Crónicas

"Quando o passado continua a viver dentro de nós!", por Vera de Melo

"Um trauma antigo não desaparece apenas porque passaram anos. A boa notícia é que o cérebro pode aprender que o perigo terminou."

  • 11 jul, 15:03

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Há pessoas que passaram anos sem falar sobre aquilo que lhes aconteceu. Construíram uma carreira, tiveram filhos, aprenderam a sorrir nas fotografias e convenceram-se de que o tempo tinha resolvido tudo. Mas basta um cheiro, uma música, uma frase ou uma situação aparentemente banal para sentirem o coração acelerar, o corpo ficar em alerta e uma dor antiga voltar como se nunca tivesse ido embora.

É aqui que importa perceber uma coisa: o tempo, por si só, não cura um trauma. O tempo passa. O trauma fica quando aquilo que vivemos foi demasiado intenso para ser integrado pela nossa mente e pelo nosso sistema nervoso.

Um trauma não é apenas o que aconteceu. É aquilo que aconteceu dentro de nós por causa do que vivemos. Por isso, duas pessoas podem passar exatamente pela mesma experiência e reagir de formas completamente diferentes. Não existe uma medida universal para o sofrimento.

Quando um trauma fica por resolver, o cérebro continua a comportar-se como se o perigo ainda existisse. É por isso que algumas pessoas vivem em constante estado de alerta, têm dificuldade em confiar, evitam determinadas situações, sentem ansiedade sem motivo aparente ou repetem padrões de relacionamento que as fazem sofrer. Não é falta de força. É um sistema de sobrevivência que nunca percebeu que o perigo terminou.

A boa notícia é que o cérebro mantém uma enorme capacidade de mudança ao longo da vida. A neuroplasticidade mostra-nos que é possível criar novas ligações neuronais e ensinar o cérebro a distinguir o passado do presente. Mas isso exige intenção, tempo e, muitas vezes, ajuda especializada.

O primeiro passo é deixar de lutar contra a dor. Muitas pessoas passam décadas a tentar esquecer. O problema é que aquilo a que resistimos tende a permanecer. Reconhecer o que aconteceu não significa viver preso ao passado. Significa deixar de gastar energia a fingir que ele nunca existiu.

Outro passo essencial é aprender a escutar o corpo. O trauma não vive apenas nas memórias. Vive na tensão muscular, na respiração curta, nas insónias, no sobressalto constante e até em sintomas físicos sem causa médica evidente. Técnicas de respiração, exercícios de relaxamento, mindfulness e atividade física regular ajudam o sistema nervoso a perceber que, neste momento, está em segurança.

Também é importante identificar os gatilhos. Em vez de pensar "há qualquer coisa de errada comigo", experimenta perguntar: "O que aconteceu agora que fez o meu cérebro acreditar que estava novamente em perigo?" Esta mudança de perspetiva reduz a culpa e aumenta a compreensão sobre nós próprios.

Outra estratégia passa por reescrever a narrativa. O trauma tende a roubar-nos a identidade, fazendo-nos acreditar que somos aquilo que nos aconteceu. Mas uma experiência difícil faz parte da nossa história. Não é a nossa história inteira. Recuperar interesses, criar novos objetivos, fortalecer relações saudáveis e permitir-se viver novas experiências ajuda a construir uma identidade para além da dor.

E depois há algo de profundamente transformador: procurar ajuda. A psicoterapia não apaga o passado. O que faz é impedir que o passado continue a escrever o presente. Hoje existem abordagens com forte evidência científica, capazes de ajudar o cérebro e o corpo a processar experiências traumáticas de forma mais adaptativa.

Talvez a maior ilusão seja acreditar que, por o trauma ser antigo, já é tarde para cuidar dele. Não é. O sofrimento não tem prazo de validade, mas a esperança também não.

Aquilo que te aconteceu pode explicar muitas das tuas feridas. Mas não precisa de decidir quem és daqui para a frente.

Porque sobreviver foi uma conquista.

Mas viver, verdadeiramente, pode ser a próxima

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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