Crónicas

"A ciência do 'desapego': como treinar a mente para que nada (nem ninguém) lhe estrague o dia", por Tatiana A. Santos

Olhamos para o espelho logo pela manhã. Ajustamos o cabelo, verificamos a maquilhagem, mas raramente paramos para olhar para quem está a olhar de volta.

  • 2 jul, 13:21
Tatiana A. Santos
Tatiana A. Santos Foto: D.R.

Passamos a vida a tentar decifrar o mundo exterior quando, na verdade, a maior tempestade e a maior calmaria acontece cá dentro. É precisamente aqui, nesta engrenagem misteriosa da mente, que a psicologia ocidental encontrou um aliado inesperado, mas absolutamente revolucionário... a psicologia de inspiração budista.

Se pensa que estamos a falar de incenso, túnicas cor de laranja ou de se isolar numa gruta no Tibete, pode desenganar-se. Aqui na SELFIE o objetivo é descomplicar. Esta vertente não é uma religião. É uma ciência da mente com mais de 2500 anos de testes práticos.

 

Afinal, o que é a Psicologia de inspiração Budista?

Enquanto a psicologia tradicional ocidental nasceu muito focada em "curar a doença" ou tratar a neurose, a perspetiva budista parte de uma premissa diferente. A de que todos nós temos uma saúde mental intrínseca, mas passamos a vida distraídos com os nossos próprios pensamentos.

A psicologia budista foca-se no sofrimento humano (aquela ansiedade miudinha, a insatisfação crónica, o medo do futuro) e explica que ele não vem do que nos acontece, mas sim da forma como reagimos ao que nos acontece. 

O grande objetivo? É o treinar a mente para ver as coisas exatamente como elas são, sem os filtros do julgamento, do apego ou da aversão.

 

O dia em que o Ocidente se apaixonou pelo Oriente

Nas décadas de 70 e 80, cientistas e terapeutas ocidentais perceberam que analisar os traumas do passado às vezes não chegava. Era preciso dar ferramentas às pessoas para o agora.

Pioneiros como Jon Kabat-Zinn "limparam" a linguagem religiosa do budismo e criaram protocolos científicos. O Ocidente rendeu-se porque a neurociência provou o óbvio. A meditação altera literalmente a estrutura do cérebro (olá, neuroplasticidade!). Aquilo que os monges faziam nos Himalaias funcionava mesmo para reduzir o stress dos executivos de Wall Street e a ansiedade das mães e pais a tempo inteiro.

 

Técnicas na prática: do consultório para o seu dia a dia

Esta abordagem não se faz de teorias bonitas, mas sim de prática. Deixamos-lhe três técnicas fundamentais que a psicologia ocidental importou do budismo, com exemplos de como as pode usar já hoje:

1. Atenção plena (Mindfulness)

O que é: estar intencionalmente presente no momento atual, sem julgar.

Exemplo Prático: imagine que está presa no trânsito da IC19 ou da VCI e já vai atrasada. O coração acelera, as mãos suam e começa a insultar o condutor da frente. Mindfulness é o clique mental. "Ok, estou a notar que estou ansiosa e com raiva. O trânsito não vai andar mais depressa se eu gritar. Vou focar-me apenas no ar a entrar e a sair do meu nariz por três respirações." Mudou o trânsito? Não. Mas mudou a sua tensão arterial.


2. Autocompaixão radical

O que é: tratar-se a si própria com a mesma amabilidade com que trataria a sua melhor amiga quando as coisas correm mal.

Exemplo Prático: cometeu um erro num relatório importante no trabalho. A sua mente ocidental fustiga-a... "És uma incompetente, vais ser despedida!". A técnica inspirada no budismo propõe uma pausa. "Errei, sou humana. Toda a gente erra. O que posso fazer para resolver isto agora?". É substituir a autocrítica destrutiva por colo e pragmatismo.


3. Desapego cognitivo (desidentificação)

O que é: Perceber que nós não somos os nossos pensamentos. Os pensamentos são apenas nuvens a passar no céu da nossa mente.

Exemplo Prático: se acordar a pensar "Hoje vai ser um dia horrível", em vez de comprar esse pensamento como uma verdade absoluta, a psicologia ensina-a a dizer: "Estou a ter o pensamento de que o dia vai ser horrível". Parece uma nuance tonta, mas cria um espaço de manobra gigante entre o pensamento e a sua reação.

 

A lição a levar no bolso

A psicologia de inspiração budista não nos pede para sermos perfeitos, zen ou para deixarmos de sentir raiva ou tristeza. Pede-nos apenas para sermos os realizadores do nosso próprio filme, em vez de sermos os atores secundários a sofrer com o guião. No fundo, ensina-nos a arte de respirar fundo antes de explodir. E digam lá se o mundo não precisa, urgentemente, de respirar fundo?

Tatiana A. Santos
Psicóloga Clínica Sénior | Consultora em Welness e Bem-Estar | CP 844

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