Crónicas

A doença silenciosa que rouba vidas: o que ninguém lhe contou sobre a endometriose

Diz-se, com demasiada frequência, que "ser mulher é sofrer" ou que "é normal a menstruação doer". Mas, para milhares de mulheres em Portugal, essa dor não é um rito de passagem.

Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844
  • 26 mar, 11:13
Mulher - imagem meramente ilustrativa

É o grito de uma doença que teima em permanecer na sombra, apesar de afetar uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Chama-se endometriose e é muito mais do que uma "cólica forte".

 

O que acontece dentro do corpo?

 

Para entender a endometriose, imagine-se o endométrio, o tecido que reveste o útero e que descama todos os meses durante a menstruação. Na mulher com esta patologia, esse tecido decide "emigrar". Ele cresce fora do útero (nos ovários, nas trompas, na bexiga, no intestino ou até no fígado, pulmões, coração, sistema nervoso).

Tal como o tecido que está dentro do útero, estes focos externos também reagem às hormonas e sangram. Mas, ao contrário do sangue menstrual que tem saída, este sangue não tem por onde escapar. Permanece dentro do corpo colando os órgãos entre si. O resultado é um cenário de inflamação crónica, cicatrizes e uma dor que, por vezes (muitas vezes), se torna incapacitante.

 

As bandeiras vermelhas (que não deve ignorar)

 

A jornada para o diagnóstico é, infelizmente, uma maratona que pode durar entre sete a dez anos. Porquê? Porque a sociedade ainda romantiza a dor feminina. No entanto, o corpo dá sinais que não podem ser silenciados.

Dores menstruais severas: Aquelas que não passam com um analgésico comum e impedem de trabalhar ou estudar.

Dor durante as relações sexuais: Um sintoma frequentemente guardado em segredo por vergonha, mas que é um indicador crucial.

Alterações intestinais ou urinárias: Sentir dor ao ir à casa de banho, especialmente durante o período.

Dificuldade em engravidar: A endometriose é uma das principais causas de infertilidade, embora não a torne impossível.

 

O Caminho para o Bem-Estar

 

Não há cura definitiva, mas há esperança e tratamento. O primeiro passo é a validação. Quando uma mulher ouve de um médico que "está tudo na sua cabeça", o isolamento aumenta. É fundamental procurar especialistas em ginecologia dedicados a esta área.
Desde terapias hormonais a intervenções cirúrgicas minimamente invasivas, o objetivo é devolver a qualidade de vida. Além disso, o estilo de vida, com uma alimentação anti-inflamatória e a gestão do stress, desempenha um papel vital no controlo dos sintomas.

A endometriose não define quem a mulher é, mas a forma como a sociedade olha para ela define a nossa empatia coletiva. É tempo de deixar de dizer "aguenta" e começar a perguntar "onde dói?". Porque a informação é, e será sempre, o primeiro passo para a cura.

Para ajudar a desmistificar a doença, reuni as perguntas mais comuns que chegam aos consultórios:

 

1. A endometriose tem cura?
Não existe uma cura definitiva (no sentido de desaparecer para sempre), mas é uma doença controlável. O tratamento visa gerir a dor, travar a progressão das lesões e preservar a fertilidade.

 

2. Se eu tiver endometriose, vou ser estéril?
Não necessariamente. Embora cerca de 30% a 50% das mulheres com a doença possam ter dificuldades em conceber, muitas conseguem engravidar naturalmente ou através de técnicas de procriação medicamente assistida.

 

3. O diagnóstico só se faz com cirurgia?
Antigamente, sim (através da laparoscopia). Hoje em dia, médicos especializados conseguem identificar focos de endometriose através de exames de imagem avançados, como a ecografia pélvica com preparação intestinal ou a ressonância magnética.

 

4. A pílula trata a endometriose?
A pílula ajuda a controlar os sintomas, pois impede a menstruação e, consequentemente, o sangramento dos focos da doença. No entanto, ela não "elimina" o tecido que já existe fora do útero. Apenas "adormece" a patologia.

 

5. A gravidez cura a endometriose?
Este é um dos maiores mitos. Durante a gravidez, os sintomas podem desaparecer devido à ausência de ciclos menstruais, mas a doença pode regressar após o parto e a amamentação. A gravidez não deve ser vista como um "remédio" porque não o é.

Tatiana A. Santos
Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844

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