Durante anos, Bruno Pereira construiu uma carreira sólida na programação e fundou a sua própria empresa de software, que continua a ser a base da sua vida profissional. Mas a sensação de que faltava "um espaço para pessoas" nunca o abandonou. Dessa inquietação nasceu a Crafty Play, um gaming lounge em Moscavide pensado como um lugar de convívio, descoberta e partilha, onde digital gaming, boardgames, TCG, sim racing, realidade virtual e até workshops coexistem de forma natural.
Mais do que um negócio, a Crafty Play é o reflexo de um percurso feito de disciplina, visão estratégica e paixão por comunidades. Pai de três filhos, Bruno Pereira, de 35 anos, fala de risco com responsabilidade, de ambição com os pés bem assentes no chão e de jogos como uma ferramenta poderosa de ligação entre pessoas. Nesta entrevista à SELFIE, explica como transformou aquilo que era apenas uma ideia num espaço vivo, inclusivo e com ambição de se tornar uma referência no panorama do entretenimento em Portugal.
Como é que nasceu a ideia da Crafty Play? Era um sonho antigo?
A Crafty Play nasce depois de muitos anos a construir a minha vida na programação. Sou programador há mais de 16 anos e há 7 montei a minha empresa, que continua a ser o core de tudo. Mas, com o tempo, fui sentindo que faltava qualquer coisa. Não era falta de trabalho, era falta de um espaço "para pessoas". Um sítio onde desse para conviver, jogar, descobrir hobbies, aprender coisas novas e unir comunidades que, muitas vezes, andam separadas: digital gaming, boardgames, TCG, simracing, programação, anime e manga. A ideia foi ficando a crescer até que deixou de ser só "um conceito bonito" e passou a ser uma vontade séria.
"Não era falta de trabalho, era falta de um espaço 'para pessoas'. Um sítio onde desse para conviver, jogar, descobrir hobbies, aprender coisas novas e unir comunidades que, muitas vezes, andam separadas. […] A ideia foi ficando a crescer até que deixou de ser só 'um conceito bonito' e passou a ser uma vontade séria."
Lembras-te do momento em que disseste: "É agora ou nunca"?
Lembro-me mais como uma sequência do que um momento único. Nós estávamos numa fase de expansão do escritório de programação para atacar outros mercados… e, entretanto, encontrámos este espaço. E foi mesmo aquele clique de paixão: só conseguíamos ver o potencial, o tamanho, a versatilidade. Houve um dia em que percebi que, se não aproveitasse aquela oportunidade, ia ficar anos a pensar "e se…?". E eu não sou muito de viver com "e se".
Porquê criar um gaming lounge? O que é que te apaixona neste conceito?
Porque é um conceito que junta pessoas de verdade. Um gaming lounge, quando é bem pensado, não é só consolas e máquinas. É comunidade. É um sítio onde alguém vem por causa de um jogo e acaba a fazer amigos, a descobrir boardgames, a experimentar VR, a ver um torneio, a entrar numa noite temática. Eu queria um espaço inclusivo, para quem já é geek assumido e para quem só quer passar um bom bocado sem pressão.
"Houve um dia em que percebi que, se não aproveitasse aquela oportunidade, ia ficar anos a pensar 'e se…?' […] E eu não sou muito de viver com 'e se'. [...] Não foi um salto no escuro."
Sempre foste um gamer? O que é que os jogos representam para ti?
Sempre joguei, mas, para mim, os jogos nunca foram só "tempo a passar". Sempre vi os jogos como desafios, como criatividade e como uma forma de estar com pessoas. E, hoje, vejo-os também como uma porta de entrada para outras coisas: estratégia, comunicação, trabalho em equipa, até curiosidade por tecnologia.
És programador, trabalhaste em restauração… sentes que todas essas experiências ajudaram a construir o empreendedor que és hoje?
Ajudaram muito. A programação ensinou-me disciplina, foco, capacidade de resolver problemas e pensar a longo prazo. A restauração ensinou-me coisas muito humanas: lidar com ritmo, pressão, pessoas diferentes, e, sobretudo, a importância do detalhe no atendimento. No fim, empreender é isto: resolver problemas e lidar com pessoas, todos os dias.
