Imagina que durante dezenas de milhares de anos - dezenas de milhares, não dois mil, não cinco mil - a humanidade prostrou-se perante uma figura feminina. Que o sagrado tinha seios, anquinhas largas e o poder de dar vida. Que os primeiros templos não foram construídos para um Deus iracundo com barba e agenda política, mas para Ela - a Grande Mãe, a que fazia nascer o trigo, a que comandava as marés, a que ensinava os humanos a semear e a colher.
Agora imagina que essa história foi quase completamente apagada. Quase. Estamos aqui para a homenagear e fazer vibrar em nós, mulheres.
Há cerca de 30 mil anos, as nossas ancestrais já esculpiam figuras femininas em pedra e argila. A Vénus de Willendorf, com as suas ancas anafadinhas, data de há vinte e cinco mil anos. E não é pornografia paleolítica, como alguns académicos masculinos do século XIX preferiram sugerir, com uma criatividade interpretativa que diz muito mais sobre eles do que sobre Ela. É devoção. O divino tinha forma de mulher.
A primeira divindade com nome próprio documentada na história humana não é Zeus nem Javé. É Inanna - deusa suméria do Amor, da guerra, do céu e da terra. Os seus hinos foram escritos há quatro mil anos pela sacerdotisa Enheduanna - a primeira autora com nome assinado da história… Uma mulher, claro. Uma raridade, como não tivesse havido outras. Escrito por uma mulher, para uma deusa, quatro mil anos antes de alguém ter inventado as clarabóias. Está tudo dito, certo?
Na Índia, a Shakti é a energia primordial sem a qual Shiva, o Senhor do Cosmos, é apenas um mono elegante. Posso dizê-lo com autoridade pessoal — estive em Chennai e fui até Tiruvannamalai, onde fiquei no ashram de Ramana Maharshi, esse sábio extraordinário que abandonou tudo aos dezasseis anos para passar o resto da vida a fazer uma única pergunta: Quem sou eu? Uma pergunta que qualquer mulher que já atravessou uma ruptura ou uma noite escura da alma conhece de cor.
O ashram tem aquele silêncio denso e o incendo é hipnótico. E ali ao lado, erguido aos pés da mesma montanha sagrada de Arunachala, está o Templo Annamalaiyar - com uma torre de sessenta e seis metros coberta de milhares de esculturas, deuses e deusas empilhados em pedra até ao céu. No sanctum interior, Shiva e a Deusa Unnamulai Amman habitam juntos. Não um sem o outro. Ele é o fogo. Ela é o princípio feminino sagrado sem o qual o fogo não tem onde arder. Fiquei ali parada, com o calor de Tamil Nadu nos ombros e aquela arquitectura na alma, a pensar: como foi possível convencer o Ocidente de que o divino é exclusivamente masculino? E foi ali que tudo cedeu. No meio daquele templo majestoso, um homem que eu nunca vira entoou um lamento, grave, lento, vindo de um lugar anterior às palavras, anterior ao tempo. Entrou pela minha alma dentro como quem conhece o caminho de outras vidas e despertou uma dor que eu não sabia que ainda carregava. Uma dor antiga. Uma dor cristalizada. A dor de todas as que vieram antes de mim que não puderam expressar. Foi indelével…
Em Canaã - onde talvez Jesus tenha casado -, havia Asherah, a Grande Mãe, esposa do deus principal. Havia estátuas dela nos templos, árvores sagradas em sua honra. Sabes o que o Antigo Testamento faz com Asherah? Manda apagar. Agradeçamos a rei Josias.
Versículo após versículo: destrói os seus símbolos, queima os seus locais de culto, não a menciona. Porém, Asherah, teimosa como toda a gente que foi mandada calar, continua a aparecer nas escavações arqueológicas de Israel com um sorriso de terracota que diz: tentaram, toinos!
Depois há Maria. A Virgem Maria, que entrou pela porta detrás e ficou. Sim, hoje fazemos uma ode à mãe do mestre Jesus. Os santuários marianos foram construídos, não por acaso, nos mesmos lugares onde antes havia santuários da Deusa (à Deusa negra). Fátima. Lourdes. Guadalupe. A Grande Mãe mudou de nome, curvou-se um pouco para entrar pela porta, e ficou, felizmente. Sem a energia dela talvez o mundo estivesse um pouco mais dark...
Não a conseguiram matar. Nunca vão conseguir. Porque não se mata o que é arquétipo. Não se destrói o que está inscrito na memória mais profunda da nossa espécie, anterior à linguagem, anterior à religião, anterior à ideia de que o poder tem de ter barba e traços humanos.
A Deusa não foi derrotada! Foi para debaixo da terra, como as sementes fazem no Inverno. E as sementes, como toda a boa jardineira sabe, não morrem quando desaparecem. Estão a preparar-se.
Tu, eu, nós somos a continuação de uma linhagem com trinta mil anos, de mulheres que seguraram o sagrado nas mãos, que plantaram e colheram. Somos as heroínas, valquirias, amazonas que souberam que a Vida tem forma de mulher antes de qualquer doutrina dizer o contrário. Ninguém nos roubou isso. Apenas tentaram fazer-nos esquecer.
Já te lembraste?
Agora semeia.
