Crescemos juntos, partilhámos fases importantes da vida, desilusões, noites longas de conversa, risos que só fazem sentido entre duas pessoas que se conhecem a fundo.
Era fácil esconder-me atrás dessa intimidade legítima. Até deixar de ser.
Conheci-o numa fase em que ainda estava a tentar perceber quem era, o que queria, quem me atraía. Ele sempre foi seguro de si, confortável na própria pele, assumidamente heterossexual.
Falava de mulheres com naturalidade, pedia-me conselhos, mostrava-me mensagens, contava-me encontros. Eu ouvia tudo com um sorriso que aprendi a treinar. Nunca lhe disse que cada história dessas era como um pequeno golpe silencioso.
O problema não começou com desejo físico. Começou com algo mais perigoso: a sensação de que ele me via de uma forma que ninguém mais via. Que me compreendia. Que me aceitava inteiro. Era com ele que eu era mais eu. E isso cria raízes profundas.
Houve momentos que me confundiram. Abraços demorados demais. Olhares que ficavam no ar. Aquela proximidade física natural, sem malícia aparente, mas que em mim provocava um turbilhão impossível de controlar.
Às vezes, quando bebíamos um pouco mais, ele encostava a cabeça no meu ombro, falava da vida, do cansaço, dos medos. E eu ficava ali, imóvel, com medo de respirar mais fundo e estragar tudo.
Nunca fiz nada. Nunca tentei nada. Nunca ultrapassei uma linha. Mas apaixonei-me na mesma.
O mais difícil é viver neste espaço ambíguo. Não sou rejeitado, porque nunca me declarei. Não sou correspondido, porque ele não sente o mesmo ou, pelo menos, é isso que diz.
Mas também não sou indiferente. Estou preso num amor que não existe oficialmente, mas que ocupa demasiado espaço dentro de mim.
Penso muitas vezes em confessar. Imagino dizer-lhe tudo: que não escolhi sentir isto, que não espero que ele mude, que não quero pressioná-lo. Que só preciso de ser honesto para conseguir seguir em frente.
Mas depois imagino o silêncio constrangido, o desconforto, a possibilidade real de perder a pessoa mais importante da minha vida. E isso paralisa-me.
A outra opção é afastar-me. Criar distância. Proteger-me. Mas como se afasta alguém que faz parte da tua rotina emocional? Como se apaga uma ligação construída ao longo de anos?
Tenho medo de que, ao afastar-me sem explicação, ele se sinta abandonado. Tenho medo de parecer frio, estranho, injusto.
E, acima de tudo, tenho medo de ficar sozinho com este sentimento que nunca chegou a ser vivido.
Às vezes pergunto-me se ele suspeita. Se sente algo estranho no meu silêncio quando fala de mulheres. Se percebe a forma como o olho quando não estou distraído.
Outras vezes convenço-me de que tudo está apenas na minha cabeça, amplificado pela carência e pelo desejo de ser visto.
Mas depois há dias em que ele me diz coisas simples como: "És a pessoa em quem mais confio"; "Não sei o que faria sem ti." E isso basta para me desfazer por dentro.
Não quero que ele seja outra coisa que não é. Não quero que se sinta pressionado, confundido ou culpado. Mas também não sei até quando consigo continuar a fingir que este amor não existe.
Arrisco confessar e corro o risco de perder a amizade que mais valorizo? Ou afasto-me em silêncio, tentando salvar-me, mesmo que isso me parta ao meio?
Só sei que amar alguém que não pode amar-te da mesma forma é uma solidão muito específica. Uma solidão acompanhada. E estou cansado de a carregar sozinho.
Os dilemas apresentados nesta rubrica são ficcionais, ainda que baseados em histórias reais. Os textos são elaborados com recurso a Inteligência Artificial.
