Crónicas

"Dia da Mãe… e as madrastas?", por Vera de Melo

Há dias que parecem simples no calendário. O Dia da Mãe é um deles. Flores, mensagens, fotografias antigas, abraços. Tudo parece organizado à volta de uma ideia clara de amor. Mas, na vida real, as relações raramente são assim tão lineares.

Psicóloga Clínica
  • 3 mai, 07:48

As melhores imagens de Vera de Melo na SELFIE

E é aqui que entram as madrastas. Silenciosamente.

Ser madrasta é habitar um lugar emocional complexo.

Não é "a mãe", mas também não é apenas "a mulher do pai".

É uma posição construída, muitas vezes sem guião, onde o amor cresce com cuidado, com hesitações, com pequenos avanços.

E isto tem impacto.

Para a criança, pode existir um conflito interno subtil. Gostar da madrasta pode, por momentos, parecer uma espécie de traição à mãe. Para a madrasta, há frequentemente um sentimento de não legitimidade. Ama, cuida, investe… mas nem sempre sente que tem direito a esse lugar.

É um terreno emocional sensível. E exige maturidade relacional. Não se trata de substituir ninguém. Trata-se de acrescentar.

Uma madrasta disponível não ocupa o lugar da mãe. Cria um novo espaço. Um espaço onde a criança pode sentir-se vista, respeitada e segura, sem ter de escolher lados.

E, no entanto, o Dia da Mãe pode trazer um peso invisível.

Porque há madrastas que cuidam todos os dias, mas que, neste dia, ficam em silêncio.

Há madrastas que ajudam nos trabalhos de casa, que acalmam noites difíceis, que celebram conquistas… mas que não recebem uma mensagem.

Não por falta de amor. Mas porque ainda não existe linguagem para esse vínculo.

E talvez esteja na altura de mudar isso.

Não precisamos de criar um novo rótulo. Precisamos de reconhecer o que já existe.

Se há cuidado, se há presença, se há vínculo… então há uma forma de amor que merece ser nomeada.

Talvez o Dia da Mãe também possa ser isto: um dia para ampliar o olhar sobre quem cuida. Sem retirar lugar a ninguém. Sem competir. Sem comparar. Porque, no fundo, o que constrói uma relação não é o título. É a consistência do afeto.

E há madrastas que, todos os dias, escolhem amar num lugar onde nem sempre são vistas.

Ficam. Cuidam. Estão.

E talvez seja aí que tudo se redefine, sem anúncios, sem rótulos, sem necessidade de explicação, afinal nem todo o amor que é de mãe… se chama mãe.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados