Entrevistas

Edmundo Vieira lança tema dedicado a Angélico: "O luto acaba por nunca passar"

Em entrevista à SELFIE, Edmundo Vieira recorda Angélico Vieira e fala abertamente sobre a canção que dedica ao falecido amigo: "Saudade".

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"Saudade" é o tema que marca o regresso de Edmundo Vieira à carreira a solo. Dedicada a Angélico Vieira, a canção é lançada, esta sexta-feira, dia 22, nas várias plataformas digitais, mas, salienta o músico em entrevista à SELFIE, chega ao público "sem objetivos comerciais".

Nesta conversa sem tabus, Edmundo Vieira fala sobre a criação de "Saudade" e recorda, com emoção, o amigo, com quem brilhou em D'ZRT, juntamente com Paulo Vintém e Vítor Fonseca, mais conhecido como Cifrão. No passado dia 28 de junho, completaram-se 14 anos sobre a morte de Angélico Vieira, na sequência de um acidente de viação.

O passado e futuro, com o presente em primeiro plano, também são assuntos na entrevista que Edmundo Vieira concede à SELFIE. Atualmente com 41 anos, o músico deixa ainda no ar novidades para breve sobre a banda nascida na série da TVI "Morangos com Açúcar".

Acaba de lançar o tema "Saudade". Que canção é esta?
É uma música prometida há muitos anos, infelizmente pelos piores motivos. Sempre tive a necessidade de escrever esta música e acabou por surgir agora, ao fim destes anos todos. Vem de uma conversa com produtores em estúdio, com quem partilhei também a necessidade que tinha de fazer esta música. Sem objetivos comerciais, sem intenções de fazer a música para obter o sucesso... Nada dessas coisas. Não é esse o objetivo. Foi mesmo por uma necessidade minha, que eu tinha enquanto artista: fazer uma música dedicada a um assunto que me é muito importante. A música fala de saudade. É dedicada a alguém que já partiu. Infelizmente, tenho essa história na minha vida, tal como muita gente que perde entes queridos. Acaba por ser também abrangente a outras pessoas, que se identifiquem, infelizmente, com a música.

E porquê agora?
Ao longo dos anos, já tinha tentado abordar este assunto e tinha tentado fazer algumas coisas neste sentido. Nunca fiquei satisfeito com o resultado, nunca fiquei com o sentimento de que tinha algo que me fazia sentido e que era realmente aquilo que eu queria. Agora, talvez pela experiência que tenho da música e pelo facto de termos feito, enquanto D'ZRT, a Encore Tour, em que lembrámos o Angélico.... Tudo isso me trouxe esta fórmula que não sei explicar muito bem. Acabou por surgir de uma forma muito natural. A música surgiu num dia em que eu estava sozinho em casa. Veio-me novamente ao pensamento esse assunto e comecei a escrever e a compor. Saiu de uma forma muito natural. Depois, quando cheguei a estúdio, apresentei ao meu produtor e ele disse que achava que a música tinha muito sumo para poder trabalhá-la.

A música e a letra são suas.
Sim.

E, portanto, a composição deu-se muito rapidamente.
Sim. Há várias fases na composição de uma música, mas a composição e a letra saíram-me de uma forma muito rápida, até porque eu sabia o que pretendia. Há muito tempo que venho amadurecendo essa ideia. Eu sabia qual era o caminho que pretendia. Então, assim que surgiu a inspiração, foi mais fácil desenvolver a ideia. Depois, obviamente, fui aprimorando.

