Nada fazia prever que isto fosse acontecer. Até à semana passada. Até ela.
A Ana é mãe de um colega do meu filho. Já nos cruzámos várias vezes na escola, em festas, coisas de pais.
Sempre a achei simpática, educada, normal. Mas, por alguma razão que ainda não consegui decifrar, algo mudou.
Talvez tenha sido aquele dia em que ficámos a falar os três - eu, ela e o meu filho - enquanto esperávamos pelo professor.
Talvez tenha sido a forma como ela sorriu, um sorriso espontâneo, descontraído, como há muito tempo eu não via.
Talvez tenha sido eu, cansado, desgastado, a precisar de me sentir visto. Não sei. Ou sei e não quero admitir.
O que sei é que, desde esse dia, quando a vejo, sinto um desconforto no peito. Uma inquietação. Uma vontade estúpida de prolongar conversas banais de dois minutos.
E, pior, sinto que ela também sente algo. Os olhares que duram um pouco mais do que deviam, a forma como baixa a cabeça a sorrir quando me cumprimenta, como se partilhássemos um segredo que nem sequer existe.
Sou casado. Tenho uma vida construída, uma família que depende de mim. Não estou infeliz, ou, pelo menos, não pensei que estivesse.
Mas a verdade é que o desejo adormecido, quando acorda, desarruma tudo. E não é sensualidade apenas.
É sentir-me visto como homem, não só como pai, marido, trabalhador. É perceber que alguém, fora da minha rotina, me olha com um brilho que eu já não recebo em casa há demasiado tempo.
Se der mais um passo, sei que vou entrar num território de onde não há regresso possível.
Se cortar já, faço o que é moralmente certo… mas não elimino o sentimento. Só o enterro vivo.
E a pior pergunta que tenho medo de fazer é esta: será que isto surgiu porque estou a ser injusto comigo próprio? Ou porque já não sou feliz e só agora percebi?
Estou perdido entre a culpa… e a vontade perigosa de me sentir vivo outra vez.
