"Deixem o Cristiano Ronaldo em paz!", por Vera de Melo
O que lhe estamos a fazer diz mais sobre nós do que sobre ele.
- 30 jun, 19:39
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Há uma pergunta que vale a pena fazer: quando é que a crítica deixa de ser análise e passa a ser perseguição?
Nas últimas semanas, Cristiano Ronaldo voltou a ser alvo de uma avalanche de comentários, opiniões e julgamentos. Uns criticam a sua idade. Outros dizem que já devia ter saído. Outros responsabilizam-no por tudo aquilo que corre menos bem na Seleção. Mas a psicologia ensina-nos que, muitas vezes, aquilo que fazemos a uma figura pública diz mais sobre nós do que sobre ela.
É importante dizer uma coisa. Criticar faz parte do desporto. Discordar das opções de um treinador, discutir o rendimento de um jogador ou analisar uma exibição faz parte da paixão pelo futebol. O problema começa quando deixamos de avaliar o desempenho e começamos a atacar a pessoa. Quando um atleta deixa de ser visto como um ser humano e passa a ser apenas um alvo.
O cérebro humano procura explicações simples para problemas complexos. Quando uma equipa não corresponde às expectativas, é emocionalmente mais confortável encontrar um rosto para carregar a culpa do que aceitar que o desempenho resulta de dezenas de fatores. A este fenómeno chama-se efeito do bode expiatório. Concentrar toda a frustração numa única pessoa dá-nos a ilusão de que o problema é fácil de resolver. É mais simples apontar para um nome do que aceitar que o sucesso e o fracasso nunca dependem apenas de um indivíduo.
Existe ainda outro fenómeno conhecido como viés da negatividade. O nosso cérebro presta muito mais atenção aos erros do que aos sucessos. Um falhanço pesa mais do que dezenas de conquistas. É um mecanismo de sobrevivência que nos ajudou a evitar perigos ao longo da evolução, mas que hoje faz com que um único momento menos conseguido tenha mais impacto na memória coletiva do que anos de excelência.
Pensa nisto. Se uma pessoa faz cem coisas extraordinárias e falha uma, é muito provável que a conversa se centre nesse único falhanço. É assim que o cérebro funciona. Não porque seja justo, mas porque está programado para dar prioridade ao que considera uma ameaça ou uma deceção.
Há ainda um paradoxo curioso. Quanto maior é alguém, maior tende a ser a exigência. A psicologia mostra que criamos expectativas quase impossíveis em relação às pessoas que admiramos. Esperamos que continuem a vencer, a superar limites e a desafiar o tempo. Quando isso deixa de acontecer da forma a que nos habituaram, alguns sentem desilusão. E, por vezes, transformam essa desilusão em agressividade.
Existe outro conceito fascinante: a queda do herói. As pessoas adoram construir heróis, mas também sentem uma estranha atração por assistir à sua queda. Não acontece apenas no futebol. Acontece com artistas, empresários, apresentadores ou qualquer figura que atinja um nível de sucesso extraordinário. Enquanto sobem, inspiram. Quando começam a descer, tornam-se alvo de uma curiosidade quase obsessiva. Como se assistir à queda dos maiores tornasse as nossas próprias fragilidades mais fáceis de aceitar.
Depois há as redes sociais. Atrás de um ecrã acontece aquilo a que a psicologia chama efeito de desinibição online. A distância reduz a empatia, diminui o sentimento de responsabilidade e faz com que muitas pessoas escrevam comentários que dificilmente diriam frente a frente. A isto junta-se outro fenómeno muito estudado: a conformidade social. Quando vemos milhares de pessoas a criticar alguém, o nosso cérebro tende a seguir a opinião dominante, muitas vezes sem refletir. Não porque concordemos verdadeiramente, mas porque pertencer ao grupo exige menos esforço do que pensar de forma independente. Assim, uma crítica transforma-se numa onda. E uma onda transforma-se, muitas vezes, num julgamento coletivo.
Há ainda outro fenómeno muito interessante: a relação parassocial. Milhões de pessoas acompanham Cristiano Ronaldo há mais de vinte anos. Viram-no crescer, vencer, perder, chorar, celebrar, tornar-se pai e representar Portugal em inúmeras competições. O cérebro cria uma sensação de proximidade com quem acompanha durante tanto tempo. É por isso que tantas pessoas sentem que têm o direito de opinar sobre tudo o que ele faz. Essa proximidade emocional pode gerar admiração, mas também uma exigência desproporcional.
No fundo, a pergunta nunca foi se o Ronaldo deve ou não jogar. A verdadeira pergunta é outra: porque sentimos tanta necessidade de destruir quem, durante anos, colocámos num pedestal?
A psicologia dá-nos uma resposta desconfortável. As pessoas têm dificuldade em lidar com o fim das eras. É doloroso aceitar que até os maiores envelhecem, mudam e deixam de ser invencíveis. Porque, ao aceitar isso, somos obrigados a olhar para a nossa própria vulnerabilidade. Se até Cristiano Ronaldo, um dos maiores atletas da história, não consegue vencer o tempo, então nenhum de nós conseguirá.
Talvez seja precisamente essa realidade que custa aceitar.
Mas existe uma reflexão ainda mais importante.
Um dia, todos nós vamos deixar de ser a melhor versão de nós próprios. Haverá um momento em que correremos mais devagar, trabalharemos com menos energia, esqueceremos mais coisas ou precisaremos de ajuda. O envelhecimento não escolhe profissões. Acontece ao futebolista, ao médico, ao professor, ao empresário e a cada um de nós.
A forma como tratamos quem já nos deu tanto revela muito sobre quem somos enquanto sociedade. Porque uma sociedade madura não idolatra apenas o sucesso. Também sabe respeitar o percurso, a dedicação e o legado.
Talvez esteja na altura de nos lembrarmos de uma verdade simples. Os ídolos não deixam de ser humanos quando entram em campo. Continuam a sentir pressão, medo, tristeza, desgaste e deceção, exatamente como qualquer um de nós.
Porque a verdadeira grandeza de uma sociedade não se mede apenas pela forma como aplaude os seus heróis nos dias de vitória. Mede-se, sobretudo, pela forma como escolhe tratá-los quando chegam os dias difíceis.
E talvez seja essa a maior lição da psicologia: antes de perguntarmos o que está a acontecer ao Ronaldo, devíamos perguntar o que está a acontecer connosco.
