Crónicas

"'Basta um segundo': a verdade que nenhum pai gosta de ouvir depois do caso do RioSul", por Vera de Melo

Há notícias que nos deixam sem palavras. Quando ouvimos falar de uma alegada tentativa de rapto de uma criança, a primeira reação é quase sempre a mesma: "E se fosse o meu filho?"

  • 6 ago, 09:04

O medo instala-se de imediato e, durante alguns dias, os pais tornam-se mais atentos, apertam a mão dos filhos com mais força e prometem a si próprios que nunca os vão perder de vista. No entanto, a psicologia mostra-nos que o verdadeiro problema não é a falta de amor, nem sequer a falta de cuidado. O verdadeiro problema é acreditarmos que conseguimos estar atentos a tudo o tempo todo.

O cérebro humano não foi desenhado para manter um estado permanente de vigilância. A nossa atenção é um recurso limitado e funciona através da seleção constante da informação que considera mais importante em cada momento.

Quando estamos a pagar uma compra, a responder a uma mensagem, a procurar um produto numa prateleira ou simplesmente a conversar, o cérebro muda automaticamente o foco da atenção. É aquilo que muitas pessoas chamam multitarefa, mas que, na realidade, não passa de uma alternância muito rápida entre diferentes tarefas. Durante esses breves instantes, deixamos inevitavelmente de observar aquilo que está à nossa volta. E, para uma criança pequena, poucos segundos são suficientes para percorrer vários metros, desaparecer da nossa vista ou aproximar-se de alguém que lhe desperte curiosidade. Não é uma falha dos pais. É uma limitação natural do funcionamento do cérebro humano.

Também o cérebro das crianças funciona de forma muito diferente do dos adultos. As áreas responsáveis pelo controlo dos impulsos, pela avaliação do perigo e pela antecipação das consequências continuam em desenvolvimento durante muitos anos. Por isso, uma criança pequena não toma decisões com base no risco, mas sim na curiosidade. Um balão, um cão, um brinquedo, uma personagem conhecida ou um adulto simpático podem captar toda a sua atenção em segundos. Enquanto um adulto pensa "isto pode ser perigoso", a criança pensa apenas "que giro". É precisamente por isso que não podemos esperar que uma criança de dois, três ou quatro anos consiga aplicar automaticamente a regra "não fales com estranhos". A sua capacidade de avaliar o perigo ainda não está suficientemente desenvolvida.

Por outro lado, há um aspeto que muitos pais desconhecem. Dizer repetidamente "não fales com estranhos" pode não ser a estratégia mais eficaz. Primeiro, porque a maioria das crianças não sabe exatamente quem é um estranho. Segundo, porque, se um dia se perder, vai precisar precisamente da ajuda de um adulto que não conhece. Em vez disso, é muito mais útil ensinar quem são os chamados "adultos seguros": um polícia, um segurança, um funcionário identificado de uma loja ou um adulto acompanhado por crianças. Dar referências concretas ajuda a criança a tomar decisões mais adequadas caso alguma vez se veja sozinha.

Outra estratégia que merece ser treinada diz respeito às palavras que uma criança utiliza para pedir ajuda. Muitos pais ensinam apenas a gritar "Socorro!". No entanto, esta palavra é vaga e pode ser interpretada de várias formas. Quem está por perto pode pensar que se trata de uma brincadeira, de uma birra ou até de um conflito familiar. Em contrapartida, frases como "Eu não conheço esta pessoa!" ou "Estes não são os meus pais!" fornecem informação imediata sobre aquilo que está a acontecer. Quando uma mensagem é específica, o cérebro das pessoas que assistem à situação demora menos tempo a compreender o contexto e aumenta a probabilidade de alguém intervir rapidamente. Vale a pena ensaiar estas frases em casa, de forma tranquila, sem criar medo, tal como ensinamos uma criança a decorar a morada ou o número de telefone dos pais.

Há ainda uma ideia que considero fundamental. Durante anos ensinamos as crianças a serem educadas, a ouvirem os adultos, a não responderem mal e a comportarem-se. Tudo isto faz sentido e faz parte da educação. No entanto, também precisamos de lhes ensinar que existem exceções. Se alguém tentar levá-las contra a sua vontade, não têm de ser educadas. Nessa situação podem gritar, correr, espernear, largar objetos no chão, chamar a atenção de todas as pessoas à sua volta e recusar qualquer contacto físico. Ensinar uma criança que existem momentos em que desobedecer é a atitude mais segura pode ser tão importante como ensinar a dizer "obrigado" ou "por favor".

Talvez a estratégia mais importante de todas seja transformar estas conversas em treino e não apenas em avisos. A psicologia da aprendizagem mostra-nos que o cérebro responde muito melhor a comportamentos que foram repetidamente praticados do que a instruções dadas apenas uma vez. Da mesma forma que ensinamos uma criança a atravessar uma passadeira ou a colocar o cinto de segurança, também podemos ensaiar o que fazer se um dia não encontrar os pais, se alguém lhe oferecer um presente ou se um adulto disser que foi enviado pela mãe ou pelo pai. Estes pequenos ensaios aumentam a confiança da criança e tornam mais provável que consiga reagir de forma adequada numa situação inesperada.

Casos como este despertam naturalmente medo, mas o medo, por si só, não protege ninguém. Protege-nos aquilo que aprendemos, aquilo que treinamos e aquilo que repetimos. Nenhum pai conseguirá eliminar completamente todos os riscos e nenhuma criança poderá viver num mundo totalmente seguro. Mas podemos dar-lhes ferramentas para reconhecer situações de perigo, pedir ajuda da forma mais eficaz e confiar na sua capacidade de agir. Esperemos sinceramente que nunca precisem de utilizar nenhuma destas estratégias. Mas, se algum dia esse momento chegar, uma conversa de poucos minutos em casa poderá fazer toda a diferença.

A prevenção não começa quando o perigo aparece, mas nas conversas diárias. Não podemos estar ao lado dos nossos filhos em todos os momentos. Mas podemos garantir que levem sempre consigo aquilo que mais os pode proteger: conhecimento, preparação e a coragem de pedir ajuda.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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