Crónicas

Ficção ou realidade? Dias antes de morrer, Clara Pinto Correia confessou que foi violada

A morte de Clara Pinto Correia surpreendeu Portugal.

A 25 de novembro, poucos dias antes de morrer, Clara Pinto Correia publicou uma crónica no Página Um, na qual revelava ter sido violada há cinco anos.

O texto terá sido escrito meses antes, aquando da aprovação por parte do parlamento português dos crimes de violação como crimes públicos, e agora está a dar que falar devido à revelação da alegada violação, com muitos a questionarem se a história seria real ou pura ficção.

Num artigo de opinião intitulado "Adeus, rainha", Pedro Almeida Vieira, diretor do Página Um, conta: "Ao longo destes anos, nunca soube delimitar com precisão onde terminava a sua memória e começava a ficção. Mas isso pouco importa: o grande escritor é, como escreveu Pessoa, um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir a dor que deveras sente. A Clara sabia isso melhor do que ninguém. A sua escrita não era autobiografia pura - era a reinvenção literária de si mesma, num país que nunca lhe perdoou ter ousado ser mais do que se espera de uma mulher inteligente."

"A única crónica que me aterrorizou, pela possível verdade nela contida, foi a do 'Me Too' [nome da crónica publicada por Clara Pinto Correia]. A primeira versão chegou-me em agosto, excruciante, quase insuportável. Durante meses pedi-lhe que ponderasse: não porque duvidasse da sua coragem, mas porque temia pela ferida que pudesse reabrir - nela e nos leitores. Um dia, porém, enviou um e-mail, dirigido a mim e a um amigo em comum, que nunca esquecerei: 'Peço-vos o que nunca pedi: leiam com atenção e falem comigo. Encaro isto como um dever cívico, mas não me sinto segura. Coragem.' Naquele apelo estava toda a Clara: a vulnerabilidade íntima e a valentia pública", relata ainda Pedro Almeida Vieira. 

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