Crónicas

"Susana Gravato: quando o impensável acontece dentro de casa", por Vera de Melo

O caso de Susana Gravato deixou um país suspenso entre o choque e a incredulidade. Não é só a violência que nos prende. É o cenário. É o facto de ter acontecido dentro de casa, no lugar onde esperamos encontrar proteção, previsibilidade, vínculo.

Psicóloga Clínica
  • 18 abr, 08:06

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«Era muito amoroso com a mãe», dizem do filho de Susana Gravato. Então, o que o terá levado a matá-la?

Um filho de 14 anos mata a mãe. E, de repente, aquilo que parecia sólido deixa de o ser. Há histórias que conseguimos encaixar. Esta resiste a qualquer tentativa simples de explicação. Talvez porque nos obriga a olhar para algo profundamente desconfortável: nem sempre o que mais importa é visível.

Gostamos de acreditar que o perigo se anuncia. Que deixa pistas claras. Que há sinais evidentes que nos permitem antecipar o pior. Mas nem sempre é assim. Há silêncios que não chamam a atenção. Há distâncias emocionais que crescem sem ruído. Há jovens que vão perdendo, pouco a pouco, a capacidade de se ligar ao outro… sem que isso seja imediatamente percebido. E quando essa ligação falha, algo essencial também falha.

O que mais inquieta neste caso não é só o ato em si. É o vazio que parece rodeá-lo. A ausência de reação emocional, de desorganização, de culpa visível. Para quem observa de fora, isso é quase impossível de integrar. Porque esperamos que, perante algo tão grave, haja pelo menos um colapso interno. Quando isso não acontece, o desconforto ganha outra dimensão.

Mas há percursos onde a emoção não se desenvolve como seria esperado. Onde sentir não é automático. Onde o outro não é verdadeiramente reconhecido na sua dimensão emocional. E isso muda tudo.

Também a ideia de planeamento nos confunde. Porque associamos planear a consciência, a maturidade. Mas um adolescente pode organizar ações sem sentir o peso real das consequências. Pode saber o que fazer… sem conseguir aceder ao que aquilo significa. É uma ação sem travão emocional. Um gesto que avança, mesmo quando devia parar.

E é aqui que o caso deixa de ser apenas sobre um momento. Passa a ser sobre um percurso. Sobre algo que não começou naquele dia, mas que, de alguma forma, foi sendo construído provavelmente muito antes.

A decisão do tribunal reflete isso. Não há apenas uma resposta ao que aconteceu. Há uma tentativa de intervir naquilo que falhou antes disso. Ainda assim, fica uma pergunta que ecoa, mesmo que ninguém a formule diretamente: é possível reconstruir aquilo que nunca chegou verdadeiramente a existir? Este caso não nos oferece conforto. Não nos dá uma narrativa simples para arrumar o medo. Deixa-nos, isso sim, com a consciência de que nem tudo o que é perigoso é visível. E que, por vezes, o que mais assusta… é precisamente aquilo que não se vê.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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