Crónicas

"Ser Mãe não é para todas", por Vera Xavier

Sobre instinto maternal, pressão social e o maior compromisso que ninguém te explica antes de assinares.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 24 mai, 19:35
Marine Rousseau e Marc Ballabriga, mãe e padrasto das duas crianças abandonadas, presentes ao Tribunal de Setúbal

Vendaram-lhes os olhos, disseram que iam à procura de um brinquedo e foram-se embora - deixando dois rapazes de quatro e cinco anos, sozinhos, no meio do mato no Alentejo imenso e silencioso, à espera que a mãe voltasse, sem saber que ela já tinha decidido não voltar.

O caso de Marine Rousseau, a francesa que abandonou os dois filhos no nosso país, esta semana, abalou Portugal com aquela espécie de horror que não conseguimos nomear bem, porque não é apenas o abandono, é a frieza do estratagema. O jogo. O véu nos olhos de quem ainda acredita que a mãe está ali. Marine não é uma mulher sem recursos nem sem conhecimento do mundo interior - apresentava-se como sexóloga, trabalhava com técnicas de libertação emocional e dava consultas de terapia a crianças com trauma. Espantoso, não é? Tinha já deixado para trás um terceiro filho de 16 anos em França. E foi detida em Fátima - com uma ironia geográfica que dispensa comentários - numa esplanada, sentindo-se fresca e fofa… e livre.

Há um desconforto enorme em falar disto, porque tocar na maternidade é tocar num tabu sagrado. A mãe é boa por definição, a mãe sacrifica-se, a mãe fica. E quando não fica, a sociedade não sabe bem o que fazer com isso e prefere o horror ao questionamento, prefere o monstro à conversa difícil. Resignamo-nos a um "Viste o que aconteceu? Que horror!" E ficamos por ali. 

Porém, a conversa difícil é esta: nem todas as mulheres têm instinto maternal, e está tudo bem.
Não é heresia, mas, sim, biologia, psicologia e, acima de tudo, a honestidade radical que nos faz tanta falta. Há mulheres que olham para um bebé e não sentem nada de especial, mulheres que sabem lá no fundo que não têm a vocação, a paciência, o desejo genuíno de construir uma vida em torno de outra vida. E está tudo bem. 

Há mulheres que preferem a carreira, a independência, a liberdade de acordar numa manhã de sábado sem responsabilidades que não sejam as suas. E essa escolha - essa escolha consciente e honesta - é exatamente o oposto do que aconteceu no Alentejo esta semana.

O problema nunca foi não querer ser mãe. O problema é tornar-se mãe sem o querer verdadeiramente.
Porque há uma pressão extraordinária e mal assumida sobre as mulheres neste capítulo - as amigas tiveram, a família pergunta, a biologia tem relógio, o parceiro quer ou não quer mas as mulheres insistem como se isso aprofundasse alguma relação frágil ou uma lotaria. E, de repente, há uma criança no mundo que não foi desejada com a profundidade que merecia, que foi uma cedência, uma conformidade, uma resposta à expectativa dos outros. Depois há muitos estranhos com opiniões muito firmes sobre o que se deve fazer com o útero da mulher, mas que desaparecem discretamente quando chega a hora de perguntar se há condições emocionais e financeiras para criar esse filho que tanto defenderam.

Está escrito na Bíblia que tens de ser mãe? Não. Jesus disse alguma coisa sobre o assunto? Nem uma palavrinha. Quem falou foi Paulo - um machista assumido que mandou as mulheres ficarem em silêncio na igreja e na sociedade, e decidiu, com a autoridade de quem nunca teve filhos, que a mulher seria salva pela maternidade. (Posso usar vernáculo?) 

Então de onde vêm estas certezas absolutas com que alguns pontificam sobre a vida reprodutiva de mulheres que nunca conheceram? Vai um conselho não solicitado? Metam-se na vossa vida! Se criticas é porque não amas - e isto diz tudo, certo?

Ser mãe é o maior compromisso que existe, aquele em que não há tecla de Controlo Z, não há devolução, não há versão de teste, é para sempre, e o para sempre começa antes do nascimento, na decisão honesta e corajosa de querer, de estar pronta, de ter a vocação, a força e a vontade necessárias para nunca deixar dois pares de olhos vendados à beira de uma estrada algures no Alentejo.

O lugar e o papel da mulher é o que ela quiser, incluindo a escolha de não ser mãe - com a mesma dignidade, a mesma legitimidade e o mesmo respeito social com que se escolhe sê-lo. O que não tem lugar é a cobardia de trazer vidas ao mundo sem as querer verdadeiramente, porque no fim, quem paga o preço dessa cobardia não são elas - são eles, de olhos vendados, à espera de alguém que já foi embora.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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