São 41 anos de vida e memórias de uma carreira construída a pulso.
Sim, Cristiano, o teu maior valor não resulta do património que acumulaste e que te permitiu tornar o primeiro futebolista bilionário do Mundo, só atrás, no Desporto, de Michael Jordan e Tiger Woods; o teu maior valor resulta do facto de saberes muito bem o que são as necessidades básicas das pessoas e, mesmo que no teu dia a dia te baste um toque de dedos (o médio no polegar) para fazeres acontecer, a tua memória e a tua experiência enquanto menino nunca te vão fazer esquecer o essencial.
E isso, em ti, é bem visível. A forma como proteges os teus, a tua família, os teus amigos, aqueles que estiveram sempre do teu lado e te ajudaram nos momentos mais difíceis, quando não podias comprar aviões, iates, imóveis de milhões ou grupos de comunicação social, faz de ti, para além de um atleta excepcional, um ser com características muito especiais.
Estás de parabéns, não apenas pelos 41 anos que completaste (um aniversário é sempre um aniversário), mas pela carreira que estás a fazer e que se aproxima do seu epílogo, porque há coisas inexoráveis e um atleta de alta competição tem sempre os seus limites, mesmo que estejamos a falar de alguém que não ficou à espera do Espírito Santo e tratou, com esforço, abnegação e muitas horas de trabalho, da sua própria longevidade.
Sim, Cristiano, uma vez disse que nunca seria ingrato para ti, por tudo o que tens feito pela imagem de Portugal, pelo que fizeste e ainda fazes na Seleção Nacional e por aquilo que tens feito no futebol. Não me esqueço em momento algum aquilo que fizeste sobretudo ao serviço do Manchester United e Real Madrid — o que mais ninguém conseguiu fazer, futebolisticamente -, e também com a camisola da Juventus, praticamente 20 anos de jogadas extraordinárias, de arranques, de sprints, de mudanças de velocidade, de incríveis dribles, de notáveis impulsões, e claro dos quase 1000 golos que já marcaste, alguns dos quais verdadeiramente fabulosos.
Pura magia futebolística!
Ronaldo deveria ser, por si só, um adjectivo, assim a modos como um video que vi um dia destes em que uma miudinha, expert em reconhecer as bandeiras de (quase) todos os países, foi reconhecendo uma a uma, com grande eficácia, algumas quais difíceis de identificar, perante o espanto do público, e quando chegou a de Portugal disse, simplesmente… Cristiano Ronaldo!
Há pessoas que não querem ver o fenómeno em que te tornaste, naquilo que representas, mas isso faz parte da condição humana, não há volta a dar, embora não sejas Deus na terra (ninguém é!), e, como tal, sujeito a críticas, e talvez tenha sido o primeiro observador a dizer que, embora compreenda a tua presença na Seleção (quando se desencadeou a polémica com Fernando Santos), ela já está em condições de ser autónoma, desportivamente, sem a tua presença.
Acontece que cumpriste os teus 41 anos num contexto muito particular, pela situação vivida, hoje, no Al-Nassr, e, para ser franco contigo, percebi o teu murro na mesa, mas considerando os teus objectivos pessoais de carreira, sobretudo para quem olha para os 1 000 golos, sobretudo da forma como tu não podes deixar de olhar, apesar das afirmações que fazes no sentido da relativização do tema, esse braço de ferro acontece na pior altura.
Quando o Reino da Arábia Saudita apostou na tua figura para implementar o projeto "Vision 2030", com o fito de transformar social e economicamente aquele país, através da expansão do futebol como pilar estratégico e da atração de algumas das suas maiores personalidades, também para dar visibilidade à Liga Saudita, cujo visão foi delineada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, era de possível compreensão que o Reino te tratasse sempre com a mesma deferência, quase como um príncipe.
Aliás, quando aconteceu a tua visita à Casa Branca, onde estiveste com Donald Trump e precisamente com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, ainda o fundo soberano saudita não tinha concluído a operação de
esvaziar a acção do núcleo duro que entretanto criaste através do triângulo formado com Jorge Jesus-José Semedo/CEO e Simão Coutinho/diretor desportivo, que foi a forma que tu encontraste para exercer poder efectivo e formal no Al-Nassr.
Bastaram 4 a 5 meses para o fundo soberano achar que uma coisa era a utilização da tua influência para projectar a imagem do País, com ganhos para ambas as partes; outra coisa era mandar, como se tivesses construído o teu próprio reino… no Reino.
É claro que a tua tomada de posição em não jogares com o Al-Riyadh foi uma forma de sinalizares a tua insatisfação perante a perda de poder na gestão do Al-Nassr que querias garantir, mas também a diferença de critério usada pelo PIF (Public Investment Fund) na distribuição dos fundos que privilegiam 4 clubes na Liga saudita: para além do Al-Nassr, o Al-Hilal, Al Ittihad e Al Ahli.
A troca de Benzema do Al-Ittihad pelo Al-Hilal foi a gota que fez transbordar o copo.
Em que posição ficam, nos financiamentos, os outros 14 clubes da Liga saudita? Não interessa verdade desportiva? Nunca interessou?
O que é irónico (e até perigoso) é que tu, como promotor da Liga Saudita, estás agora no lugar de denunciante da farsa que é a própria Liga Saudita.
A FIFA fecha os olhos.
Infantino adora lidar com o poder e tenta estar sempre ao lado do(s) mais forte(s).
Tirando isso, a verdade consegue intrometer-se na lógica de poderes.
A verdade é o maior dos poderes que o ser humano pode usar, mas tem os seus perigos e por isso é muitas vezes substituído pela falsidade e pelos jogos que levam a camuflar a verdade.
Onde vai estar a verdade no Al-Nassr-Al Ittihad de amanhã? Que concessões vão ser feitas?
Tu não gostas de perder, mas olha que o Reino da Arábia Saudita já te deu muito, já te utilizou muito e tudo tem um tempo. Eu sei que és capaz de mandar às malvas o objectivo dos 1 000 golos (custa muito, não é), mas cuidado com a força dos poderes.
Diz-te quem quer ao máximo o teu bem.