"Um gaming lounge, quando é bem pensado, não é só consolas e máquinas. É comunidade. [...] Aqui, o jogo é pretexto para conversar, para competir de forma saudável, para rir, para aprender coisas novas. [...] Sempre vi os jogos como desafios, como criatividade e como uma forma de estar com pessoas."
De que forma também a tua experiência enquanto programador te ajudou neste projeto?
Ajudou-me a encarar isto como um sistema completo e não como "uma loja com jogos". O fluxo do cliente, a experiência, o que corre mal, o que precisa de ser repetível, o que precisa de melhorar. E ajudou-me também na forma como planeio: medir, ajustar, iterar. A Crafty Play tem muito de criatividade, mas também tem muita engenharia por trás.
Que receios tiveste e o que tiveste de pesar na balança?
O receio principal era o clássico: investir e não resultar. E, depois, há o peso da responsabilidade, porque isto não é só um projeto "meu", é da empresa, é da equipa, é da família. O que me ajudou a avançar foi termos uma base sólida da empresa de software. Isso trouxe segurança para arriscar com mais cabeça e menos impulso. E, sinceramente, pesou muito uma coisa: a vontade de diversificar fontes de rendimento, que é importante para o futuro.
Alguma vez pensaste em desistir antes mesmo de começar?
Houve momentos de dúvida, claro. Quando as decisões começam a acumular ou quando tens mil coisas para resolver ao mesmo tempo dá vontade de simplificar a vida. Mas desistir a sério não. Até porque sabia que isto não era um capricho! Era uma visão que fazia sentido e que tinha sustentação.
O que foi mais difícil no processo até à abertura?
O mais difícil foi construir a identidade do espaço enquanto o estávamos a montar. Começámos com a ideia de boardgames e TCG, eu até pus a minha coleção pessoal disponível, para passar o bichinho às pessoas. Só que rapidamente percebemos que aquilo era uma parte pequena do todo… e ainda havia quase 200m² por preencher. Aí começou a fase mais desafiante: decidir o que acrescentar para criar um espaço coerente e completo, e não só "encher por encher".
"Ver pessoas a voltarem, a trazerem amigos, a tratarem o espaço como um ponto de encontro. […] Há um orgulho muito silencioso nisso. [...] Não é euforia. É aquela sensação de 'ok, isto está mesmo vivo'. Dá, sobretudo, um sentido de propósito."
Qual é o maior desafio de ser empresário em Portugal hoje em dia?
O peso de ter de ser tudo ao mesmo tempo: gestor, comerciante, comunicador, "resolve-tudo", e ainda manter qualidade. A burocracia, os custos e a falta de margem para erro tornam isso mais duro. O desafio é continuar a crescer sem perder o controlo e sem perder a cabeça.
"A programação ensinou-me disciplina, foco, capacidade de resolver problemas e pensar a longo prazo. […] No fim, empreender é isto: resolver problemas e lidar com pessoas, todos os dias. [...] A Crafty Play tem muito de criatividade, mas também tem muita engenharia por trás."
O que é que a Crafty Play tem de diferente dos outros espaços de jogos em Portugal? Como a descreverias a quem nunca lá foi? O que podemos jogar lá?
A Crafty Play é diferente porque não foi pensada só como "um sítio para jogar". Foi pensada como um espaço onde várias comunidades conseguem coexistir, sem uma apagar a outra: digital gaming, boardgames, TCG, sim racing, VR, e até noites temáticas e workshops. A quem nunca veio, eu descrevo como um ponto de encontro: podes vir competir num torneio, vir descobrir um hobby novo, vir com amigos passar uma tarde inteira, ou até fazer um evento de empresa ou um aniversário. Temos cerca de 250 jogos de tabuleiro, zona de TCG, quatro sim racing, seis VR, duas PS5, duas Nintendo Switch, uma Switch 2, e duas mesas de snooker, por isso, há sempre algo para experimentar, mesmo para quem não se considera gamer. E há uma parte que para mim é essencial: isto também é um espaço para comer, beber e partilhar momentos. O nosso menu foi pensado como aquelas noites em casa com amigos, em que se petisca e se conversa entre partidas, pizzas para partilhar, hambúrgueres, tostas e snacks. No fundo, a Crafty Play é isso: jogos, sim… mas, acima de tudo, pessoas.
