos. Criar mecanismos de supervisão reais e contínuos, não apenas vistorias pontuais. Sensibilizar para o impacto do esgotamento profissional em quem cuida. E garantir que denunciar é fácil, seguro e tem consequências. As crianças que estão hoje numa creche não podem esperar pela revolução do sistema", rematou Filipa Maló.
