Crónicas

"Deixem o corpo da Georgina em paz. Amanhã pode ser o teu", por Vera de Melo

Bastou um conjunto de fotografias de férias para que milhares de pessoas se sentissem no direito de comentar o corpo de Georgina Rodríguez.

  • 5 ago, 13:36

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Uns disseram que estava mais gorda. Outros que estava diferente. Outros ainda compararam o seu corpo com fotografias de anos anteriores, como se um corpo tivesse a obrigação de permanecer igual para sempre.

Mas a verdadeira questão nunca foi a Georgina.

A verdadeira questão é esta: porque é que continuamos a acreditar que o corpo de uma mulher é um assunto público?

Vivemos numa sociedade que exige às mulheres um equilíbrio impossível. Se envelhecem, são criticadas. Se recorrem à medicina estética, também. Se emagrecem demasiado, preocupam as pessoas. Se aumentam de peso, tornam-se alvo de comentários. A conclusão é simples: para muitas pessoas, o problema nunca é o corpo. É a necessidade de o julgar.

A psicologia explica este fenómeno através da comparação social. O nosso cérebro compara-se constantemente com os outros para perceber onde pertence. As redes sociais amplificaram este mecanismo. Cada fotografia transforma-se numa oportunidade para comparar, avaliar e criticar.

Existe ainda outro fenómeno importante: a desumanização digital. Atrás de um ecrã, esquecemo-nos de que existe uma pessoa do outro lado. O comentário que parece "apenas uma opinião" pode tornar-se mais uma gota num copo já cheio de pressão, insegurança e sofrimento.

Há ainda um aspeto que raramente discutimos: comentar repetidamente o corpo de alguém diz muito mais sobre quem comenta do que sobre quem é comentado. Muitas vezes, a crítica nasce da própria insatisfação, da necessidade de projetar frustrações ou da falsa sensação de superioridade que o julgamento proporciona.

E depois há uma pergunta que todos deveríamos fazer antes de escrever um comentário: eu gostaria que analisassem o meu corpo desta forma?

Os corpos mudam. Mudam com a idade, com a maternidade, com o stress, com a doença, com a felicidade, com as fases da vida. Isso não representa falta de disciplina. Representa humanidade.

Talvez o maior problema seja termos confundido aparência com valor pessoal. Quando uma sociedade elogia excessivamente a beleza, começa inevitavelmente a castigar qualquer desvio desse ideal.

É precisamente por isso que esta polémica vai muito além da Georgina. Amanhã será outra figura pública. Depois poderá ser uma colega de trabalho, uma adolescente na escola ou até alguém da nossa família.

O que podemos fazer?

* Antes de comentar o corpo de alguém, pergunta-te se esse comentário acrescenta alguma coisa à vida dessa pessoa.

* Ensina as crianças a elogiar qualidades, esforços e valores, não apenas a aparência.

* Recorda que um corpo conta uma história que tu desconheces.

* Se fores alvo de críticas, lembra-te de que a tua autoestima não pode ficar nas mãos de desconhecidos. A opinião dos outros pode fazer barulho, mas não define quem tu és.

No fim, talvez devêssemos preocupar-nos menos com os corpos das pessoas e mais com a forma como tratamos as pessoas que vivem dentro deles.

Porque um corpo nunca deveria ser notícia. A falta de empatia, essa sim, deveria preocupar-nos a todos.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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