Crónicas

"Pensar demais não é o problema. O problema é acreditar em tudo o que pensamos", por Vera de Melo

Há pensamentos que entram na nossa cabeça sem pedir licença. "E se correr mal?" "E se eu não conseguir?" "E se acontecer alguma coisa?"

  • 3 ago, 13:42

A maioria das pessoas acredita que o problema está em pensar demasiado. Mas, em psicologia, sabemos que a questão é mais complexa.

O cérebro humano foi programado para nos proteger, não para nos fazer felizes.

Durante milhares de anos, sobreviver significava antecipar perigos. Quem imaginava a ameaça primeiro tinha mais probabilidades de escapar dela. O nosso cérebro continua a funcionar exatamente da mesma forma, mesmo que os "predadores" de hoje já não sejam animais selvagens, mas sim uma reunião importante, um exame médico, uma mensagem sem resposta ou uma preocupação com quem amamos. É por isso que, quando sentimos ansiedade, a mente começa a construir cenários. Um atrás do outro. Como se, ao pensar em todas as possibilidades, pudesse impedir que algo de mau acontecesse.

O problema é que não distingue facilmente um perigo real de um perigo imaginado.

Basta imaginar uma situação difícil para que o corpo reaja como se ela estivesse realmente a acontecer. O coração acelera. A respiração muda. Os músculos ficam tensos. O cérebro interpreta esse estado físico como mais uma prova de que existe uma ameaça. E, assim, instala-se um ciclo difícil de interromper.

Muitas pessoas dizem-me em consulta: "Só queria deixar de pensar."

Mas esse objetivo é impossível.

Pensar faz parte da condição humana. O verdadeiro desafio não é controlar os pensamentos. É aprender a não lhes dar automaticamente razão.

Nem tudo o que pensamos corresponde à realidade.

Alguns pensamentos são apenas hipóteses. Outros são medos. Outros ainda refletem experiências antigas que continuam a influenciar a forma como vemos o presente.

Uma das estratégias que mais utilizo em consulta é ajudar a pessoa a distinguir três coisas muito simples.

Primeiro: o facto. O que sei, neste momento, que é objetivamente verdadeiro?

Depois: a fantasia. O que estou apenas a imaginar porque a ansiedade está a preencher os espaços em branco?

E, por fim: o foco. Em vez de tentar controlar tudo o que poderá acontecer amanhã, o que posso fazer hoje?

Esta mudança parece pequena, mas altera profundamente a forma como o cérebro processa a preocupação. Quando deixamos de alimentar cenários imaginários e voltamos a olhar para os factos, recuperamos clareza. E quando transformamos essa clareza numa pequena ação, recuperamos também a sensação de controlo.

Não significa que a ansiedade desapareça de um momento para o outro.

Significa apenas que deixamos de lhe entregar o volante.

A mente continuará a produzir pensamentos. É isso que ela faz. Mas nós podemos escolher quais merecem a nossa atenção. Porque, no fim de contas, a liberdade não está em conseguir parar de pensar.

Está em deixar de acreditar em tudo o que pensamos.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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