A ideia é não ser apenas um espaço para gamers, mas, sim, um ponto de encontro mais abrangente?
Mais abrangente, sem dúvida. Quero que isto una pessoas. O gamer hardcore tem lugar aqui, mas também a família, o grupo de amigos, o pessoal dos boardgames, o pessoal do anime, as empresas que querem fazer eventos, workshops, apresentações. A ideia sempre foi ser "um espaço para todos".
Há quem associe jogos a time consuming e isolamento. O que dirias a quem pensa assim?
Diria que isso acontece quando o jogo é vivido de forma isolada e sem equilíbrio. Mas, num espaço como este, é exatamente o contrário: é social. Aqui, o jogo é pretexto para conversar, para competir de forma saudável, para rir, para aprender coisas novas. Muitas pessoas acabam por descobrir hobbies que nem imaginavam.
"Eu não queria só abrir um negócio. Eu queria criar um lugar. [...] Quero que isto una pessoas. […] A ideia sempre foi ser 'um espaço para todos'."
O que podemos esperar dos eventos e dos torneios?
Já começámos e tem sido um sucesso. Vamos a caminho do nosso 3.º torneio de FC 26. Começámos com duas consolas, o segundo já teve quatro, e o terceiro vai ter dez consolas ao mesmo tempo. Temos também provas mensais dedicadas a sim racing e vamos começar com torneios de sim racing, com prémios monetários, não só artigos. E estamos a abrir espaço para noites temáticas: quiz, How to Solve Murders, sessões de D&D… Isto vai crescer muito!
Qual foi o momento mais marcante até agora dentro do espaço?
Ver a evolução acontecer "à frente dos nossos olhos". Ver um torneio crescer de edição para edição, ver pessoas a voltarem, a trazerem amigos, a tratarem o espaço como um ponto de encontro. Há um orgulho muito silencioso nisso. Não é euforia. É aquela sensação de "ok, isto está mesmo vivo".
"Não deixes a vida passar enquanto imaginas. […] Uma dos meus lemas de vida é mesmo não viver com arrependimentos. [...] Se tens a oportunidade de tentar, tenta."
Qual é a sensação de entrares no espaço e veres pessoas a divertirem-se com algo que imaginaste do zero?
É uma sensação difícil de explicar. Dá orgulho, claro, mas dá, sobretudo, um sentido de propósito. Porque eu não queria só abrir um negócio. Eu queria criar um lugar. E, quando vês pessoas a rir, a competir, a descobrir jogos… percebes que não foi "só uma ideia", foi uma construção real.
"O receio principal era o clássico: investir e não resultar. […] Isto não é só um projeto 'meu', é da empresa, é da equipa, é da família. [...] O que me ajudou a avançar foi termos uma base sólida da empresa de software."
Arriscaste tudo, mas tens uma família numerosa. Como foi tomar essa decisão sendo pai de três filhos? Foi também a pensar no futuro deles?
Foi pesado, porque, quando és pai, não arriscas só por ti. Mas foi uma decisão pensada. Não foi salto no escuro. A empresa de programação continua a ser a base e isso ajudou-me a tomar esta decisão com maturidade. E, sim, claro que penso no futuro da minha família, não só financeiramente, mas também no exemplo: quero que vejam que é possível construir coisas com coragem e responsabilidade.
"Quando és pai, não arriscas só por ti. […] Quero que vejam que é possível construir coisas com coragem e responsabilidade. Isto não é um legado de obrigação, é um legado de possibilidades."
Como é conciliar a paternidade com esta nova aventura?
