Crónicas

"Porque é que o Pedro Jorge voltou a ganhar?", por Vera de Melo

A psicologia explica porque há pessoas que conquistam algo muito mais valioso do que um prémio: a confiança.

  • 27 jun, 17:29

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Ontem, o Pedro Jorge venceu o 'Desafio Final'. Mas esta não foi a primeira vez que o público o escolheu. Depois de já ter conquistado um reality show, voltou a reunir a preferência dos portugueses. E isso merece uma reflexão interessante: o que leva milhares de pessoas a confiar novamente na mesma pessoa?

A resposta pode estar na psicologia.

Vivemos numa época em que a atenção parece pertencer a quem faz mais barulho. A quem cria mais polémica. A quem surpreende a qualquer custo. No entanto, quando chega o momento de decidir, o cérebro humano procura algo diferente: coerência.

Existe um conceito muito estudado na psicologia chamado consistência comportamental. O nosso cérebro sente-se mais seguro perante pessoas cujo comportamento permanece relativamente estável ao longo do tempo. Não significa que nunca errem. Significa que aquilo que mostram hoje é compatível com aquilo que mostraram ontem. Essa coerência é interpretada como autenticidade e a autenticidade gera confiança.

Foi precisamente isso que muitos portugueses parecem ter encontrado no Pedro Jorge. Ao regressar a um formato tão exigente como o Desafio Final, teve uma desvantagem que poucos valorizam: já era conhecido. As expectativas eram maiores. Já não existia o fator surpresa. Havia apenas uma pergunta silenciosa: "Será que continua a ser a pessoa em quem acreditámos?"

E, para muitos espectadores, a resposta foi sim.

Há ainda outro fenómeno psicológico importante: as emoções negativas captam a nossa atenção, mas as emoções positivas influenciam as nossas decisões. Podemos passar dias a comentar conflitos, discussões e estratégias, mas, no momento de votar, muitas pessoas escolhem quem lhes transmite calma, estabilidade e segurança emocional.

Num reality show, isso faz toda a diferença.

Outro aspeto interessante é que a confiança não se constrói apenas através das palavras. Constrói-se pela repetição dos comportamentos. Sempre que alguém reage de forma semelhante perante situações diferentes, o cérebro reduz a sensação de incerteza. E quanto menor é a incerteza, maior tende a ser a confiança.

Talvez seja por isso que voltar a ganhar seja, do ponto de vista psicológico, um desafio ainda maior do que ganhar pela primeira vez. Na primeira participação existe curiosidade. Na segunda existe comparação. O público já conhece a pessoa, já criou expectativas e avalia constantemente se aquilo que vê confirma ou desmente a imagem que tinha construído.

Ontem, muitos portugueses decidiram que essa imagem permanecia intacta.

No fundo, esta vitória deixa uma lição que ultrapassa os reality shows. Podemos impressionar alguém uma vez com talento, estratégia ou carisma. Mas só conquistamos a confiança repetidamente quando somos percebidos como autênticos.

E talvez seja precisamente essa a maior vitória do Pedro Jorge. Não apenas voltar a ganhar um programa. Mas mostrar que, para muitas pessoas, a confiança continua a valer mais do que o espetáculo.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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