Foi difícil mergulhar novamente neste assunto para fazer esta canção? Como foi voltar, inevitavelmente, a reviver muitas memórias?
Nós aprendemos a lidar com o luto, mas o luto acaba por nunca passar. É um sentimento que não desaparece. Nós aprendemos a viver com ele. Aprendemos a lidar com ele no dia-a-dia. Vamo-nos moldando àquilo que a vida nos dá e vamos fazendo o nosso dia-a-dia. Há dias melhores, há dias piores... As coisas são mesmo assim. Naturalmente, ao abordar este assunto e entregar a minha alma nesta música, obviamente que tive momentos muito complicados durante a própria composição. Houve dias em que eu não aguentei cantar a música até ao fim. Durante as gravações, houve certos momentos em que fiquei um pouco mais emocional e me foi um bocadinho mais difícil. Durante a gravação do videoclipe, também foi bastante difícil, porque eu queria que a imagem retratasse de uma forma fiel aquilo que era o sentimento agregado à música e, para isso, tive de mergulhar a 100% naquilo que são os meus sentimentos e que estão bem guardados cá dentro. Então, foi bastante difícil nas várias fases. Acredito que ainda outras fases me irão esperar e que me serão difíceis, mas faz parte. É uma decisão que eu sei que teria de tomar a partir do momento em que eu assumisse fazer esta música e lançá-la para o mercado. Estou a falar nomeadamente quando tiver de interpretá-la ao vivo, em concertos para o público. Ser-me-á certamente muito difícil, mas isso faz parte.

Dizia ainda agora que mergulhar nisto faz sofrer. Mas, ao mesmo tempo, não há quase um sentimento de alívio por conseguir transpor, no caso, numa canção aquilo que foi sentindo ao longo destes anos?
Não. É uma sensação de alívio por finalmente ter conseguido encontrar um resultado final daquilo que eu pretendia já há muito tempo. Isso é um motivo de alívio e de orgulho. Tenho muito orgulho nesta música. Sinto que representa na sua plenitude aquilo que eu sinto e aquilo que eu queria passar às pessoas. Essa sensação, sim, traz-me alívio e muito conforto. Não propriamente pelo facto de a ter feito, mas pelo facto de ter feito algo que realmente me deixa orgulhoso da forma como o fiz.

O que diria Angélico Vieira ao ouvir esta esta canção?
Pelo que conheço dele, acho que ele diria algo como: "Boa, puto. Continua a trabalhar. Está mesmo fixe. Boa cena. Vai fazer mais músicas" [sorri]. Ele chegou a fazer isso com outras músicas que lhe mostrei.

Angélico Vieira continua a fazer muito parte do seu pensamento no dia-a-dia?
Sim, claro que sim. Nós temos pessoas ás quais somos mais ligados e outras às quais somos menos ligados. Eu já perdi os meus avós e não passei nem por metade daquilo que passei e que passo em relação ao Angélico. São sentimentos e isso não se explica [pausa]. É difícil. É muito difícil abordar esta situação, porque acaba por ser um sentimento que nos liga a alguém e que nós não conseguimos explicar bem o porquê. Ao fim destes anos, continua a estar muito presente porque... É mesmo assim. Quando perdemos alguém que nos é muito importante, não nos esquecemos. Aprendemos a viver com isso.

Até porque vocês viveram muita coisa juntos, durante muito tempo seguido.
Sim, mas não tem só que ver com as vivências, porque nós, ao longo das nossas vidas, vamos vivendo com muita gente. Muitas vezes, as pessoas partem e nós não sofremos com essa partida. Encaramos como sendo natural e a lei da vida. Ninguém fica cá. Mas há pessoas que...

... que marcam.
Que nos marcam. É muito difícil. O Angélico foi uma delas.

Mostrou a canção a Cifrão [Vítor Fonseca] e a Paulo Vintém?
Mostrei por alto...

O que disseram?
Mostrei-lhes um pouco da música quando estávamos nos ensaios do projeto "Cantar Morangos". Foi no meio da confusão, numa pausa que fizemos. "Olha o que estou a fazer. Vê lá o que achas". Eles gostaram imenso. Acham que a música está muito bonita e também estão também um bocadinho ansiosos, porque ainda não lhes mostrei o resultado final.

A seguir, vêm mais temas novos?
Este é um ponto de partida, daí eu ter dito há pouco que não há uma intenção comercial. Não faço grande intenção que isto seja explorado de uma forma comercial. É uma música que me é muito e e significa aquilo que significa, que tem a mensagem que tem. Portanto, não faço grande intenção de estar a espremê-la comercialmente. Mas estou a trabalhar noutras músicas a solo. Tenho uma outra música preparada para sair ainda neste ano. Está a ser terminada neste momento em estúdio. Entretanto, também há novidades com o projeto "Cantar Morangos": estaremos no MEO Arena em [28 de] novembro. Portanto, há muito trabalho. Também há coisas a serem feitas com D'ZRT - novidades que estamos a preparar mas sobre as quais ainda é cedo para falar. Mas há novidades que estamos a preparar. Aliás, nunca escondemos que estaríamos sempre a pensar no futuro. Com tudo isto a acontecer, também estou a reativar a minha carreira a solo. Não gravava nada há nove anos. Chegou agora o momento.

