Crónicas

"Quando um país faz luto: o que a morte de Diogo Jota nos ensinou sobre a fragilidade da vida e a força da memória", por psicóloga Vera de Melo

Nesta crónica, a psicóloga Vera de Melo reflete sobre aquilo que a morte de Diogo Jota nos ensina sobre a fragilidade da vida e a força da memória.

  • 23 jun, 14:52

Há acontecimentos que ultrapassam o facto em si e se transformam em experiências emocionais coletivas. A morte de Diogo Jota foi uma delas. Não apenas porque Portugal perdeu um dos seus jogadores mais acarinhados, mas porque milhares de pessoas sentiram uma dor difícil de explicar. Uma dor que parecia desproporcional à distância que existia entre elas e o homem que partiu.

Afinal, a maioria nunca lhe falou, nunca o conheceu pessoalmente e nunca fez parte da sua vida. Ainda assim, chorou. Ainda assim, sentiu um aperto no peito. Ainda assim, ficou com a sensação de que algo importante tinha sido perdido.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. Os seres humanos não constroem ligações apenas através da proximidade física. Constroem-nas através da familiaridade, da repetição, da identificação e do significado emocional.

Durante anos, Diogo Jota entrou nas casas dos portugueses através dos ecrãs. Celebrámos os seus golos, acompanhámos as suas conquistas, vimos a sua evolução como jogador, marido e pai.

Sem nos apercebermos, passou a fazer parte do nosso universo emocional. Não era família nem amigo, mas também já não era um desconhecido. E quando alguém ocupa um espaço simbólico na nossa vida, a sua perda pode gerar um luto genuíno.

Mas talvez aquilo que tornou esta morte particularmente difícil tenha sido a forma como ela confrontou as pessoas com a fragilidade da existência.

A mente humana tem dificuldade em aceitar mortes que parecem contrariar a ordem natural das coisas. Um atleta jovem, saudável, bem-sucedido, com uma carreira brilhante e uma família jovem representa, para muitos de nós, a própria ideia de futuro. Representa continuidade. Representa a ilusão de que ainda existe muito tempo pela frente.

Quando alguém assim morre de forma inesperada, não é apenas a pessoa que desaparece. É também a sensação de previsibilidade que se quebra.

De repente, somos obrigados a recordar algo que passamos grande parte da vida a tentar esquecer: a vida é profundamente vulnerável. E talvez tenha sido isso que tantas pessoas sentiram.

A notícia não falou apenas de Diogo Jota. Falou de todos nós. Dos nossos filhos. Dos nossos pais. Das pessoas que amamos. Dos planos que fazemos acreditando que teremos sempre mais tempo.

É precisamente por isso que determinadas mortes se transformam em lutos coletivos. Porque deixam de pertencer apenas à família e passam a tocar medos, dores e reflexões universais.

A perda individual transforma-se numa experiência partilhada. E quando isso acontece, a sociedade procura formas de dar sentido àquilo que parece não ter explicação.

Foi nesse contexto que os gestos simbólicos ganharam um significado tão profundo. As pulseiras distribuídas antes do jogo não tinham o poder de aliviar a dor dos pais, da esposa ou dos filhos. Nenhum símbolo consegue fazer isso. Mas os símbolos têm outra função psicológica. Ajudam-nos a transformar emoções difíceis em algo visível. Ajudam-nos a criar um espaço coletivo para a tristeza. Ajudam-nos a dizer "não esquecemos" quando as palavras parecem insuficientes.

Os seres humanos recorrem a rituais desde o início da sua história precisamente porque o sofrimento precisa de forma. Acendemos velas, fazemos minutos de silêncio, criamos homenagens, erguemos memoriais. Não porque esses gestos alterem a realidade, mas porque ajudam o cérebro a integrar aquilo que aconteceu.

O luto é, em parte, um processo de reorganização interna. É a tentativa de encontrar uma nova forma de viver num mundo onde aquela pessoa já não está fisicamente presente.

Talvez por isso uma das imagens mais marcantes tenha sido a dos pais de Diogo Jota a assistirem ao primeiro jogo de Portugal no Mundial após a sua morte. Para muitas pessoas, aquele momento teve um impacto emocional difícil de descrever. Porque, de repente, a tragédia deixou de ser uma notícia e ganhou um rosto. Um rosto de pai. Um rosto de mãe. Um rosto de uma dor que nenhum ser humano deseja experimentar.

Existe uma dimensão do luto que raramente é falada. Quando morre um filho, não se perde apenas uma pessoa. Perde-se também uma parte do futuro. Perdem-se aniversários que nunca acontecerão, conversas que nunca serão tidas, abraços que nunca voltarão a existir. A psicologia chama-lhe a perda do futuro imaginado. E é uma das experiências mais devastadoras que alguém pode viver.

Ver aqueles pais nas bancadas teve precisamente esse impacto porque tornou visível algo que muitas vezes tentamos ignorar.

Enquanto o jogo começava, enquanto os adeptos cantavam e enquanto a competição prosseguia, estava ali uma família a enfrentar uma ausência impossível de preencher. E talvez uma das verdades mais difíceis do luto seja esta: o mundo continua. Os jogos continuam. Os dias continuam. As pessoas regressam ao trabalho. O tempo avança. Não porque a dor tenha diminuído, mas porque a vida não sabe parar.

É também aqui que surge um peso psicológico muito particular: o peso de homenagear alguém que partiu. Quando a morte acontece de forma tão impactante, nasce frequentemente uma necessidade coletiva de fazer justiça à memória da pessoa. Como se cada vitória tivesse de ser dedicada a ela. Como se cada gesto tivesse de estar à altura daquilo que representou. Como se existisse uma responsabilidade emocional de honrar quem já não está.

Contudo, a psicologia ensina-nos que a homenagem mais saudável não é aquela que transforma a memória numa obrigação. É aquela que permite que a pessoa continue presente sem impedir a continuação da vida. Porque recordar não significa ficar preso. E continuar não significa esquecer.

Uma das tarefas mais difíceis do luto consiste precisamente em aprender esta aparente contradição. É possível sentir saudade e voltar a sorrir. É possível chorar alguém e continuar a viver. É possível amar profundamente quem partiu sem deixar de investir na vida que permanece.

Talvez tenha sido isso que tantas pessoas sentiram naquele primeiro jogo de Portugal. Não era apenas futebol. Era um país inteiro a tentar encontrar uma forma de continuar sem esquecer. Era um exemplo silencioso daquilo que acontece em todos os processos de luto.

Aos poucos, a ausência deixa de ocupar todos os espaços. Não porque o amor diminua. Mas porque o ser humano possui uma extraordinária capacidade de adaptar a sua vida àquilo que nunca imaginou ter de suportar.

No final, talvez a morte de Diogo Jota tenha tocado tantas pessoas porque nos lembrou algo profundamente humano. Nenhuma carreira, nenhum talento, nenhum sucesso nos protege da vulnerabilidade da vida.

O que permanece não são os troféus nem os resultados. O que permanece é o impacto que deixamos nos outros. E quando um país inteiro faz silêncio para recordar alguém, talvez esse seja um dos sinais mais claros de que a sua passagem deixou uma marca que o tempo não apagará.

Porque, no fim, não é a morte que define uma vida. É aquilo que continua vivo nos corações de quem fica.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados