Tenho uma relação sólida, com uma mulher que me quer, que me apoia, que sempre esteve ao meu lado. Mas a estabilidade, às vezes, tem a capacidade assustadora de adormecer partes de nós que nem sabíamos que existiam.
E foi no ginásio, de todos os lugares possíveis, que acordei.
Ela começou há pouco tempo. Vi-a pela primeira vez numa aula de cycling e senti aquele impacto idiota que já não sentia desde os vinte anos.
Não fiz nada. Nem sequer falei com ela. Só reparei. E reparei mais do que devia. Achei que era normal. Acontece, certo? Vemos alguém bonito, alguém com presença, e seguimos com a vida.
Mas, depois, veio o segundo dia. E o terceiro. E aquele momento em que ela me perguntou se a bicicleta estava ajustada corretamente. E aquele sorriso rápido, mas genuíno, quando me agradeceu.
A partir daí, comecei a reparar em tudo. No cheiro do perfume dela, na forma como prende o cabelo, no modo como se concentra nos exercícios.
Cheguei ao ponto ridículo de ajustar os meus horários para coincidir com os dela. Não me orgulho disto, mas não vou mentir: fiz.
E o pior é que ela também repara. Quebra o olhar quando o prolongamos demais. Ri-se quando tropeço numa máquina qualquer depois de ficar distraído.
Não sei se é química ou imaginação, mas é suficiente para me abalar.
A minha relação não tem nada de errado. Então, por que é que me sinto à deriva?
É desejo? É carência? É projeção de tudo aquilo que sinto falta, mas não sei dizer em voz alta?
Não houve toque, não houve mensagens, não houve traição física. Mas emocionalmente, sinto que já estou numa fronteira perigosa.
E agora vivo dividido entre a lealdade que devo… e a vontade irracional de sentir outra vez aquele arrepio na pele.