Ao fim de nove anos mais parado, que sentimento há em si neste regresso? É quase uma versão 2.0 da sua carreira...
É uma fase que está a deixar-me muito feliz, pela forma como tenho vindo a fazer as coisas. Para já, porque estou numa fase muito positiva da minha carreira, nomeadamente com o regresso dos D'ZRT. Correu muito bem, muito melhor do que com algum de nós poderia sonhar. Depois, com o prolongamento de trabalho com o projeto "Cantar Morangos", em que estamos a celebrar os 20 anos de "Morangos com Açúcar". É um projeto que, à partida, poderá prolongar-se no próximo ano. Ainda não sei, mas, eventualmente, há essa possibilidade. Já esta reativação da minha carreira a solo é um projeto ao qual posso entregar-me de corpo e alma e de uma forma mais despida, digamos assim, sobre aquilo que é a minha vida, a minha alma... Tenho as condições ideais para isso, sem pensar muito em ter que fazer música para as massas ou sem pensar muito em ter que fazer música para as editoras. Estou a fazer a música que quero, a música que me faz sentido, a música com as mensagens que pretendo e que há muito tempo gostaria de falar. Estou a fazer uma música para a minha mãe, por exemplo, que é uma música que eu já gostaria de ter feito há muito tempo. Por um lado, ainda bem. Deus escreve direito por linhas tortas. Ainda bem que nunca fiz, porque nunca iria fazer como estou a fazê-lo neste momento. Estou ansioso para poder mostrar-lhe. A mensagem tem que ver com o facto de aproveitarmos os nossos enquanto é tempo, enquanto ainda os temos cá, para que, um dia, não demos conta de que foi tarde demais e que não aproveitámos aquilo que deveríamos ter aproveitado.

Falava sobre o facto de, agora, finalmente, estar a fazer aquilo que quer. Isso significa que nem sempre foi assim.
Nem sempre foi assim. Infelizmente - e não é segredo para ninguém -, dependemos de uma indústria. Nós trabalhamos numa indústria e essa indústria, muitas vezes, trabalha sobre certos parâmetros e é muita gente a mandar naquilo que alguém, enquanto artista, faz. A música nasce do artista. Depois, do artista passa para outro artista, que é o produtor. Do produtor passa para a editora. Da editora, já vem outra opinião, porque tem de se mudar isto ou aquilo. E, quando chega o resultado final, nunca é aquilo que o artista, na realidade e na sua essência, quis fazer. Às vezes, o artista vive bem com isso. Outras vezes, não vive tão bem com isso. Mas eu, graças a Deus, também pelos anos em que já estou na indústria, permito-me, neste ano, decidir exatamente como quero, fazer como quero, como idealizo e como ambiciono colocar a minha música cá fora. Neste ano, é assim. Não quer dizer que, no futuro, seja igual. Mas este novo projeto a solo é assim: é a minha alma e a minha que lá estão.

Isso é sinal dos 40 anos, barreira que já ultrapassou?
[Risos] Pode ser, pode ser... Acredito que nós, a partir de uma certa altura, aprendemos a saber o que queremos e, essencialmente, o que não queremos. Uma das coisas que aprendi com os anos foi aquilo que não quero. E o que eu não quero é fazer aquilo que os outros idealizam que eu faça. Ou seja, eu não quero fazer a música que os outros me encomendam. Eu quero fazer a música que eu sinto. Eu quero fazer a música em que eu acredito. Aos 40 anos, não quero que venha alguém da editora dizer-me que eu devia fazer um folclore. Se eu quiser fazer um folclore, é porque eu sinto, porque eu quero fazer e não porque alguém da indústria me veio dizer. Estou a falar de folclore apenas como um exemplo, até porque eu tenho raízes tradicionais. Comecei a minha carreira a cantar fado. Não tenho nada contra o folclore, antes pelo contrário.

Veja, agora, na galeria que preparámos para si, as imagens do videoclipe do novo tema de Edmundo Vieira.

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