"Dia da Criança? Piada, certo?", por Vera de Melo
Quando chega o Dia da Criança, há quem sorria ao recordar festas, abraços, surpresas e memórias felizes. Mas há também quem sinta um aperto difícil de explicar.
- 31 mai, 18:55
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Porque nem todas as crianças tiveram uma infância.
Algumas tiveram uma casa, comida na mesa e roupas para vestir. Mas faltou algo essencial: a sensação de serem vistas, valorizadas e amadas.
Crescer apenas na funcionalidade deixa marcas invisíveis.
Há crianças que aprendem muito cedo que não podem incomodar, que não devem pedir demasiado, que precisam de ser fortes e autónomas. Crianças que receberam tudo o que era necessário para sobreviver, mas muito pouco do que era necessário para florescer emocionalmente.
Do ponto de vista psicológico, o afeto não é um luxo.
É uma necessidade humana fundamental.
É através do olhar atento, da validação emocional, da brincadeira, da ternura e da presença emocional dos adultos que a criança constrói a sua autoestima, a sua segurança e a sua visão sobre o mundo.
Quando isso não existe, a mensagem que muitas vezes fica gravada é simples e dolorosa:
"Os meus sentimentos não importam."
Mais tarde, na vida adulta, estas pessoas podem tornar-se extremamente funcionais. Trabalham, resolvem problemas, cuidam dos outros e assumem responsabilidades.
Por fora, parecem fortes.
Por dentro, muitas vezes carregam uma criança que nunca teve espaço para ser criança.
Uma criança que não precisava necessariamente de brinquedos caros ou festas grandiosas.
Precisava de colo.
Precisava de atenção.
Precisava de sentir que a sua existência era importante para alguém.
Por isso, para algumas pessoas, o Dia da Criança não desperta nostalgia.
Desperta luto.
O luto pela infância que não viveram.
O luto pelas memórias que nunca chegaram a existir.
E se este dia te faz sentir desconforto, tristeza ou até alguma revolta, talvez não seja porque és demasiado sensível.
Talvez seja porque uma parte tua reconhece aquilo que faltou.
Reconhece os espaços vazios deixados por anos de sobrevivência emocional.
O mais importante é lembrar que negar essa dor não a faz desaparecer.
Reconhecê-la é um ato de honestidade contigo.
Porque há feridas que não nasceram daquilo que aconteceu.
Nasceram daquilo que nunca aconteceu.
Dos abraços que faltaram.
Das palavras que nunca chegaram.
Da infância que deveria ter sido um lugar seguro e não apenas um período de crescimento biológico.
Por isso, quando alguém diz "Feliz Dia da Criança", algumas pessoas sorriem.
Outras pensam, em silêncio:
"Dia da criança? Piada, certo?"