É um desafio diário. Há alturas em que a cabeça não desliga e eu tenho de me obrigar a estabelecer limites, porque o negócio puxa sempre. Tento ser muito consciente do tempo: quando estou com os meus filhos, quero estar mesmo presente, e quando estou na Crafty Play, quero estar totalmente focado no que é preciso fazer. Não é uma fórmula perfeita, mas vamos ajustando e aprendendo em família, dia após dia.
A tua mulher acompanha-te desde a adolescência. Que papel teve ela nesta aventura?
Teve um papel gigante. Ela conhece-me há tempo suficiente para perceber quando eu estou a puxar demais ou quando estou a desanimar. É suporte emocional, parceria e equilíbrio. Há decisões que só avançaram porque eu tinha alguém ao meu lado a dizer: "Vamos, mas com cabeça!"
Os teus filhos já são pequenos gamers? Gostavas que, um dia, fossem eles a assumir o comando do espaço?
Já têm o bichinho, cada um à sua maneira. Se, um dia, quiserem assumir, eu vou ficar orgulhoso, claro. Mas não quero que isso seja pressão. Quero que isto seja um legado de possibilidades, não uma obrigação.
"O mais difícil foi construir a identidade do espaço enquanto o estávamos a montar […] e decidir o que acrescentar para criar um espaço coerente e completo, e não só 'encher por encher'."
Sendo tu pai, gostavas que outros pais olhassem para a Crafty Play como um sítio seguro onde os filhos podem passar os tempos livres?
Sim, sem dúvida. Como pai, isso é uma preocupação real para mim e foi uma das coisas que tivemos em mente desde o início. Quero que outros pais sintam que a Crafty Play é um espaço organizado, com regras, respeito e um ambiente saudável, um sítio onde todos podem e devem divertir-se. E que cada visita seja um momento para recordar. E foi também por isso que começámos a apostar na organização de festas e de momentos em família: queremos que o espaço seja uma opção segura e tranquila para celebrar, conviver e criar memórias. No dia a dia, as crianças não podem estar cá sozinhas, mas a ideia é virem com os pais e poderem partilhar tempo juntos aqui dentro, jogar, comer qualquer coisa, e transformar uma simples visita num momento de família. Para mim, a Crafty Play não é só um sítio para os miúdos "passarem o tempo", é um sítio para pais e filhos passarem tempo juntos.
Como imaginas o Crafty Play daqui a cinco anos?
Com muita ambição, mas com pés assentes. 2026 já vai ser um ano grande: queremos chegar aos dezasseis sim racings dedicados, dez VR na arena, consolas retro, 365 boardgames diferentes, um simulador de avião com plataforma, mais workshops, mais eventos para empresas, mais aniversários e ser uma referência no mercado. Daqui a cinco anos, imagino a Crafty Play ainda mais completa, mais reconhecida e mais "casa" para a comunidade.
"O peso de ter de ser tudo ao mesmo tempo: gestor, comerciante, comunicador, 'resolve-tudo', e ainda manter qualidade. […] O desafio é continuar a crescer sem perder o controlo e sem perder a cabeça."
Se pudesses jogar um jogo que simbolizasse a tua vida neste momento, qual seria e porquê?
Provavelmente, um jogo de gestão com upgrades constantes, tipo aqueles em que vais desbloqueando novas áreas e melhorando tudo por fases. Porque é isso que isto tem sido: construir, testar, ajustar, crescer e manter a visão viva, sem perder o controlo.
O que dirias a quem tem um sonho guardado na gaveta, mas ainda não teve coragem de o pôr em prática?
Diria para não esperar pelo cenário perfeito. Planeia, faz contas, cria uma base segura… mas não deixes a vida passar enquanto imaginas. Eu só me apercebi há pouco tempo que aos 18 tentei abrir uma lan house, e, de certa forma, isto é esse sonho a acontecer agora, só que com muito mais maturidade e segurança. Uma dos meus lemas de vida é mesmo não viver com arrependimentos. Se tens a oportunidade de tentar, tenta.
