"A tua autoestima não cabe num biquíni", pela psicóloga Vera de Melo
Todos os verões acontece o mesmo. As temperaturas sobem e, com elas, aumenta a preocupação com o corpo. As praias enchem-se, as redes sociais multiplicam fotografias de corpos aparentemente perfeitos e muitas pessoas começam a adiar programas, a evitar vestir um biquíni ou um fato de banho ou até a recusar convites por não gostarem da imagem que veem ao espelho.
- 14 jul, 15:47
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É curioso. Esperamos o verão durante meses, mas acabamos por vivê-lo preocupados com a forma como os outros nos podem olhar.
A psicologia explica que a autoestima nunca depende apenas da aparência física. A autoestima é a forma como avaliamos o nosso valor enquanto pessoas. O problema é que, desde muito cedo, aprendemos a associar beleza a aceitação, magreza a sucesso e um corpo "perfeito" a felicidade. Quando estas mensagens são repetidas durante anos, começamos a acreditar que só seremos suficientemente bons quando o nosso corpo corresponder a um determinado ideal.
Mas esse ideal muda constantemente. O corpo perfeito de hoje não é o mesmo de há dez anos e, provavelmente, não será o mesmo daqui a outros dez. Quando colocamos a nossa autoestima nas mãos de um padrão que nunca pára de mudar, estamos a construir a nossa segurança num terreno instável.
As redes sociais vieram tornar este fenómeno ainda mais intenso. Passamos minutos, horas e, por vezes, dias inteiros a comparar o nosso corpo real com imagens cuidadosamente escolhidas, editadas e filtradas. O cérebro esquece-se de que aquilo que vê é apenas uma pequena parte da realidade. E quanto maior é a comparação, maior tende a ser a insatisfação.
O mais preocupante é o preço que pagamos por essa insatisfação. Há pessoas que deixam de ir à praia com os filhos, evitam entrar na água, recusam fotografias ou passam as férias inteiras escondidas atrás de uma toalha. Não porque o verão lhes faça mal, mas porque acreditam que o problema é o seu corpo.
E se estivermos a fazer a pergunta errada?
Em vez de perguntares se o teu corpo está preparado para o verão, talvez devas perguntar se o verão merece ser vivido com vergonha. Porque a vida não acontece quando atingimos um determinado peso. Acontece agora.
Isto não significa desistir de cuidar da saúde. Cuidar do corpo é um gesto de respeito. Castigá-lo porque não corresponde a um ideal é outra coisa completamente diferente. A motivação baseada na vergonha raramente produz bem-estar duradouro. Produz culpa, frustração e uma sensação constante de insuficiência.
Experimenta um exercício simples. Durante um dia, troca cada crítica ao teu corpo por uma pergunta: "O que é que este corpo me permitiu viver hoje?" Talvez a resposta seja um mergulho no mar, um abraço demorado, uma caminhada ao pôr do sol ou uma gargalhada com os teus filhos. De repente, o corpo deixa de ser um objeto para ser o lugar onde a tua vida acontece.
Talvez nunca venhas a olhar ao espelho e a gostar de tudo o que vês. E isso é humano. Mas não deixes que essa insatisfação te impeça de viver.
Porque, daqui a vinte anos, não vais recordar o número que vestias naquele verão.
Vais recordar os mergulhos que não deste, as fotografias em que não quiseste aparecer e os momentos que perdeste por acreditares que precisavas de outro corpo para seres feliz.
E a verdade é simples.
A tua autoestima nunca coube num biquíni. E nunca dependerá do tamanho da roupa que vestes. Dependerá sempre da forma como escolhes olhar para ti.
